Henrique Maluf

Caneta Azul, Azul Caneta: o "embelezamento" do bullying

Por 05/11/2019, 07h:29 - Atualizado: 05/11/2019, 07h:44

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

Com certeza você ouviu em algum lugar o novo hit brasileiro “Caneta Azul, Azul Caneta, Caneta Azul, está marcada com a minha letra”. Um sucesso absoluto, enquanto escrevo estas palavras iniciais a música está com quase 17 milhões de visualizações no YouTube, confesso que não sei nem escrever isso em numerais.

Isso tudo porque Wesley Safadão cantou a música num show, Alok nos Estados Unidos fez a geral dançar ao som de Caneta Azul, além de Simoni e Simara, Neymar e outros famosos dispararem em suas redes sociais a tão badalada canção.

Manoel está famoso por ser ridicularizado em rede nacional

É claro que o fenômeno dos anos 2010 contribuiu muito, o WhatsApp. Os grupos bombaram nas últimas semanas com o hit, já recebi versão rock, forró, árabe, pagode, dance, de todo tipo que podemos pensar.

Quem está muito feliz com tudo isso é o Manoel Gomes, o maranhense de 49 anos, compositor da música. Sua vida teve uma reviravolta muito grande nas duas últimas semanas, inclusive largando seu emprego de vigilante. Antes de entrar na minha opinião crítica à música, quero lembrar de outros casos muito semelhantes.

Quem não lembra do cantor piauiense Gleyfy Brauly, que no ano de 2017 ficou conhecido nas redes sociais ao interpretar, com seu teclado, clássicos de bandas como Scorpions e Pink Floyd, inclusive com proporções mundiais quando Nick Mason, baterista do Pink Floyd, compartilhou o vídeo de Gleyfy em sua página junto ao comentário: “Quando o som é tão bom, você não precisa saber todas as palavras”.

No mesmo ano o “Guitarra Humana” estourou nas redes sociais, o rapaz cantava e imitava o som de uma guitarra, o sucesso foi tão grande que ele foi parar até no Cartoon Network. E no ano de 2012, uma família muito simpática cantava um Hino de Louvor no sofá da sala quando no refrão o menino solta a voz no: “Pra nossa alegria”, nossa eles foram uma febre e tanto.

Lembro também de casos onde reportagens como a do “Jeremias Muito Loko, se eu pudesse matava mil”, ou da senhora que reclamava que com o benefício do Bolsa-família ela não conseguia comprar nenhuma calça pra sua filha, “pois uma calça pra uma jovem de 16 anos, é mais de trezentos reais”. Assim como tantos outros, esses “memes” tiveram suas versões remixadas e tomaram conta das redes sociais e baladas.

Em todos esses casos temos em comum algo de muito simples, sincero e real. São 15 minutos de fama à pessoas comuns, vigilantes cantores, tecladistas pedreiros, cidadãos comuns, completamente anônimos, a forma como foi concebido seu “sucesso” é justamente por ser de maneira totalmente despretensiosa, espontânea e simples.

A música na minha vida revelou-se de várias formas, além profissão, despertou-me o interesse pelas artes, poesia, filosofia e amor. Mas principalmente que ela não escolhe onde acontecer, uns chamam de Dom Divino, outros de pré-disposição. Algumas pessoas apenas abrem a boca, ou pegam um instrumento, e pronto, fez-se som, música.

Gleyfy Brauly cantava músicas em inglês, inventando uma letra qualquer, porque ele não sabe falar o idioma, ou se quer ler, tanto que o comentário do baterista de Nick Manson o valorizava enquanto músico. Os irmãos “pra nossa alegria” fecharam vários contratos de publicidade, mas não tiveram êxito na possível carreira artística.

Assim como esses e tantos outros “memes”, Manoel Gomes e sua caneta azul não conquistaram o Brasil pela sua criatividade, ou musicalidade, ou forma peculiar de cantar, ou pela poética da canção. Manoel não tocou o coração dos brasileiros, não está sendo admirado ou servindo de inspiração para novos cantores ou compositores.

As pessoas estão rindo dele, zombando dele, uma corrente de deboche numa explosão de memes e figurinhas. Manoel está famoso por ser ridicularizado em rede nacional. Faço uma analogia direta com o filme do Coringa, onde seu sonho era ir a um famoso talk show como comediante de stand-up, e ele acaba indo por ser uma piada, um viral de internet, exatamente como a caneta azul.

Esses astros pops da música nacional repetiram seu refrão para arrancar risadas, não suspiros

Pra escrever esse artigo fui dar uma pesquisada no que tem na internet sobre Manoel, no Instagram ele usa a hashtag “eu vou deixar de ser besta”, nos auge dos seus 49 anos, com mais de 20 músicas compostas, ele está acreditando que as pessoas gostam da música dele e entenderam a mensagem que gostaria de passar, que sem dúvida não é de humor, com certeza ele não fez essa canção pra ninguém rir.

O lado bom disso tudo é que a Arte, a Música mais uma vez se fez divina, e está transformando a vida do Manoel pra melhor, já largou o emprego de vigilante, já fez um show, mesmo que momentaneamente. O lado ruim é que toda essa projeção seja fruto da ironia e do sarcasmo, do menosprezo à sua simplicidade, à sua cultura.

Todo alvoroço de Caneta Azul não passa de um “embelezamento” do bullying. Esses astros pops da música nacional repetiram seu refrão para arrancar risadas, não suspiros. Espero que depois que tudo isso passar, Manoel ainda tenha forças para compor, cantar e continuar a viver sua simples e verdadeira vida.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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Comentários (2)

  • Ivana Bognar | Terça-Feira, 12 de Novembro de 2019, 11h33
    0
    0

    Falou tudo que penso... muitos ridicularizando a pessoa e se divertindo com isso... Uma lástima! Tanta coisa boa pra divulgar...

  • Nero | Terça-Feira, 05 de Novembro de 2019, 14h36
    3
    0

    Expressou o meu pensamento. Estão se aproveitando da simplicidade e da ilusão de Manoel. Nas entrevistas, se vê que ele crê piamente em que as pessoas estão reconhecendo nele um talento para a composição.

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