Henrique Maluf

Chora a nossa pátria mãe gentil, Aldir Blanc

Por 05/05/2020, 07h:03 - Atualizado: 05/05/2020, 07h:10

Arte/Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

Mais um gênio da música popular brasileira se vai e nos deixam orfãos, dono de uma perspicácia poética, Aldir Blanc é mais um entre as mais de 7.300 mortes causadas pela Covid-19 no Brasil, isso até esta última segunda feira.

Contextualizar a vida de Aldir é fácil, ele é aquele jovem que largou a medicina e dedicou sua vida a poesia, sua obra musical e literária são imensas e marcou a vida de várias gerações de brasileiros. Ou seja, viveu o sonho de mudar o mundo, o sonho de jogar idéias, pensamentos e desejos através de sua arte, a poesia.

A parte mais complexa está em quantificar o que ele fez, imensa e vasta são palavras infêmas para quem escreveu mais de 600 músicas, 12 livros, além de ter sido um cronista com grande repertório de assinaturas em colunas, jornais e revistas. Nomes como “O Pasquim”, “Tribuna da Imprensa”, “Última Hora”, foram alguns dos jornais que ele escrevia, esses eram os mais intelectualizados no jornalismo do Rio de Janeiro.

Blanc era o homem das palavras e isso naturalmente trouxe para sua vida musical inúmeros parceiros, nomes como Ivan Lins, Roberto Menescal, Edu Lobo, Carlos Lyra, Guinga, Moacyr Luz, Mauricio Tapajós, Wagner Tiso, Cristóvão Bastos, dentre outros.

Porém houve uma parceria de valor inestimável para a música popular brasileira, me atrevo a dizer que essa parceria, se não for maior, é no mínimo igual as parcerias como as de Caetano e Gil, Vinicius e Tom e Milton e Lô Borges, outros grandes gênios na arte da composição. Eu falo da parceria entre de João Bosco e Aldir Blanc.

Juntos Blanc e Bosco foram responsáveis por canções que compõem a memória histórica e afetiva de um povo sedento por arte, por cultura e por liberdade.

Canções como “O Mestre Sala dos Mares”, “Incompatibilidade de Gênios”, “Dois pra lá, Dois pra cá”, “Linha de Passe”, “De Frente pro Crime”, “Corsário”, “Coisa Feita”, “Bala com Bala”, dentre muitas outras. Porém ssa parceria teve uma terceira pessoa envolvida, nada mais, nada menos que Elis Regina, ela sacramentou a dupla Blanc e Bosco, dando interpretações viscerais a várias canções dos dois, um sucesso meteórico.

Quero aqui destacar a icônica “O bêbado e a equilibrista”, feita no natal de 1977, o mote foi o falecimento de Charles Chaplin, seus versos iniciais “Caía a tarde feito um viaduto e um bêbado trajando luto, me lembrou Carlitos”, o viaduto é referência a um elevado que ruiu e matou 29 pessoas. Noutra parte, o verso “choram Marias e Clarices” é alusão direta as viúvas de Manuel Fiel e Vladmir Herzog, mortos nos porões da ditadura.

Quero aqui destacar a icônica “O bêbado e a equilibrista”, feita no natal de 1977, o mote foi o falecimento de Charles Chaplin, seus versos iniciais “Caía a tarde feito um viaduto e um bêbado trajando luto, me lembrou Carlitos”, o viaduto é referência a um elevado que ruiu e matou 29 pessoas. Noutra parte, o verso “choram Marias e Clarices” é alusão direta as viúvas de Manuel Fiel e Vladmir Herzog, mortos nos porões da ditadura

A canção representa um retrato do Brasil no final do período ditatorial, com o lamento de mães pela falta de seus filhos, os “Carlitos” tentando sobreviver, de forma oprimida, porém sempre bem humorado e a equilibrista, representando nossa esperança, se equilibrando e sobrevivendo. “O bêbado e a Equilibrista” tornou-se o hino informal da Lei da Anistia de 79, lei essa que permitiu com que brasileiros exilados pelos militares pudessem voltar para sua pátria amada, o Brasil.

Blanc e Bosco terminaram as parcerias em 1982, e como ambos afirmaram, sem brigas, seguiram suas carreiras. O reencontro deles só veio acontecer em 2002, quando regravaram “O Bêbado e a Equilibrista”, a emblemática canção de resistência da dupla.

Pra mim a morte de Blanc serve como um “reavivamento” do que foi a garra de jovens artistas que deram o sangue na luta pelo Estado Democrático de Direito. Pela tão sofrida e sonhada liberdade, não esqueçamos o que sofremos, ditadura nunca mais. Aos que vislumbram uma reedição dessa página infeliz da nossa história, por Aldir vos digo: “Azar. A esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista, tem que continuar.”

Transcrevo aqui a mensagem que João Bosco deixou em suas redes sociais:

“Peço desculpas aos que têm me procurado hoje. Não tenho condições de falar. Aldir foi mais do que um amigo pra mim. Ele se confunde com a minha própria vida. A cada show, cada canção, em cada cidade, era ele que falava em mim. Mesmo quando estivemos afastados, ele esteve comigo. E quando nos reaproximamos foi como se tivéssemos apenas nos despedido na madrugada anterior. Desde então, voltamos a nos falar ininterruptamente. Ele com aquele humor divino. Sempre apaixonado pelos netos. Ele médico, eu hipocondríaco. Fomos amigos novos e antigos. Mas sobretudo eternos. Não existe João sem Aldir. Felizmente nossas canções estão aí para nos sobreviver. E como sempre ele falará em mim, estará vivo em mim, a cada vez que eu cantá-las. Hoje é um dos dias mais difíceis da minha vida. Meu coração está com Mari, companheira de Aldir, com seus filhos e netos. Perco o maior amigo, mas ganho, nesse mar de tristeza, uma razão pra viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui pra fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio.”

Henrique Maluf é formado em Música pela UFMT, produtor cultural, pesquisador de cultura regional e arte educador. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças. E-mail: herojama@gmail.com

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