Henrique Maluf

Eu não consigo respirar! Vidas negras importam

Por 02/06/2020, 07h:13 - Atualizado: 02/06/2020, 07h:16

Arte/Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

Antes de mais nada, ao falar de racismo, me coloco no meu lugar, entendo e assumo meus privilégios, e peço licença ao lugar de fala que não é meu. Mas até quando vamos ficar calados perante o racismo? 

George Floyd é o nome que ganhou eco e vem cutucando a ferida do racismo mundo a fora. Essa ferida que nunca cicatriza, passam anos, décadas, séculos e ela continua visceralmente exposta e jorrando sangue negro a todo tempo.

O dia em que enxergarmos e combatermos o racismo estrutural não teremos que velar George Floyd, o menino João Pedro, a garota Ágatha, o pedreiro Amarildo, o Mestre Môa do Katende, nesse dia não confundiremos guarda-chuvas com fuzis, nesse dia não “meteremos” 80 balas num carro de uma família

Floyd foi morto por asfixia depois que um policial branco se ajoelhou em seu pescoço por mais de oito minutos, sendo que ele já estava imobilizado, algemado e deitado de bruços no chão. Esse fato aconteceu em Minneapolis nos Estados Unidos da América, numa loja onde Floyd era cliente, o atendente ligou para a polícia ao notar que ele havia usado uma nota de 20 dólares falsa para comprar uma carteira de cigarros.

Havia testemunhas que filmaram o lamentável episódio, são cenas fortes, não pela hostilidade e força desmedida dos policiais, mas sim da forma que aconteceu, Floyd não oferecia nenhuma resistência, estava visivelmente apavorado e angustiado. No chão, enquanto o policial pressionava sua nuca, Floyd suplicou várias vezes para o policial tirasse o joelho. Suas últimas palavras foram “Eu não consigo respirar”.

Essas cenas, gravadas por celulares, foi compartilhada por muitas pessoas, em pouco tempo teve grande repercurssão, o que veio a desencadear uma onda de protestos nos Estados Unidos e no mundo contra o racismo.

Suas últimas palavras “I can’t breath” (eu não consigo respirar) e o termo “Black Life Matters” (vidas negras importam) viraram o grito de guerra de milhares de pessoas que foram às ruas manifestar sua indignação pela morte de Floyd. Os punhos cerrados estão erguidos por toda parte. Esse símbolo, carregado de importantes siginificados, principalmente nas lutas de classes, ganhou destaque quando usado por nomes como Martin Luther King, Malcolm X, Muhammad Ali e aos Panteras Negras como um gesto de resistência e luta contra o racismo, tanto de forma pacífica ou pelo combate.

No início os protestos foram pacíficos, mas logo perdeu esse caráter. Manisfestantes invadiram delegacias, incendiaram carros, imóveis e fizeram saques em Minneapolis. A onda de protestos vem a cada dia ganhando mais força dentro dos Estados Unidos, grandes cidades vêm aderindo os protestos. Mais de 1600 prisões, 4 mortes, toque de recolher, força nacional nas ruas, a casa branca de luzes apagadas. Um clima tenso, de guerra civíl, em meio a maior crise do século, a pandemia do novo coronavírus, os Estados Unidos estão carregando não só a liderança no balanço da Covid-19.

George Floyd é mais um dos milhares de trabalhadores que perderam seus empregos e estão à deriva no mar do capitalismo selvagem, na terra da liberdade, onde sua gestão se mostra ineficaz e desmascara um estado que falhou miseravelmente em administrar o “maior” país do mundo numa crise sanitária, econômica e emocional.

Nos últimos 20 anos o Brasil deu passos muito importantes nas suas políticas públicas relacionadas às minorias sociais, tais como os direitos dos negros, mulheres, LGBT, dentre outros, o que gerou grandes debates e uma sensação de que estaríamos caminhando para uma sociedade menos segregadora e preconceituosa. Começamos a debater aspectos mais profundos e delicados que possibilitariam uma real e significativa mudança no tecido social, como discutir o racismo estrutural.

O racismo estrutural é aquele mais difícil de perceber, está entranhado em nossos costumes familiares, na escola, no trabalho, no dia-a-dia. Sabe aquelas “brincadeiras” e “piadas” que sempre fazíamos? Então, elas são as responsáveis por esse tipo de racismo, que posso dizer que é tão danoso quanto um xingamento ou agressão, pois não vemos “maldade” nessas antigas práticas, porém elas dão suporte, estrutura e contribuem na manutenção do racismo.

 Racismo não se discute, se combate

O dia em que enxergarmos e combatermos o racismo estrutural não teremos que velar George Floyd, o menino João Pedro, a garota Ágatha, o pedreiro Amarildo, o Mestre Môa do Katende, nesse dia não confundiremos guarda-chuvas com fuzis, nesse dia não “meteremos” 80 balas num carro de uma família. Nesse dia não teremos também pessoas comemorando a morte de alguém, nem teríamos medo de entrar em um avião pilotado por um cotista ou de aceitar ser operado por um médico cotista, se quer precisaríamos usar arrobas para pesar afrodecendentes, muito menos idolatraríamos alguém assumidamente racista, homofóbico, machista e intolerante.

Todo esse movimento que a cruel morte de George Floyd tem causado é importante para entendermos que o racismo não se discute, se combate. O levante do povo nas ruas é a mostra positiva de que ainda há pessoas que se preocupam com seu semelhante, independente de quem seja, como um cara muito legal disse: “Amar o próximo, como a ti mesmo”.

Henrique Maluf é formado em Música pela UFMT, produtor cultural, pesquisador de cultura regional e arte educador. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças. E-mail: herojama@gmail.com

Postar um novo comentário

Cáceres, lockdown e frases de alerta

francis maris 400 curtinha   Em Cáceres, o prefeito Francis Maris (foto) decretou lockdown desde a última segunda, dia 29, como forma de forçar os moradores a permanecer em casa para conter o avanço da Covid-19. Mas as medidas restritivas não estão surtindo tanto efeito na prática. Muitos continuam...

4 prefeitos de MT com coronavírus

luiz binotti 400 curtinha   Pelo menos quatro prefeitos em Mato Grosso já foram diagnosticados com Covid-19. O caso mais recente envolve Luiz Binotti (foto), de Lucas do Rio Verde. Ele aguarda resultado de exames, mas já se encontra em isolamento domiciliar. Com sintomas do novo coronavírus, Binotti decidiu ficar em casa. De um...

Forçando cuiabanos a ficar em casa

emanuel pinheiro 400 curtinha   Acuado por causa do avanço dos casos de Covid-19, o que tem provocado colapso na rede pública de saúde, principalmente em Cuiabá, o prefeito Emanuel Pinheiro (foto) decidiu adotar medidas mais restritivas para conter circulação e aglomerações de pessoas,...

Relação tensa e agora sem assessores

niuan ribeiro 400 curtinha   A relação política entre o prefeito Emanuel Pinheiro e o vice Niuan Ribeiro (foto), em Cuiabá, deve azedar ainda mais. Ambos estão rompidos politicamente desde o ano passado. Niuan, que atua no 6º andar do Palácio Alencastro de olho nas ações de Emanuel, que...

PEC da Previdência na pauta nesta 5ª

dilmar dal bosco 400 curtinha   A polêmica e controversa PEC da Previdência, apresentada pelo governador Mauro, deve ser apreciada nesta quinta, em primeira votação, pelos deputados. O Executivo conseguiu os votos mínimos necessários para conseguir aprovação. Deputados da oposição...

Caminho bem consolidado à reeleição

leonardo 400 curtinha   Dos prefeitos que podem ir à reeleição de cidades pólos, o que encontra situação mais confortável é Leonardo Bortolini, o Léo (foto), de Primavera do Leste. Bem articulado e habilidoso politicamente e com uma relação extensa de obras e...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Até dezembro, o IFMT terá eleição para Reitoria. Quem você acha que será eleito dos candidatos abaixos?

Deiver Alessandro

Julio Santos

Nenhum deles

Não tenho ideia

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.