Henrique Maluf

Festas de santo, a matemática e a discriminação

Por 20/08/2019, 07h:13 - Atualizado: 20/08/2019, 07h:20

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

Lembro-me como se fosse hoje, em Cáceres, como de bom e velho costume minha mãe ia as festas de santo, como a do padroeiro São Luiz de Cáceres, Santo Antônio, São Pedro. Me lembro de uma em especial, a de São Sebastião, realizada pela família Ramos numa fazenda e durava cerca de 3 dias, erguiam-se os mastros, rezavam-se as ladainhas, todos carregados de muita fé.

Lembro-me como se fosse hoje, em Cáceres, como de bom e velho costume minha mãe ia as festas de santo

Enquanto isso o boi já estava no rolete, a caixa de som já estava preparada, o teclado, o acordeão e harpa já estavam encostadas ali no canto do salão – varanda da casa, eu já tinha um fascínio imenso por instrumentos. Quando acabava a reza e começava o baile, nós – as crianças da época – íamos brincar, era pega-pega, esconde-esconde e por ai vai. Eu gostava muito de subir em árvores e de cima de alguma delas vi uma cena que até hoje está cravada no meu imaginário.

Quando os músicos começavam a puxar os chamamés pantaneiros, polkas paraguaias e rasqueados, o salão enchia e os casais dançavam bem ligeiros no salão. Mas o que me deixava curioso era quando tocavam uma música diferente dessas outras, onde os casais se separavam e começavam a dançar sozinhos.

Eles giravam no salão de uma forma muito natural, mas visto ali de cima da árvore, a forma em que as pessoas dançavam, parecia algo muito organizado. O meio quase não se mexia, rodava no mesmo lugar, e as outras pessoas rodeavam esse meio, e assim consequentemente, formando uma grande roda que parecia um caracol gigante.

Mais tarde, já na adolescência, nos estudos de matemática que eu descobri que aquela roda tinha o formato idêntico a uma sequência de Fibonacci – uma sucessão de números que obedecem um padrão, onde cada elemento subsequente é a soma dos dois anteriores. Os números da sequência formam a chamada "proporção áurea", um conceito visual muito aplicado nas artes plásticas, arquitetura e design. A sequência está presente em toda a natureza, portanto, nas flores, árvores, ondas, conchas, furacões, no do rosto simétrico do ser humano, em suas articulações, seus batimentos cardíacos e em seu DNA. Eles estavam dançando a Cumbia.

A Cumbia é um gênero musical originado na Colômbia, surgida no século XVIII, seu nome tem origem no vocábulo africano “cumbé” que significa festa. Sua surgimento se deu do sincretismo das culturas indígenas, africanas e em menor escala europeias. Tal mestiçagem é notada logo de cara pelos instrumentos musicais. As maracas e gaitas indígenas e os tambores africano dão vida a esse envolvente ritmo. Mais um gênero musical sul americana, com forte influência africana.

Mas voltando àquela doce lembrança das pessoas dançando cumbia nas festas de santo da fronteiriça Cáceres, penso em convidar algum matemático para uma análise mais profunda desse devaneio infantil,

Nos dias de hoje grande parte da América ouve a Cumbia e acabaram por incorpora-la à sua cultura. Está presente em países como El Salvador, Chile, Estados Unidos da América, Paraguai, Uruguai, Peru, México, Bolívia e Argentina. Ela foi se transmutando, incorporando elementos musicais, estéticos e culturais por onde passava, tomando diversas formas e influenciando no surgimento de outros estilos.

Nas minhas viagens aqui pela América do Sul, ouvi muita cumbia nas Jukebox e ao vivo em casas de shows, ela é realmente muito popular, historicamente, a cumbia está para América Latina, assim como o samba está o Brasil, e atualmente, está para américa latina, assim como o funk carioca para o Brasil, ou seja, um fenômeno. E as coincidências não param ai.

Nas periferias da Argentina, no final dos anos 90, nasceu a Cumbia Villera, que baseia seu som no uso de sintetizadores, efeitos sonoros, teclados, tambores eletrônicos e outros instrumentos elétricos. O governo argentino considerou a difusão do estilo pelo país como sendo um fator para o aumento da criminalidade, a semelhança com o funk não para somente no fato de ser uma música nascida nos guetos. No Brasil em 2017 tramitava no congresso um projeto de lei que visava a criminalização do funk carioca, assim como foi com o samba, a capoeira, o rap, uma dura manutenção da discriminação estrutural que sofre a juventude periférica brasileira.

Mas voltando aquela doce lembrança das pessoas dançando cumbia nas festas de santo da fronteiriça Cáceres, penso em convidar algum matemático para uma análise mais profunda desse devaneio infantil, para que ele ponha na minha cabeça que aquilo que enxerguei não era a sequência Fibonacci, ou que sim, provando que a proporção áurea está presente, também, nos salões onde se dança solto a cumbia.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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Comentários (1)

  • MILTON PEREIRA DE PINHO | Quarta-Feira, 21 de Agosto de 2019, 16h50
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    0

    Lindo texto! meu amigo conterrâneo Henrique Maluf. Eu vi isso tudo também e sabemos que chamame e rasqueado ainda está vivo nas festas de Cáceres.

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