Juína, uma cidade multicultural e modelo de educação e diversidade

Por 14/05/2019, 07h:29 - Atualizado: 14/05/2019, 07h:38

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Henrique Maluf

Na contramão do que temos visto no Brasil nos últimos dias, principalmente em relação a educação, ao ensino público e a diversidade, Juína, uma cidade isolada na Amazônia mato-grossense, dá uma aula de cidadania, pluralidade, respeito as diferenças, e de que a educação é o caminho para uma sociedade evoluída.

Deparei-me com um festival grande, com porte para estar no circuito nacional, não fica atrás de nenhum outro festival de música do Estado

Nessa última semana estive em Juína para compor o corpo de jurados do 26° FESCAJU (Festival da Canção Juinense), um convite que aceitei de imediato. Ao chegar lá me deparei com um festival grande, com porte para estar no circuito nacional, não fica atrás de nenhum outro festival de música do Estado.

O FESCAJU é realizado na semana de aniversário da cidade, que no sábado completou 37 anos, um evento grandioso no centro de eventos (a céu aberto). Na entrada um enorme letreiro me chamou atenção: “UMA CIDADE MULTICULTURAL”, sobreposto havia uma foto com nordestinos, sulistas, negros, e centralizado uma índia com seu filho ao colo, o hall de entrada com tapetes vermelhos, lustres e banners informativos falando sobre o termo multicultural e o processo de povoamento de Juína. 

Já dentro primeira coisa que vejo é outro enorme letreiro: “JUÍNA CIDADE EDUCADORA” e atrás um espaço para jovens e crianças, haviam livros, pula-pula, vídeo game, pintura facial, dentre várias atividades monitoradas. Alguns painéis informativos sobre projetos de reciclagem, ações de sustentabilidade, educação e um maior descrito Agenda 2030 da ONU.

No lado oposto um espaço para artesanatos, outro para agronegócios, praças de alimentação, e um lounge central com sofás bem confortáveis, decoração rustica e ao fundo um palco gigantesco, por um momento quis ficar ali só passeando e desfrutando das atividades que haviam.

No tablado cultural haviam apresentações menores, geralmente de dança, com CTG, dança egípcia, uma escola municipal que homenageou Cuiabá pelos 300 anos com crianças dançando Siriri e uma apresentação que muito me interessou, a da tribo Cinta Larga, sim indígenas. Prestei muita atenção, pois há muito tempo não via um indígena, percebo também alguns olhares desgostosos e uns comentários de mal gosto em relação aos irmãos (como eram chamados pelo âncora).

Foram 5 dias na cidade fazendo meu papel de jurado daqueles incríveis cantores que subiam ao palco, uma tarefa nada fácil, mas gratificante. Nos momentos que estive desocupado fui conhecendo aos poucos o significado de cada uma daquelas mensagens carregadas de simbologia que eu via, e num papo descontraído, Adriano, o Secretário Adjunto de Cultura me contou como é a gestão de cultura e educação de Juína.

Uma das maiores jazidas de diamante do mundo atraiu o Brasil para lá, seu povoamento é muito diverso, e claro por lá haviam os nativos, uma das explicações pro termo cidade multicultural, e eu já havia percebido como estavam todos agregados no evento, de forma tão natural, que passavam despercebidos, a não ser quando algum grupo de indígenas conversavam em sua língua nativa.

Adriano me conta que todo o dinheiro investido na cultura é pensado de forma que traga devolução à sociedade através de reflexões, abordando temáticas ligadas as questões como racismo, preconceito, homofobia, misoginia, dentre outros, e que estão preocupados em provocar o empoderamento das minorias, tais como indígenas, negros, mulheres, comunidade LGBT, a gestão cultural vê a igualdade social como um caminho a ser trilhado, nos eventos públicos não há camarotes, todos se misturam.

Alguns fazem cara feia perante indígenas, ou LGBT’s, mas dividem o mesmo espaço e aos poucos vão diminuindo a cultura da segregação

No ano passado Juína ganhou um prêmio por atender dois dos dezessete requisitos da agenda 2030 da ONU, que é um acordão mundial que visa ações que beneficiem a sustentabilidade, o combate ao aquecimento global, entre outros. Nesse embalo educacional Juína é a 17° cidade do país a aderir a carta internacional da UNESCO para receber o título de cidade educadora, e a partir disso o município tem a obrigação de alinhar toda a rede de ensino (municipal, estadual e federal) nessa cartilha. O plano de metas da cidade educadora é de 10 anos, e em menos de 2 anos foram atingidas metade dessas metas.

Sua biblioteca de 700 foi para 4000 usuários o que lhe trouxe mais um prêmio nacional, Juína é a segunda cidade no Brasil a ter o plano municipal do livro, leitura, literatura e biblioteca. O Tribunal de Contas do Estado definiu seu modelo de biblioteca pública como um case de sucesso, e vão enviar para todos municípios de Mato Grosso o plano de gestão de bibliotecas juinense.

O empresariado de uma forma geral financia as ações sociais e culturais da cidade, mesmo uma grande parte sendo oposição ao governo municipal, porém enxergam que essas ações só beneficiam a cidade, alguns fazem “cara feia” perante indígenas, ou LGBT’s, mas dividem o mesmo espaço e aos poucos vão diminuindo a cultura da segregação.

Juína, parabéns pelos seus 37 anos e que a dedicação de seus gestores na valorização da educação, cultura e diversidade sirvam de exemplo para todo país.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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Comentários (1)

  • Ivone Menegat | Terça-Feira, 14 de Maio de 2019, 16h59
    1
    0

    Parabéns pelo texto, mais só um lembrete o aniversário da cidade não foi no sábado, mas sim na quinta-feira 9 de maio.

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