Henrique Maluf

Mangueira 2020: Jesus(es), minorias e Bolsonaro

Por 25/02/2020, 07h:51 - Atualizado: 25/02/2020, 07h:58

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

A Estação Primeira de Mangueira, ou simplesmente Mangueira, é uma escola de samba do Rio de Janeiro, uma das mais tradicionais sendo a segunda com mais títulos, um total de 20, atrás apenas da Portela, com 22.

O Carnaval do Rio de Janeiro é o maior do mundo, os holofotes miram o sambódromo para apreciar essa linda festa. A Mangueira é a atual campeã e conquistou seu último título com um enredo muito forte e engajado, em que contava a história do Brasil dando foco aos nossos heróis da resistência negra e indígena.

O atual carnavalesco da escola é o jovem Leandro Vieira, que estreou em 2016 conquistando o título de campeã num samba enredo que homenageava Maria Bethânia. Leandro trouxe enredos mais politizados para a Mangueira, em 2019 foi fortemente aplaudida ao falar da vereadora Marielle Franco, num desfile que ficará para posteridade, a campeã do povo.

Neste último domingo (23) a Mangueira clamou por respeito e tolerância, apontando a violência e o fundamentalismo religioso como algozes das minorias sociais, e para ilustrar seu pedido desfilou uma das histórias mais contadas do mundo, a de Jesus Cristo, porém de uma maneira diferente da que sempre ouvimos. A escola trouxe várias versões de Jesus e de como ele poderia ser nos dias atuais, um índio, uma mulher, um negro, um favelado, um preso.

A comissão de frente trouxe policias violentos agredindo os dançarinos, que representavam pobres em bailes funks no morro, entre eles, também sendo agredido, o próprio Cristo, que ali tinha a aparência que nos foi desenhada a vida toda: branco e de cabelos e barbas longas.

No carro abre-alas a cantora Alcione e Nelson Sargento representavam João e Maria, pais de um Jesus indígena cercado por anjinhos brancos. Outra versão impactante foi a feminina, representada pela rainha de bateria Evelyn Bastos, vestida de roxo, acorrentada e com coroa de espinhos, ela não sambou na avenida.

A porta bandeiras foi cortejada por um mestre sala negro de cabelos trançados – dreadlock – e logo um carro alegórico com um menino Jesus negro, com vestimentas cheia de pedras brilhantes e uma enorme coroa, representação do Cristo Rei e também trouxe para a avenida um pastor que representou Cristo como um morador de rua.

Cristo morre todos os dias por meio do genocídio de jovens negros nas periferias brasileiras e também no assassinato de indígenas, trabalhadores rurais

Henrique Maluf

A Mangueira trouxe uma das alegorias mais emblemáticas da história do carnaval do Rio, um Jesus Cristo negro e jovem, com ares de morador de comunidade, com uma tatuagem em forma de cruz no pescoço, cabelo crespo e pintado de loiro, crucificado e crivado de balas, no carro, ainda, é mostrado a crucificação de mulheres, indígenas, LGBTQI+ e outras minorias. Ainda houve um último carro alegórico apresentando a ressurreição de Cristo, com um Jesus negro ascendendo aos céus.

A escola fez várias menções ao governo Jair Bolsonaro, a ala “Bandido bom é bandido morto” (ala que antecede o Cristo negro cravejado de balas) faz uma crítica direta ao discurso da extrema-direita bolsonarista, exibindo como vítimas os grupos mais vulnerabilizados da sociedade. Há também um trecho do samba enredo que diz: “Favela, pega visão. Não tem futuro sem partilha. Nem messias de arma na mão”.

Diferente do ano passado, a Mangueira não empolgou o público, seus aplausos foram contidos, além de alguns pequenos problemas técnicos, como carro emperrado. Na minha opinião, a escola não se consagra a campeã de 2020. Quando houve o anúncio do tema, esferas conservadoras da comunidade cristã se manifestaram de formas exaltadas, o que resultou num abaixo assinado de mais de 90 mil assinaturas contra a escola, obviamente, um dos riscos ao tratar de um assunto tão pragmático e velado.

Porém, eu me senti feliz com que vi, eu acho Jesus um cara muito legal, o que não mudaria em nada se ele fosse negro, índio ou mulher, tampouco sua orientação sexual o transformaria numa má pessoa. Seu grande papel foi vir a terra e dar sua vida em salvação da nossa, para que, simplesmente, entendêssemos que Deus é amor.

Cristo morre todos os dias por meio do genocídio de jovens negros nas periferias brasileiras e também no assassinato de indígenas, trabalhadores rurais. Ele morre junto com cada mulher assassinada dentro de casa pelo seu companheiro, ele agoniza junto com a população LGBTQI+ que é brutalmente espancada todos os dias, apenas por serem quem são, humanos.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

Postar um novo comentário

Sexto suplente na Câmara por um mês

aluizio leite 400 curtinha   Aluízio Leite (foto), filiado histórico do PV, tomou posse como vereador pela Capital na último dia 2. Mas vai ficar na cadeira por somente 31 dias, até o retorno do titular, delegado Marcos Veloso, que se afastou para cuidar de assuntos pessoais e hoje se encontra hospitalizado com...

No TCE pra tentar receber da prefeitura

flavia mesquita 400 curtinha   Flávia Mesquita (foto), da Luppa Administração de Serviços, pediu socorro ao TCE para tentar receber por serviços prestados à secretaria de Saúde de Cuiabá, alegando que o município está inadimplente há oito meses. E apontou quebra da ordem...

Pai e filho pré-candidatos em Poconé

henrique santos 400 curtinha pocone   Em Poconé, pai e filho estão animados para o teste das urnas deste ano. Um a prefeito e, outro, para vereador. Euclides Santos, que já foi vereador (89/92) e prefeito por duas vezes (93/96 e 2001/2004), além de secretário de Infraestrutura e Serviços Urbanos em...

Expectativa de tocar a Cultura de MT

paulo traven 400 curtinha   Um dos três adjuntos da pasta de Cultura, Esporte e Lazer do Estado, José Paulo da Mota Traven (foto) vem se articulando para assumir de forma efetiva o comando da secretaria. Ele conta com apoio de alguns membros do staff, como do secretário de Governo, Alberto (Beto) Machado. O governador...

Poconé tem hoje vários "prefeitáveis"

euclides santos 400 curtinha   O ex-vereador e ex-prefeito de dois mandatos de Poconé, Euclides Santos (foto), que era do MDB e agora está no PSDB, vem se movimentando nos bastidores para concorrer novamente à sucessão municipal. Seria um dos nomes de oposição ao prefeito Tatá Amaral, que vai tentar...

Apostas do PTB para vereador em VG

silvio fidelis 400 curtinha   Detentor da segunda maior bancada na Câmara de Várzea Grande, com cinco assentos, atrás somente do DEM da prefeita Lucimar, que conta com sete vereadores, o PTB aposta na hipótese de ao menos manter as cinco vagas. E todos os seus vereadores vão à reeleição, sendo...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Em Cuiabá, o prefeito suspendeu a decisão de implantar rodízio de veículos entre placas pares e ímpares devido à Covid-19. Mas quer debater a ideia. Você concorda com rodízio?

concordo

discordo

tanto faz

não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.