Henrique Maluf

Moraes Moreira e Acabou Chorare, o melhor disco da MPB

Por 14/04/2020, 07h:25 - Atualizado: 14/04/2020, 07h:30

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

A arte, a poesia, a música brasileira perde mais uma de suas estrelas, o grande Moraes Moreira, ícone da nossa cultura, um liquidificador musical. Uma pitada de Frevo aqui, outra de Samba ali, hora Bossa Nova, noutra Carnaval, sua capacidade de misturar era fantástica e o resultado homogêneo, tem tanto a sua cara que ao ouvir os primeiros acordes do seu violão já imaginamos sua cabeleira e o suntuoso bigodão.

Sua capacidade de misturar era fantástica e o resultado homogêneo

Falar sobre a carreira de Moraes Moreira é algo precioso, sua obra é vasta e muito diversificada teria que destinar muitas páginas para isso, mas como diz o verso de um velho samba “morre o homem, fica a fama”. Seu legado é vivo e pulsante na Música Popular Brasileira. Quero aqui destacar a breve, explosiva, divertida e resistente história dos Novos Baianos e seu icônico álbum “Acabou Chorare”.

1969 tinha tudo pra ser apenas mais uma página infeliz da nossa história. Chocados com a edição do AI-5, artistas e intelectuais buscavam maneiras de se esquivar da ditadura que se instalara no país. Caetano e Gil, recém saídos da prisão, buscavam exílio fora do país, ali estava definitivamente sepultado o Tropicalismo.

Nesse panorama de tanta desilusão e tristeza surgem os Pós-Tropicalistas. Com uma cara soturna e sombria, nomes como Jards Macalé, Sérgio Sampaio, Jorge Mautner, dentre outros, traziam músicas deformes, indigestas, surgiam ali os “Malditos da MPB”.

Só que nos lixões também nascem rosas. Com uma postura hippie trazendo alegria, ironia, festa e futebol. Esbanjando experimentalismo e personalidade, nascia em agosto daquele ano os Novos Baianos. Uma banda que não representava apenas uma banda, mas uma maneira de enfrentar as dificuldades da ditadura, quando a maioria dos artistas acreditavam que o sonho acabara. Vivendo em comunidade, os Novos Baianos, traziam um novo comportamento e atitude, suas forças vinham de devaneios e sons.

Constelação, é esse o nome que se dá a um grupo de estrelas próximas umas das outras né? Constelação, seria um possível nome, caso não fossem os Novos Baianos. Baby Consuelo (vocal), Pepeu Gomes (guitarra), Paulinho Boca de Cantor (vocal), Dadi (baixo), Moraes Moreira, que além de vocal e violão, dividia as letras com Luiz Galvão. Eu coloco Moreira e Galvão ao lado de Caetano e Gil, Vinicius e Tom, Milton e Lô Borges, Gilmour e Waters e Lennon e McCartney como geniais na arte da composição.

O tempo de duração dos Novos Baianos foi curto, 10 anos, o fim da banda foi em 1979, fizeram turnês em 1997 e 2015, shows com mesmo vigor e presença dos baianos “dinossauros” da música brasileira, quais se tornaram álbuns ao vivo. No estúdio foram 8 álbuns: “É Ferro na Boneca (1970)”, “Acabou Chorare (1972)”, “Novos Baianos F. C. (1973)”, “Novos Baianos (1974)”, “Vamos pro Mundo (1974)”, “Caia na Estrada e Perigas Ver (1976)”, “Praga de Baiano (1977)”, “Farol da Barra (1978)”, número de dar inveja para qualquer artista no mundo, eles produziram muito, viveram para a música.

A sonoridade deles era ousada e envolvente, algo impressionante, resultado da forte influência da Tropicália e da contracultura, usavam de tudo um pouco, desde o samba, bossa nova, frevo, baião, choro, afoxé, ijexá até o rock n’ roll, definitivamente um marco na música e cultura brasileira, influenciaram muita gente.

Dois parágrafos atrás eu disse que a dupla Moraes e Galvão era genial, pois então, em 2007 a Revista Rolling Stone elegeu o álbum “Acabou Chorare” como o melhor disco da história da música brasileira. Um título importantíssimo, dado pela maior revista de entretenimento, música, política e cultura popular do mundo.

Cantinho do Vovô era o nome do sítio em Jacarepaguá (RJ) onde os Novos Baianos viviam e vivenciavam a pura inspiração da música. A elegância do estilo João Gilberto de tocar o violão e a lisergia da guitarra de Jimi Hendrix, essa era a combinação que soava a guitarra elétrica, baixo e bateria misturados com cavaquinho, chocalho, pandeiro e agogô no melhor disco da história da música brasileira.

Sua carreira foi impecável, Moraes Moreira ainda carrega a responsabilidade de ser o primeiro cantor a subir num trio elétrico, cantando no Trio de Dodô e Osmar, se tornou o primeiro astro do carnaval baiano nos moldes que conhecemos hoje

“Acabou Chorare” é muito mais que um álbum, ele sintetiza o amor e devoção que o time Novos Baianos enxergava a música, muito livre, amorosa, verdadeira e visceral, o resultado de uma viagem musical astral coletiva, um suspiro da MPB em meio a destruição cultural que foi a ditadura militar, um manifesto de arte, vivo até hoje.

“Brasil Pandeiro”, “Preta Pretinha”, ”Tinindo Trincando”, “Swing Do Campo Grande”, “Acabou Chorare”, “Mistério Do Planeta”, “Besta É Tu”, “Um Bilhete Pra Didi” são as músicas que compõe o disco e fazem apologia ao fim da tristeza que se instaurou sobre a música brasileira, principalmente nas músicas de protestos contra a ditadura.

A canção título simboliza a saída do obscurantismo, brincando com as palavras, numa antológica interpretação minimalista de Moraes Moreira. Em 1975 ele deixa o grupo pra se dedicar a sua carreira solo, sua saída foi responsável pelo declínio e fim em 1979, ele era o principal compositor do Novos Baianos.

Sua carreira foi impecável, Moraes Moreira ainda carrega a responsabilidade de ser o primeiro cantor a subir num trio elétrico, cantando no Trio de Dodô e Osmar, se tornou o primeiro astro do carnaval baiano nos moldes que conhecemos hoje, devido as proporções mercadológicas que ganhou, ele abandonou os trios elétricos.

Tenho aqui em mãos a edição “Moraes Moreira” do “MPB Compositores”, uma antiga coletânea de livretos que homenageavam compositores brasileiros, o último parágrafo são suas considerações sobre o intenso período que viveram, e que diz:

“Os Novos Baianos não eram um bando de malucos perdidos, mas um grupo de mais de 20 pessoas com preocupações filosóficas e musicais. Em plena ditadura, com o Tropicalismo banido do país, nós propusemos uma vida comunitária, uma nova fórmula de família e isso foi o mais importante”.

Henrique Maluf é formado em Música pela UFMT, produtor cultural, pesquisador de cultura regional e arte educador. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças. E-mail: herojama@gmail.com

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