Henrique Maluf

Novo ano, década: O que poderemos voltar a ser?

Por 31/12/2019, 07h:23 - Atualizado: 31/12/2019, 07h:27

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

É preciso desejar a paz na passagem de ano. Talvez este seja um dos pedidos mais explicitados nas propagandas, nas camisetas e mídias sociais. O amor também é um desejo fervoroso presente nos pedidos para o novo ano.  Este artigo que mistura afeto e política, ética e respeito ao passado, trará aqui um pouco de desconforto, um certo mal-estar, visando alcançar, esmiuçar, a partir do cotidiano, dos controles ou conflitos éticos que vivenciamos, um caminho da paz. Para muitas pessoas, o amor se tornou um elemento distante de suas vidas simplesmente por pertencerem a grupos sociais, raciais, sexuais, diferentes.

O desejo inerente à todos nós de que o futuro seja melhor, impõe olhar e escutar o passado. Uma amiga, pesquisadora sobre relações raciais, costuma frisar que olhar para trás parece ser o grande diamante a ser lapidado na década que nos recebe.  Mas é um passado que antecede os trezentos anos de escravização no Brasil, as colonizações, as guerras, mundo afora, mascaradas sob qualquer tipo de justificativa, em prol da dominação de alguns grupos.

Nossa nação foi fundada em cima da violência. É possível desejar a paz em preces, no coração e fazer da mesma uma caminhada em busca da nossa humanidade nesta nova década? A norma da violência, a lei do mais forte, traz uma vitória conquistada de forma arbitrária e violenta contra aquelas pessoas que se indignam, respingando também sobre aquelas que fingem que as violências não existem.

A subjetividade do indivíduo sofreu um apagamento diante da negação da existência de humanidade em outros povos por tantos séculos. O mal foi feito à quem sofre e à quem o provoca, pois este não consegue descer de seu pedestal cada vez mais caro de se manter.

Os fios da viola de cocho que conduzem o Cururu, os fios de algodão colhido em terras quilombolas e as tessituras das redes, tapetes, roupas de cama e dos pelegos, são como as teias de significações que ressoaram em uma cultura local e que chamamos de mato-grossense

Com frequência se vê o convite para conhecer uma manifestação da cultura do “outro” sendo tratado como um momento exótico para olhar o de fora. Olhar o outro não é possível através de um pacote de viagem de sete dias ou mais. Se observarmos as matrizes culturais que compõe o Brasil, entendemos que, sobretudo, os saberes experienciais da outra pessoa é parte da cultura do “nós”.

Os fios da viola de cocho que conduzem o Cururu, os fios de algodão colhido em terras quilombolas e as tessituras das redes, tapetes, roupas de cama e dos pelegos, são como as teias de significações que ressoaram em uma cultura local e que chamamos de mato-grossense. Na baixada, ou em qualquer outra região, salta aos olhos de uma pessoa mais atenta a aprendizagem dos saberes culturais, as relações experienciais que acabam por imitar a seriedade brincante dos mais velhos quando se encontram nas Festas de Santo, pela coragem e interesse das crianças ao reproduzirem o que viram as mais velhas fazerem, a sua maneira, as brincadeiras, as danças, as músicas que compõe as culturas locais. Isso quer dizer que somos capazes de ver o belo e identificar o bom para nos salvarmos do individualismo na nova década. Uma era líquida, em que passamos a maior parte sem nos apegarmos a nada.

 O conhecimento dos povos africanos e indígenas demandam tempo/espaço em nossas vidas e o reconhecimento de que foi danoso, para todos os lugares da terra, não aceitar as diversidades como um aspecto inerente à humanidade. É possível que a gente leve essa indisposição de aceitar a humanidade em nome de uma posição social ou crença para 2020? Sim, é bem provável que parte dos grupos dominantes não irão propor o equilíbrio desta balança, mesmo a crise que vivemos ultrapassando os muros altos, ameaçando os códigos de proteção e saturando a paciência daqueles que sofrem séculos após séculos, década após década para sair dessa situação.

Nós brasileiros precisamos nos voltar para nossa pertença, nossas raízes, nossas identidades culturais, identificando as diferenças de pessoas e culturas como aspectos importantes e que trarão novas propostas de vida para que possamos conviver com o que fato somos, muitos e muitas.

Buscar a pertença é como um ato de sentar com um mais velho, um cururueiro, que nos conta suas histórias com muita emoção. Os olhares para o céu, parecem aproximá-lo de lembranças das pessoas que já deixaram esta esfera da vida para espalhar suas histórias e influenciar os vindouros. Buscar conhecimentos nas raízes de como amar o próximo deixando que ele seja quem é, portanto, se conhecendo antes, fazendo-se conhecer junto e não impondo.

Um feliz ano novo atrela-se ao desejo de identificar nossos erros, coletivamente, e assumirmos a responsabilidade de transformar para melhor, antes nós mesmos, e o mundo. Negando a subjetividade de grupos historicamente oprimidos, estaremos ainda vivendo um processo civilizatório pela metade. São eles que tem a nos ensinar, aos ocidentais. Olhemos o entorno, o passado, as culturas diversas.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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