Henrique Maluf

O Grande Circo Místico, uma obra atemporal

Por 10/03/2020, 08h:37 - Atualizado: 10/03/2020, 09h:21

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

Um poema, um poema pequeno, principalmente ao se considerar as proporções imensas que essa pequeneza proporcionou para o universo literário, musical e teatral. “O Grande Circo Místico” é o nome do poema de Jorge de Lima, a absoluta verve que inspiraram Edu Lobo e Chico Buarque na criação e concepção do álbum homônimo ao poema: “O Grande Circo Místico”.

O ano era 1982, Edu Lobo foi convidado pelo roteirista Naum Alves de Souza para criar a trilha sonora para o balé do Teatro Guaíra, em Curitiba, para a missão convidou Chico Buarque para parceria, Edu compôs todas as partes instrumentais, harmonia, melodia, ritmo e Chico a poesia, as letras. Uma união muito caprichosa e perfeita, Edu se superara nesse álbum e Chico abusava do seu talento com as letras.

O capricho maior foi a seleção de interpretes convidados para cantar cada uma das músicas. Nomes como de Milton Nascimento, Gal Costa, Gilberto Gil, Zizi Possi, Tim Maia, Simone, Jane Duboc, e os próprios Chico e Edu. Com esse timaço de artistas envolvidos o resultado não poderia ser outro: Sucesso!

Cada uma das canções foram gravadas com primor, cada artista parecia ter dado seu melhor, crítica musical elegeu o álbum como o melhor dos anos 80 no Brasil, que nessa altura ainda se embalava com as canções de Gil, Caetano, Chico e cia feitas na década passada, havia um certo ar de mofo naquele momento, o álbum atendeu o pedido do brasileiro por novidades musicais.

Pra mim a interpretação de Milton em “Beatriz” é algo único na música brasileira, uma canção que exige uma técnica e registro vocal absurdos, ao melhor estilo Milton Nascimento. Outra interpretação de tirar o folego é de Gilberto Gil em “Sobre Todas as Coisas” apenas por voz e violão, uma canção forte com notas longas, Gil esbanja a beleza de sua voz. Zizi Possi, Tim Maia, Gal, Jane Duboc, definitivamente, todos estavam muito inspirados em suas interpretações compondo um álbum imortal da cultura brasileira.

O poema, que inspira a peça, conta a história de um grande amor entre um aristocrata e uma acrobata e a saga de uma família austríaca dona do Grande Circo Knieps. Sua linguagem é direta, de fácil compreensão e não tem profundidade nos seus personagens, a ponto de escrever algo a mais sobre a persona de cada um. Não existe a história de Lily Braun, não dá pra saber se a Bailarina tem pereba ou não, se o Tórax de Superman é realmente forte, Chico foi genial.

A genialidade não foi exclusividade de Chico, Edu Lobo construiu uma obra musical fora do comum, a atmosfera criada em cada música dá a impressão de que foram compositores completamente distintos que fez cada canção. Ao ouvir “A Bela e a Fera”, logo nos primeiros toques do baixo elétrico impossível não pensar na música moderna produzida nos anos 70 em São Paulo, coisas tipo Arrigo Barnabé ou Itamar Assumpção, já numa pegada completamente diferente da “Valsa dos Clowns”. Climas circenses, alegres, ao melhor estilo cigano manouche, ou das bandinhas de circo.

Pra mim a interpretação de Milton em “Beatriz” é algo único na música brasileira, uma canção que exige uma técnica e registro vocal absurdos, ao melhor estilo Milton Nascimento

Henrique Maluf

Em março de 1983 o espetáculo teve sua estreia, uma belíssima mistura de balé, poesia, música, teatro, ópera e, obviamente, circo. O Sucesso foi tanto que deu origem a uma turnê de 2 anos, onde mais de 200 mil pessoas assistiram ao balé pelas salas de teatro no Brasil e chegou até Portugal.

O Grande Circo Místico foi lançado a 37 anos, como trilha sonora de um espetáculo de balé, vimos que foi sucesso, de forma geral, porém nenhuma daquelas canções teve grande repercussão naquela época, não consigo diagnosticar o porquê disso, mas nos dias de hoje o álbum tem status de obra prima – o que é, obviamente – parecendo mais um baú de pérolas raras, pois a beleza estética de cada canção tem transpassado com maestria os anos, tornando-o atemporal e de maior valor do que o espetáculo para qual foram concebidas.

A durabilidade da obra é vista com facilidade ao longo dos anos, sempre há uma nova interpretação do balé nas salas de teatro, alguns ousados arranjos orquestrais ou jazzísticos. No ano passado o espetáculo original ganhou uma incrível versão cinematográfica, o filme “O Grande Circo Místico”, dirigido por Cacá Diegues, foi o representante do Brasil no Oscar 2019, como melhor filme estrangeiro. Aqui em Cuiabá já vi o Coral da UFMT cantando a obra. E estou sabendo de uma grande versão, que ainda não posso revelar, para o final do ano no teatro do Cerrado “Zulmira Canavarros”.

Se não conhece o álbum, não perca tempo, é uma joia da música brasileira. Primoroso do início ao fim, o único defeito na gravação original foram as intervenções da Censura, que cortou algumas palavras, como “pentelho”, da “Ciranda da Bailarina”.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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