Henrique Maluf

"O Poço", uma lição de solidariedade pela dor

Por 31/03/2020, 08h:29 - Atualizado: 31/03/2020, 15h:20

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

O Poço é um filme espanhol de ficção científica, suspense e terror, totalmente distópico e angustiante, com cenas de violência que o classificaria como gore ou até trash. O Poço é um longa-metragem de 2019 com a produção da Netflix, tem tido uma grande repercussão mundial e também no Brasil. ATENÇÃO, ESTE TEXTO CONTÉM SPOILER.

Ele é intenso, pesado, de difícil compreensão, prende a nossa atenção, nos provoca a refletir sobre as desigualdades tão vivas em nossa sociedade, o que naturalmente o faz dialogar com esse momento de quarentena forçada em que vivemos, causada pela pandemia de Covid-19 ou coronavírus.

Alguns o chamam de genial, outros de perturbador, os mais entusiasmados o compara com o premiado Parasita, eu achei “O Poço” um tipo de “Parasita” sem trajes de gala, “vestido” de uma forma simplista e pragmática, que aponta de forma direta para as mazelas do capitalismo.

O enredo do filme se dá numa espécie de prisão vertical com dois presos por cela, com um enorme buraco no meio, que é por onde desce uma mesa com um luxuoso banquete. Os que estão no nível 1 são os primeiros a se alimentar, dois minutos depois a mesa desce ao próximo nível para que a dupla do andar de baixo se alimente. Esse ritual se repete todos os dias, percorrendo os 333 andares da misteriosa prisão, qual a administração chama de Centro Vertical de Autogerenciamento.

O desenrolar da trama se dá sob o protagonismo de Goreng, que simplesmente acorda nessa prisão dividindo o 48° andar com Trimagasi, um senhor mais velho que já está a um longo tempo ali e que vai ensinando os “macetes” da prisão. Não vou aqui me atentar aos detalhes do filme, mas sim nas simbologias e críticas sociopolíticas que notamos na luta de Goreng pela vida.

É logo nos primeiros minutos da trama que Trimagasi passa a primeira e mais importante lição a Goreng, “existem os de cima, os de baixo e os que caem” – momento em que ocorre um suicídio e o corpo passa pelo buraco da cela –.

A comida é única coisa que eles recebem diariamente, desse modo, quanto mais em cima se está, mais se pode comer, até que não sobre nada para os que estão níveis abaixo, ao ponto dos andares mais inferiores não comerem nada, forçando-os atitudes que vão da violência extrema ao canibalismo.

Depois de quase ser devorado por Trimagasi, quando acordam no nível 171, Goreng acaba comendo a carne do seu antigo parceiro depois de ter sido ajudado por uma mulher que usa a mesa para descer os andares para procurar sua filha. 

A narrativa traz uma reviravolta quando ele passa a dividir a cela 33 com Imoguiri, uma ex funcionária da prisão que decide se voluntariar e tentar diminuir os danos. Ela sugere um racionamento da comida para que as pessoas dos andares inferiores possam se alimentar, eles tentam de toda forma convencer seus vizinhos, sem sucesso, contudo Goreng enxerga que esse é o único caminho para a salvação de todos, a solidariedade.

Com a chegada do terceiro parceiro de cela, Bahrat, - um homem crente em Deus e com esperança de sair dali - Goreng vê a possibilidade disso se realizar, e juntos traçam o plano de dominar a prisão e redistribuir a comida e levar uma mensagem a administração. Onde vão descer até o fim do poço, racionando a comida, e depois subir até o nível 0 levando uma panacota intacta, mostrando o poder da união. Obviamente tiveram grandes dificuldades, violência extrema, tanto da parte deles, quanto dos que queriam comer mais, Bahrat morre.

A realidade do filme é surreal, ocorre num microuniverso próprio e ainda assim mostra que a união é a melhor maneira de garantir prosperidade

Henrique Maluf

Ao chegar, literalmente, ao fundo do poço Goreng encontra a filha perdida da mulher que vagava a sua procura, esse momento do filme é carregado de simbolismo espiritual, ali ele já ganhou ganhou de messias e numa visão encontra-se com Trimagasi. Goreng o diz que levará a criança até o topo, que ela era é a “mensagem” e não a panacota, Trimagasi o diz que esse seria um ato de egoísmo e que apenas a menina seria a mensagem e não o mensageiro. Nisso eles caminham juntos pela escuridão do fim do poço e a menina é levada ao topo, o filme acaba exatamente ai.

As interpretações para o filme são incontáveis, principalmente considerando em que “nível” estamos na vida. Mas em linhas gerais nos convida a refletir sobre a crueldade do sistema social: quem está “em cima”, em melhor posição social não se importa com quem está “em baixo”.

Quando a pandemia de Covid-19 mostrou sua face ao mundo, fomos tomados por um sentimento de medo, pavor e o que mais as pessoas fizeram? Foram aos mercados e começaram a estocar de forma demasiada, desde álcool em gel até papel higiênico um triste traço do egoísmo e falta de empatia.

Além de todos aspectos sociopolíticos, hora descarados, hora singelos, “O Poço” deixa a mensagem de que as gerações futuras não precisam sofrer da mesma forma que as anteriores e que, se mais pessoas pensarem nas outras, as coisas podem ser muito mais simples e muitos podem prosperar, um possível equilíbrio social.

A realidade do filme é surreal, ocorre num microuniverso próprio e ainda assim mostra que a união é a melhor maneira de garantir prosperidade para todos em tempos tumultuosos e que a solidariedade e gentileza de qualquer um podem significar a diferença entre a vida e a morte para muitos outros.

Henrique Maluf é formado em Música pela UFMT, produtor cultural, pesquisador de cultura regional e arte educador. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças. E-mail: herojama@gmail.com 

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