Os malditos da MPB

Por 28/05/2019, 08h:14 - Atualizado: 03/06/2019, 18h:25

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Masutti

 

Sim, malditos, esse era o nome dado a alguns compositores que revolucionaram a música brasileira, inconformistas, inovadores, provocadores, eternos inquietos e ícones da música anticomercial.

Compositores como Tom Zé, Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Walter Franco, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e outros, quando surgiram, nos anos 70 e 80, foram considerados estranhos, antipopulares, "difíceis" de ouvir.

Os malditos da MPB, você já ouviu falar neles?

Suas músicas eram carregadas de experimentalismos, abstracionismos, poesia concreta, alguns misturavam samba, outros rock, música erudita e jazz, suas “vertentes” musicais eram realmente difíceis de rotular, e até os dias de hoje soam algo muito moderno, desde os ouvidos mais treinados aos mais descompromissados. Mais uma pérola da música brasileira.

Muitos desses músicos tiveram espaço nas paradas de sucesso, produziram hits como, por exemplo, Jards Macalé foi o compositor de Vapor Barato, Jorge Mautner de Maracatu Atômico, Luiz Melodia a Pérola Negra, Ednardo de Pavão Misterioso, Sérgio Sampaio de Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua. Porém sem muita aceitação contínua da grande massa seguiram suas carreiras sem a atenção da mídia tradicional e resolveram tocá-las por conta própria

Conhecer a história dos malditos é se inteirar da importância sociopolítica da nossa música. Numa época onde a censura tentou calar várias dessas vozes e a mídia era regulada por militares, a cultura foi enquadrada em um padrão estético 

Um dos motivos que empurravam os malditos para as margens do consumo fonográfico brasileiro - além de toda sua “estranheza” - eram seus “concorrentes”, na época, a ainda viva Bossa Nova, a poesia e beleza do Clube da Esquina e a ousadia do Tropicalismo, sendo que esse último mantinha um diálogo forte com os malditos, tanto que disso nasceu parcerias com grandes nomes da música brasileira, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Geraldo Vandré dentre outros, além de serem até hoje muito regravados.

Teve um tempo em que eu pesquisei sobre os Malditos, gostei muito da obra do Sérgio Sampaio, Ednardo, Elomar entre outros, tinham uma coisa mais de canção popular nas suas obras, porém dois nomes me causaram espanto imediato ao ouvi-los, que foram Arrigo Barnabé em seu primeiro disco, Clara Crocodilo, traz uma mistura psicodélica de rock, música erudita e jazz que nos deixa sem ar, na época que foi lançado a imprensa classificou como a maior novidade na música brasileira desde a Tropicália. O outro foi Itamar Assumpção e sua banda Isca de Polícia, que em seu primeiro álbum, o conceitual Beleléu, Leléu e Eu, apresentam uma sonoridade moderna, viva, andante, que dialogava com suas apresentações performáticas.

Hoje, com o mercado de discos falido e milhares de artistas procurando fazer o que bem quiserem sem se preocupar com venda, os malditos finalmente estão entre os iguais. Vivos ou mortos o tempo está do lado deles, pois hoje são reconhecidos como gênios (que sempre foram) e são compreendidos e servidos como inspiração por uma juventude que está em busca de algo mais genuíno e fora do comum na arte.

Conhecer a história dos malditos é se inteirar da importância sociopolítica da nossa música. Numa época onde a censura tentou calar várias dessas vozes e a mídia era regulada por militares, a cultura foi enquadrada em um padrão estético, e o fato de que músicos tão incríveis não se encaixaram nele significa que poderiam agregar muito mais à nossa noção de Música Popular Brasileira.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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Comentários (4)

  • Alcindo | Quarta-Feira, 29 de Maio de 2019, 09h06
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    Brilhante texto, com muita qualidade de pesquisa, parabéns!

  • Guapo | Quarta-Feira, 29 de Maio de 2019, 08h46
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    Muito bem colocado seu feed back sobre esses grandes músicos dos anos de chumbo, meu colega Henrique Maluf. Tenho no meu acervo de LPs Elomar Figueira de Melo, Orquestra Armorial, Marlui Miranda, esta última é a maior pesquisadora da música indígena do Brasil. Muito boa a matéria. Parabéns!

  • Lucas Maciel | Terça-Feira, 28 de Maio de 2019, 14h53
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    Excelente escolha! O meio ambiente agradece e a gestão pública também.

  • Flavio Ramalho dos Santos | Terça-Feira, 28 de Maio de 2019, 14h38
    2
    0

    Ótima escolha. Sucesso a esse brilhante Oficial Superior de Mato Grosso.

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