Henrique Maluf

Tim Maia Racional: uma obra inigualável

Por 03/03/2020, 08h:30 - Atualizado: 03/03/2020, 08h:43

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

Sebastião Rodrigues Maia, ou, Tim Maia foi uma personalidade única na música brasileira e mundial. Dono de uma voz inigualável, carismático, um furacão no palco e fora dele. Nos primeiros segundos da canção a gente logo reconhece: “esse é Tim Maia” e isso não se dá só pelo vozeirão no melhor estilo dos grandes mestres da canção negra americana, mas também pelo esmerado preciosismo que tinha com os arranjos das músicas, com os detalhes que aplicava, com precisão cirúrgica, em cada canção. Um verdadeiro maestro, um gênio.

Sua obra ultrapassa 30 álbuns, inúmeros compactos e uma generosa lista de sucessos que estão cravadas no imaginário do brasileiro, sendo unanimidade de crítica. Sua maior assinatura é a Black Music americana, principalmente o Funk e o Soul, o que lhe conferiu o título de pai da Black Music Brasileira. Mas Tim era ousado e teceu sua malha sonora de uma forma bem livre, tanto é que se aventurava na Bossa, no Forró, no Samba, ou tudo isso misturado, além, obviamente, de ser um eterno apaixonado, um romântico de marca maior, o que rendeu algumas das músicas mais românticas do cancioneiro brasileiro. Mas não pense que sua obra não tenha uma “cara”, tem sim, a cara do Tim Maia.

Seus 4 primeiros discos, entre 1970 e 1975, foram avassaladores e responsáveis pela consolidação do síndico. Dali saíram sucessos como “Azul da Cor do Mar”, “Primavera”, “Não Quero Dinheiro”, “Gostava Tanto de Você”, “Réu Confesso”, dentre outros. Sua carreira foi meteórica, a partir dos meados dos anos 80 Tim viu sua carreira entrar em decadência, nessa altura ele não ostentava mais aquele vigor além de não ter a mesma inspiração dos anos iniciais, fatores esses que foram agravados pela vida desregrada que Tim levava.

No ano de 1976 Tim vivera uma experiência que mudou sua vida, deixando de lado as noitadas, bebidas, drogas e todo exagero que ele vivia, tudo isso detrimento de levar para o mundo a palavra da “Imunização Racional”, por meio dos dois discos “Tim Maia Racional”, nascia ali o episódio mais pitoresco da vida de Tim e um dos álbuns mais emblemáticos da história da música brasileira. Item de luxo para colecionadores de vinis.

Tim foi convidado por um amigo a conhecer um líder espiritual, guru, uma espécie de pai de santo, que trazia palavras sobre uma doutrina “Racional Superior”, foi quando ele conheceu Manuel Jacintho, o líder da seita. Ele explicou para Tim que os habitantes da Terra são, na verdade, oriundos de outro mundo, feliz, perfeito, que foram enviados para cá por causa da “magnetização” o que seria a causa de todos problemas da Terra. A única solução para sair dessa terrível condição era a “Imunização Racional”, que poderia ser alcançada com a leitura de uma série de livros escritos por Manuel, o “Universo em Desencanto”.

Complexo, confuso, desconexo, utópico, de difícil assimilação e aceitação, mas não pro sindico. Tim saiu de lá extremamente abalado pelas palavras do mestre e aproveitando seu álbum duplo, que estava em processo de gravação, abandonou todas a letras que havia composto e fez essa obra “religiosa” da música brasileira.

Eu particularmente sou fã de Tim Maia, conheço bastante sua obra, faço um show de tributo a ele e posso dizer que os álbuns Racional I e Racional II são obras únicas de valor estético insuperável, uma aula de produção musical, de bom gosto e dessa vez o crivo de Tim não era apenas nos arranjos, mas ele compôs de forma única, acreditando no que estava vivendo, ele havia se convertido, e ali estava toda paixão de um devoto.

Tim estava no seu auge como cantor e exibiu toda sua técnica, força e versatilidade. Músicas para nem o mais pragmático professor de canto achar defeito. Passeava por notas agudas, dando vibrações de tenor e corpo de barítono as canções. São álbuns complexos, com harmonias sofisticadas e fios melódicos abusados, definitivamente, é muito difícil cantar Tim Maia Racional.

Eu particularmente sou fã de Tim Maia, conheço bastante sua obra, faço um show de tributo a ele e posso dizer que os álbuns Racional I e Racional II são obras únicas de valor estético insuperável

Henrique Maluf

Seu mergulho foi profundo, Tim montou uma nova banda, a Seroma, e obrigou todos os músicos largarem as drogas e bebidas, e exigiu que vestissem apenas roupas brancas. Ele emagreceu, passou a dormir e acordar cedo, sexo só para procriação. Só sob a luz desse guia poderiam alcançar uma dimensão de paz.

É obvio que isso tudo não ia dar certo. As emissoras de rádio e TV não aceitaram tocar “aquilo”, músicas muito boas, porém com letras totalmente desconexas e enigmáticas, todos queriam o Tim Maia romântico ou o do balanço. Tim não desistiu e de forma independente saiu distribuindo o disco junto com o livro, chegou a enviar livros até para John Lennon e James Brown. Porém apenas os fãs mais assíduos de Tim compraram os discos e os devotos da seita.

A vibe esotérica de Tim não durou muito, após dois anos de dedicação e pregação dos pilares da Cultura Racional, ele acabou se desiludindo com Manoel e abandonou o grupo, há relatos que Tim descobriu que tudo não passava de picaretagem. Ele retirou os discos das lojas e em seguida quebrou todos – fato que contribuiu para o status de raridade do álbum – não tocou mais nenhuma música da fase e não falou mais do assunto. Voltou também para as drogas e vida descontrolada.

A história de Tim é de superação, ser obeso, negro e outsider é a maior inspiração de seu lirismo, o que torna sua verve romântica condição de coexistência, sua paixão é seu maior trunfo. Sua pegada da música negra americana, seu groove avassalador é outro pilar das inúmeras faces “Timaianas” e nesse bolo doce romantizado com pinceladas de “funkdélicas”, Tim Maia Racional é a cereja.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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