Henrique Maluf

Tom Zé: uma vida de desconstruções e reivindicações musicais

Por 22/10/2019, 09h:37 - Atualizado: 22/10/2019, 10h:35

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

Tom Zé é mais uma das pérolas da música brasileira que venho trazer pra vocês. Um jovem senhor de 83 anos, nascido em Irará, interior da Bahia, é compositor, cantor, arranjador e instrumentista.

É um dos nomes mais expoentes no mundo quando o assunto é experimentalismo, tem uma vasta obra musical que transita entre ritmos, estilos, temas, poéticas, isso tudo com sonoridades amplas, que utilizam de instrumentos convencionais, equipamentos eletrônicos e colagens de fragmentos sonoros.

É um dos nomes mais expoentes no mundo quando o assunto é experimentalismo

Tom Zé “apareceu” no programa Escada para o Sucesso (TV Itapoã) em 1960, onde apresentou sua música “Rampa para o Fracasso”, após isso trabalha no Centro Popular de Cultura (CPC), organização ligada à UNE de Salvador, onde passa a intensificar a crítica política de suas canções. Em 64 estuda na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia e tem aulas com o alemão Hans-Joachin Koellreutter e os suíços Ernest Widmer e Walter Smetak, nomes expressivos no estudo da música atonal, dodecafonismo e instrumentação alternativa.

Por insistência de Caetano Veloso, muda-se para São Paulo em 65 e adere ao movimento tropicalista, junto com Caetano e Gil, envolve-se na produção do disco Tropicália ou Panis et Circencis (1968), no qual grava “Parque Industrial”, canção que questiona o capitalismo como meio de redenção do Brasil e o consumo como via para a felicidade.

Seu primeiro LP, “Grande Liquidação” de 1968, aprofunda mais o caráter crítico de Tom Zé, a partir de 1969 ele rompe com a forma tradicional de composição, que são a melodia, letra e harmonia, e cria aleatoriamente fragmentos musicais com diferentes rítmicas-melódicas e instrumentação. Desde seu primeiro LP, até hoje, foram 24 álbuns de estúdio o último é o “Sem Você Não A” de 2017, uma produção considerável.

Essa jeito de compor era estranho para o Brasil da época e contribui para o isolamento do artista, que dura 17 anos, mas ironicamente essa estranha forma de fazer música foi também a responsável pela volta ao cenário musical de Tom Zé, e dessa vez pro mundo todo. Foi quando, no final dos anos 80, o músico estadunidense David Byrne, ao percorrer lojas de discos no Rio de Janeiro à procura de álbuns de música brasileira, interessou-se por um álbum cuja capa trazia a palavra “samba” entre arame farpado e cordas. A curiosidade para saber o que o arame farpado tinha a ver com samba, fez o músico-produtor levar e escutar o disco “Estudando o Samba” de 1976.

Byrne convidou Tom Zé para gravar nos Estados Unidos em 1990, lançando, anos depois, uma coletânea e dois discos inéditos do artista no mercado internacional, respectivamente, The Hips of Tradition (1992) e Fabrication Defect (1998), que conquistaram elogios fervorosos da crítica especializada norte-americana.

Esse álbum de 1998 o “Com Defeito de Fabricação” é o meu favorito, nele Tom Zé defende o plágio com bom humor, e usa citações de melodias ou trechos de letras de outras gravações, suas, de outros compositores, até Tchaikovsky entra nessa.

Porém o holofote para o plágio serve apenas como um disfarce para o real conceito desse álbum, que traz uma crítica aberta ao contexto socioeconômico mundial, condensa as ideias artísticas de Tom Zé e consolida o seu projeto estético, desenvolvido e amadurecido no seu período de marginalidade.

Um gênio

A capa do disco exibe uma caricatura de Tom Zé como um androide “defeituoso”, exibindo uma desconstrução sua, com formas desproporcionais, cores contrastantes, apresentando costuras e parafusos nos seus braços e trechos-chaves das letras das músicas escritas, letras essas que valem total atenção. As 14 músicas do álbum vem com o primeiro nome “Defeito”, o número correspondente (de 1 a 14) e o segundo nome, por exemplo, “Defeito 1: O Gene”, “Defeito 3: Politicar”.

Esse álbum me trouxe inflexões muito incisivas sobre a “forma” da composição, ainda mais eu que sou muito ligado a forma mais romântica da música, um apaixonado por harmonias sofisticadas e melodias “bonitas”, a canção, e Tom Zé desconstrói de forma bárbara essa tão antiga forma de compor. Vale a pena ouvir esse álbum, assim como o “Estudando o Samba”, “No Jardim da Política”, são 24 álbuns, é muita música.

Pra mim Tom Zé é um dos compositores mais ativos do Brasil, transita em experimentações durante toda a carreira, seja nos arranjos musicais ou nas temáticas poéticas. Sua sensibilidade para as possibilidades musicais é admirável, ele reinventa sua própria carreira a cada álbum, um gênio.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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