Henrique Maluf

Três poetas pantaneiros

Por 22/09/2020, 08h:06 - Atualizado: 22/09/2020, 08h:15

Arte/Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

O ano é 2020, no momento em que escrevo as palavras o Pantanal sofre a maior devastação de sua história, até aqui, com mais de 19% do bioma destruído por queimadas, algumas naturais e outras pela mão humana. Eu, que sou um pantaneiro orgulhoso do meu lugar, como vocês já devem ter percebido, sempre falo de Cáceres e amo gritar ao mundo que o Pantanal é lindo, que Cáceres é charmosa, que a fronteira é ilimitada, que o coração segue o fluxo do rio, que no meu lugar de pertencimento jorra uma cultura que merece os nossos ouvidos e todos outros sentidos.

Hoje eu quero falar pra vocês sobre três pessoas que me inspiram muito, Milton Pereira, mais conhecido como Guapo, Emerson Dorado e Rocco Martins. Ambos são compositores, músicos e têm uma geração de diferença de um para o outro, pela ordem citada. Ambos representam um marco importante na Cultura Pantaneira Cacerense, gosto de chamá-los de poetas pantaneiros pois em suas canções existem verdadeiras joias raras em forma de poemas/canção.

Eu os trouxe pra dentro da pesquisa acadêmica ao entrevistar Guapo e Rocco para minha monografia: “Música Pantaneira Cacerense: O Novo Rasqueado de Fronteira” e não me dei conta que ainda não havia dedicado um espaço aqui para esses poetas que tanto me inspiram.

Guapo usa uma “linguagem nativista”, em que carrega no sentido das palavras não só linguagem poética, mas que em certo ponto o personagem é refletido nos valores simbólicos que existem nas canções

Henrique Maluf

O cacerense está imerso ao Pantanal e na fronteira Brasil/Bolívia, condição que torna o povo caracterizado pela diversidade cultural, o processo identitário do cacerense perpassa por uma amálgama étnica, com a presença dos povos ribeirinhos (pantaneiros), quilombolas, indígenas e uma grande parte de imigrantes que aqui se instalaram no processo de povoamento de Cáceres. Valores culturais que com certeza influenciaram na forma da escrita desses poetas.

Guapo usa uma “linguagem nativista”, em que carrega no sentido das palavras não só linguagem poética, mas que em certo ponto o personagem é refletido nos valores simbólicos que existem nas canções, como por exemplo, nas músicas Canto Guacho e Velho Chamamé. “Sou o cavalo pantaneiro, sou este canto guacho, e venho do pantanal, na beira de algum riacho, ou no meio de um mandiocal, sou laia de agua barrenta, (o ribeirinho) ou guasca de couro cru (peão pantaneiro), um canto que ainda aguenta as pragas dos urubus (quer dizer que a vida no pantanal é dura, difícil), lutando pra não morrer na beira do Paraguai, na guampa de terere, um verso molhado sai”.

Os versos da canção Alma Pantaneira de Emerson Dorado traz em cada uma de suas linhas a essência do poema regional, transportando o ouvinte/leitor pra lida sofrida, solitária e forte do cotidiano pantaneiro, imerso na flora e fauna da região. “Alma pantaneira, Amor ribeirinho, Sigo o meu caminho, Sem pensar na dor, Sina estradeira, Solidão das cheias, Rios que são veias, Correndo em mim. Alma pantaneira, Vida e coragem, Imortal paisagem dentro de um ser. O tuiuiú de asas abertas, Abraçando a imensidão. Leva o meu coração, Por sobre o verde estonteante. Do qual me tornei amante. Desde o dia em que nasci.”

“Terreiro para correr, carrinho para brincar. Paçoca para comer, bolita para jogar. Menino não quer crescer, e o tempo não quer parar, Corre menino, que o tempo não pode esperar, Descalço de pé no chão, chinelo não quer usar, A camisa de botão, tá no pé de Jatobá, O sol brilhando no céu, menino nem quer pensar, Pula de ponta no rio pra se refrescar, Corre menino corre, que o tempo quer te pegar”. Esses verso são um trecho da canção “Corre Menino” de Rocco Martins, que traz de uma maneira leve o saudosismo de algum “menino” ribeirinho, cercado de práticas comuns de quem vive/viveu uma vida tranquila e calma, atrelado a valores simbólicos que se relacionam com “pureza de um menino”.

Ambos poemas/canção fazem funcionar eloquentemente a memória afetiva que coloca em circulação o orgulho, o saudosismo, o sentimento de pertencimento à Princesinha do Paraguai, que, nascida onde hoje é o cais do porto, faz rememorar o sol que cai diariamente numa estonteante paleta de cores sobre a majestosa Baía do Malheiros, que banha, em boa parte, a região central da cidade, num sinuoso desenho que faz funcionar uma sensação de serenidade e de paz, completada pelas águas calmas do majestoso rio Paraguai.

Enquanto o Pantanal ainda arde em chamas e estampa as páginas de todos jornais e mídias mundias, aqui, em meio a tantas lágrimas de tristeza pelo sofrimento descabido, trago em curtas palavras minha homenagem e agradecimentos a esses poetas que levam com tanto esmero a poesia pantaneira.

Henrique Maluf é formado em Música pela UFMT, produtor cultural, pesquisador de cultura regional e arte educador. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças. E-mail: herojama@gmail.com

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