Henrique Maluf

Tropicalismo, uma explosão de misturas, é mais uma vítima da ditadura militar

Por 09/07/2019, 07h:10 - Atualizado: 09/07/2019, 07h:18

Dayanne Dallicani

Colunista Henrique Maluf

O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que abalou as estruturas da música popular e da cultura brasileira entre 1967 e 1968. Os principais nomes foram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, o maestro Rogério Duprat, dentre outros. Artistas plásticos, poetas e entusiastas daquela explosão cultural se juntaram a esses nomes a consolidaram uma das maiores revoluções culturais da américa latina.

Para entendermos a Tropicália temos que fazer um retrospecto histórico e conhecer dois outros movimentos antecessores,a Bossa Nova e a Jovem Guarda

Para entendermos a Tropicália temos que fazer um retrospecto histórico e conhecer dois outros movimentos antecessores, um é a Bossa Nova, que teve seu surgimento em 1958, trazendo as genialidades de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e do recém falecido João Gilberto no disco “Chega de Saudade” do João. Ali vimos a maior revolução da música brasileira, a sofisticação do samba, uma batida nova com grande influência do Jazz norte americano, mas que ao mesmo tempo enaltecia a música brasileira, o samba, a canção popular.

O outro movimento é a Jovem Guarda que surge em 1965 liderada por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderleia, influenciados pela onda beatlemania que tinha se alastrado pelo mundo todo um ano antes, absorvendo os The Beatles, trazem a energia do rock inglês com suas guitarras elétricas, balanço e poder pra música brasileira.

Nesse momento começa um tipo de briga entre esses dois grupos antagônicos, a Bossa Nova e a Jovem Guarda, de um lado um que defendia a brasilidade com o samba, e do outro um que defendia essa crescente cultura pop mundial. Disso aconteceu até uma passeata contra a guitarra elétrica, dá pra imaginar? Uma passeata contra a guitarra!

Nisso tudo surge um grupo que sugere misturar tudo isso, uma verdadeira “geleia geral” e misturar a música brasileira com a música estrangeira, em poucas palavras afirmavam que podiam tocar violão e guitarra, rock e samba, que esses “moldes rígidos” não serviam pra eles. Queriam universalizar a linguagem da MPB, incorporando todos esses elementos, e ainda tinham a vanguarda erudita como ferramenta por meio dos inovadores arranjos de maestros como Rogério Duprat.

Um movimento de liberdade isso era o Tropicalismo, durou apenas um ano e acabou reprimido, censurado, regulado pelo governo militar, o recém instaurado AI-5

Além de toda inovação estética musical, os tropicalistas eram a própria desconstrução de inúmeros padrões, a contracultura hippie foi adotada por eles, longos cabelos encaracolados e roupas extravagantes numa explosão de cores, tudo isso em pleno regime militar. Época que grandes artistas como Chico Buarque, João Bosco, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, entre outros, usavam de sua música como forma de protestar contra o governo ditatorial. Isso gerou fortes críticas aos tropicalistas, que eram chamados de descompromissados, pois faziam questão de afirmar que não estavam interessados em colocar em suas músicas referências à problemática político-ideológica, como feito até então pela canção de protesto. Acreditavam que a experiência estética e desconstrução de padrões que causavam já era um instrumento social revolucionário.

Um movimento de liberdade isso era o Tropicalismo, durou apenas um ano e acabou reprimido, censurado, regulado pelo governo militar, o recém instaurado AI-5 e suas “ferramentas” conseguem por fim no movimento com a prisão de Gil e Caetano, em dezembro de 1968. A cultura do País, porém, já estava marcada para sempre pela descoberta da modernidade, não só da música, mas da própria cultura nacional.

Irreverentes, inquietos, extravagantes, exagerados, rebeldes, maravilhosos os Tropicalistas transformaram os critérios de gosto vigentes, não só quanto à música e à política, mas também à moral e ao comportamento, ao corpo, ao sexo, ao vestuário, ao amor, à liberdade.

Henrique Maluf é músico, produtor cultural e pesquisador em Cuiabá. Escreve nesta coluna com exclusividade às terças-feiras. E-mail: herojama@gmail.com

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