A César o que é de César

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Jackelyne Pontes

“Cada um com o seu cada qual” é uma expressão popular, popularesca até, que serve perfeitamente para a realidade da odontologia estadual e a explicação é simples: fomos preteridos. Fico imaginando se não há um só cirurgião-dentista neste nosso imenso Estado dotado de competência e disponibilidade suficiente para assumir a Coordenação de Saúde Bucal. Será que esse perfil é tão difícil de encontrar a ponto de ser contratato um profissional alheio a profissão para desempenhar a função? É impossível! Eu mesma posso, sem titubear, enumerar ao menos uma dúzia de nomes de colegas merecedores deste cargo, e não estou falando de “indicação” ou apadrinhamento, estou falando de capacidade.

Eu nunca poderia aceitar um cargo cuja função seria coordenar advogados em suas atribuições, por exemplo, ou assumindo a cozinha de um restaurante, ou projetando uma obra, ou mesmo ser vocalista em uma banda, tudo isso para fazer uma comparação grosseira simplesmente porque não tenho preparo para tal. Se eu tivesse me dedicado, estudado, e me formado na área, aí sim poderia assumir essa responsabilidade. Eu não poderia coordenar enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, pois não conheço a realidade dessas áreas. Eu conheço a odontologia, sou defensora ferrenha da profissão e da classe, sei das necessidades, dos erros e acertos, da mazelas e dos sucessos. Em resumo: é preciso ser para entender.

Algumas das atribuições do coordenador de Saúde Bucal do Estado são específicas, como, por exemplo, o apoio técnico e financeiro aos municípios com vistas à melhoria da saúde bucal, assim como pensar e propor estratégias de fortalecimento da Atenção Primária. Precisa entender que o credenciamento de Equipes de Saúde Bucal vinculadas às Equipes de Saúde da Família é de vital importância, e estar preparado tecnicamente para defender essa posição. É o Coordenador de Saúde Bucal do Estado que acompanha e avalia as Equipes de Saúde Bucal, e ainda assessora os Escritórios Regionais na programação e execução de ações inerentes à saúde bucal. Ele ainda acompanha e avalia os serviços ofertados pelos Centros de Especialidades Odontológicas, acompanha o sistema de informação das ações da média e alta complexidade em Saúde Bucal, auxilia na elaboração da Política Estadual de Saúde Bucal, e ainda amplia e consolida ações para a média e alta complexidade em Saúde Bucal. Como exercer tais funções não sendo cirurgião-dentista? Sinceramente não vejo como.

Cargo público, principalmente este de Coordenador Estadual de Saúde Bucal, não deve ser encarado sem a devida importância que ele tem. Trata-se de alguém responsável pela saúde bucal de mais de 3 milhões de habitantes, segundo o IBGE. Já deixamos a era do Renascimento, em que cargos públicos de confiança eram “presentes”. É hora de lutarmos para que deixemos de ser preteridos e ao invés de somente nos indignarmos darmos voz à classe. O Estado merece alguém que seja escolhido pela sua qualificação profissional, e as instituições devem privar pelo serviço efetuado de maneira célere, eficaz e com conhecimento de causa. É uma questão de justiça e principalmente de dignidade. Trata-se de gerir a coisa pública, o dinheiro coletivo, os interesses dos cidadãos. O que se despreza não é a nomeação em si, mas a escolha sem a ponderação de valores profissionais. Perde o cidadão.

Jackelyne Pontes é cirurgiã-dentista, filiada ao Sinodonto-MT (Sindicato dos Odontologistas do Estado de Mato Grosso) e escreve exclusivamente para este blog todo domingo - jackelynepontes@gmail.com

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Comentários (5)

  • Gisele | Terça-Feira, 25 de Fevereiro de 2014, 12h43
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    Lamentável que uma situação como esteja acontecendo... Me parece óbvio que para que o planejamento e gestão da atenção odontológico desta unidade federativa apresente êxito, o responsável possua formação para tal! É inconcebível que o gestor não tenha noção disto e ainda que o profissional que foi indicado para a coordenação não tenha humildade de admitir que não apresenta formação para tal. Pena que todo este ônus fica ao encargo da população Matogrossense!!! Triste realidade desta população que apesar do incentivo do programa fome zero, tem dificuldade de desempenhar funções corriqueiras do dia-a-dia, como: COMER e SORRIR. Por apresentar sequelas de gestões que priorizam o planejamento de da saúde bucal do estado sem bases científicas sólidas, meramente tecnicista e mutiladora!!!

  • Joelma | Segunda-Feira, 24 de Fevereiro de 2014, 17h55
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    Parabéns pelo artigo.

  • julio | Domingo, 23 de Fevereiro de 2014, 17h57
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    Apesar de ser leigo em odontologia,concordo plenamente,infelizmente em nosso Pais os politicos são ignorantes, alguns até analfabetos,nesse cargo deveria ser nomeado um cirurgião/cirurgiã-dentista.Parabéns

  • Diurianne | Domingo, 23 de Fevereiro de 2014, 11h15
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    Ótimo artigo Jack, realmente temos que descruzar os braços e deixamos de sermos omissos. Esse espaço é nosso e precisamos lutar por ele principalmente porque a odontologia de MT tem sido referência e para continuar e ampliar precisa de um profissional conhecedor da odontologia e de nossas lutas e desafios. Existe muitos cirurgiões-dentistas competentes para o cargo e, ainda mais, de carreira no serviço público. A cada ano, as dificuldades aumentam e precisamos de pessoas conhecedoras da nossa realidade para defender o pão nosso de cada dia. Nós do fórum de odontologia permanente precisamos agir e ir a luta!

  • Juliane Maciel | Domingo, 23 de Fevereiro de 2014, 10h30
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    Infelizmente é o que vem acontecendo com as profissões, pessoas sem preparo assumindo cargos que não tem noção para desenvolver tal papel; e a odontologia não tem sido diferente, estamos perdendo a gerencia da nossa profissão até onde isso vai parar......

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