Tratamento odontológico cronometrado

Onde fica a humanização na saúde? E a qualidade dos serviços? O relógio deve ser considerado aliado e não impositor de regras

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Jackelyne Pontes

Nas clínicas odontológicas públicas ou privadas, o exame clínico e o plano de tratamento são de responsabilidade do profissional cirurgião-dentista, munido de preparo técnico é ele quem vai fazer uma análise do paciente de uma maneira holística e traçar um roteiro detalhado de como serão executadas as ações de saúde, que podem ser restaurações, exodontias, profilaxias ou qualquer outro tipo de tratamento que o indivíduo necessite.

É no exame clínico que o diagnóstico é elaborado. Conhecemos o paciente a fundo, sabemos de sua histórica socioeconômica, seus hábitos alimentares e de higiene, seu grau de instrução e suas atitudes e comportamentos. Cada um desses detalhes influencia no sucesso ou fracasso do tratamento, no tipo de abordagem e principalmente no tempo que usaremos para finalizar e assim fazer com que as suas necessidades sejam supridas.

O diagnóstico é feito justamente para garantir o melhor tratamento para cada indivíduo. Demanda tempo saber do seu diário alimentar, seu histórico de doenças e intervenções cirúrgicas, tomadas radiográficas e ainda fazer um exame a fundo de seus elementos dentários. Em verdade, a realização de um bom plano de tratamento resulta em ganho de tempo, pois metodiza as ações, racionaliza as intervenções técnicas evitando improvisos  e diminui riscos.

A pergunta que não quer calar em nosso meio é: quanto tempo devemos usar para fazer a anamnese?  E ainda: quanto tempo deverá durar as consultas clínicas? A resposta é simples: o tempo utilizado deve ser aquele que o cirurgião-dentista, responsável pelo tratamento julgar necessário. Somos nós e mais ninguém que sabemos se determinado paciente deve ter reservado para si 30, 40 ou 60 minutos. A duração da consulta não deve ser programada de forma única para todos. Há pacientes em que o procedimento é de menor complexidade, e nestes utilizamos 30 minutos. Há pacientes que o procedimento é mais complexo e para este reservaremos mais tempo. Além disso devemos levar em consideração as intercorrências inerentes da nossa rotina. Qual foi o colega que não iniciou uma exodontia pensando que rapidamente poderia finalizá-la e esta acabou por durar o triplo do tempo?

O cirurgião-dentista não é uma máquina de produção e nem o paciente é um agente receptor passivo. Esse pensamento mecanicista do “senta levanta” imposto pelas clínicas, que em sua maioria são privadas/populares e públicas, não deve ser aceito. Onde fica a humanização na saúde? Será que quantidade é sinônimo de qualidade? Temos que nos apoderar de nosso conhecimento científico e fazer com que este seja mesclado com cuidado, o olho no olho, o ouvir qualificado e o toque sem pressa. O relógio deve ser um aliado e não um impositor de regras. A obrigatoriedade de atender a um determinado número de pacientes em um espaço de tempo diminuto é banalizar a odontologia, é valorizar relatórios ao invés do ser humano. Um grave erro.

O tempo de duração e o número total de consultas é inerente a cada paciente e não deve ser imposto, o cirurgião-dentista responsável é que deve estabelece-los. Fere inclusive o código de ética caso este fato aconteça. 

Jackelyne Pontes é cirurgiã-dentista, filiada ao Sinodonto-MT (Sindicato dos Odontologistas do Estado de Mato Grosso) e escreve exclusivamente para este blog todo domingo - jackelynepontes@gmail.com

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Comentários (3)

  • Dilemário Alencar | Domingo, 16 de Março de 2014, 22h51
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    Parabéns Drª Jackelyne pelo artigo! Concordo com você quado diz que o tempo de duração e o número total de consultas é inerente a cada paciente, não devendo ser imposto ao cirurgião-dentista regras nesse aspecto, pois ele como profissional responsável é que deve estabelecê-las para bem atender o seu paciente.

  • jorge zamar | Domingo, 16 de Março de 2014, 12h26
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    o artigo em questão, nos faz voltar um pouco na avaliação com mais cuidado. Oque fazemos , na maioria das vezes, apertados pelo tempo muito curto para os atendimentos, pode trazer consequencias muito drásticas para o paciente, mas também para o próprio profissional. Precisamos limitar o mercantilismo na profissão. Este sim , é o verdadeiro motivo pelo qual, muitos profissionais abrem mão de uma anamnese mais aplicada. Dar um enfoque maior ao próprio paciente, requer mais tempo, e isso é o mesmo que pedir para alguns, gastar mais tempo com um instrumento que para muitos é perda de tempo. Foco errado e pernicioso tanto para o paciente como para o profissional. Mais ética, menos mercantilismo, menos comércio na profissão. Parabéns doutora. Visão correta do assunto.

  • Maria Emília | Domingo, 16 de Março de 2014, 10h01
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    Parabéns Drª Jackelyne Pontes!! Também acredito e prezo por uma Odontologia Humanizada e com qualidade!!! A própria Política Nacional de Humanização vai muito além de um discurso moral e nos remete efetivamente à uma Tecnologia de organização do trabalho (Práticas de gerir e Práticas de cuidar). Entretanto, para que essa organização aconteça, faz-se necessária a autonomia e o apoderamento dos gestores e cuidadores da atenção em saúde bucal. O problema vai muito além do relógio... ausência de perfil profissional? ou falta de comprometimento? Acredito que a palavra que mais se identifica nesse contexto é a indiferença! Um assunto tão contemporâneo no qual parece que as pessoas estão anestesiadas, parece que nada lhes diz respeito!! De repente se trabalha num cenário caótico que a gente trata com naturalidade e portanto aí está a indiferença!! Sempre acreditei que posso fazer diferente, é assim que penso, e é por isso que busco estratégias para mudar esse meu olhar indiferente... não devemos ser simplesmente um personagem a mais... Porém, contudo, todavia, acredito na prerrogativa de que a culpa da imposição do relógio também é do cirurgião-dentista, que não cumpre com seus deveres de fazer a odontologia com amor e dedicação... que faz do emprego um "bico" e que não consegue criar um vínculo com seu paciente... que simplesmente cuida do relógio para poder ir embora e nem sequer diz seu nome àquela pessoa que se entregou totalmente aos seus cuidados!!! Infelizmente muitos ainda agem desta maneira, e é por causa desses que o relógio torna-se impositor de regras. Abraços

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