Manoel Vicente

Os gatilhos da segunda onda

Por 28/02/2021, 19h:01 - Atualizado: 07/03/2021, 06h:30

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Situações traumáticas marcam. Medo, batedeira no peito, falta de ar, frio na barriga. Doeu, mas passou. Nosso cérebro armazena essas memórias nas camadas mais profundas e elas podem emergir à superfície trazendo todo o borbulhar de sensações e angústia do sofrimento original.

Uma palavra, um cheiro, uma notícia pode ser o gatilho para reviver aquele evento e todas as sensações associadas. Uma vez que o gatilho é disparado, é difícil interromper o que se segue, o processo ganha vida própria.

Esse mês estudos apontaram que o COVID 19 pode ter efeito direto sobre o cérebro dos infectados, mas muito além da invasão ao tecido nervoso, parece que ele penetrou fundo em nosso emocional e gerou memórias traumáticas.

Quem se fixa no presente não se entrega a memórias ou confabulações de um futuro catastrófico. Usa como referência apenas o que realmente está acontecendo

Manoel Vicente

E os gatilhos estão aparecendo: poucos leitos, lockdown, nova onda, e o turbilhão emocional do primeiro susto também ameaça voltar.

Quando pensamos no vírus, emerge o medo, a incerteza, o temor pelos entes queridos e a insegurança financeira. Também pode emergir a raiva dos que não se isolaram ou da obrigação ao isolamento. Entrar nessa estressa ainda mais sua saúde mental.

Se focar ao máximo em informações realistas do presente te ajuda a interromper o fluxo emocional negativo.  É se beliscar para acordar. 

Quem se fixa no presente não se entrega a memórias ou confabulações de um futuro catastrófico. Usa como referência apenas o que realmente está acontecendo.

Então vamos aos fatos, efetivamente existe uma pandemia. Um vírus não pode infectar menos pessoas, sempre serão mais, os números vão subir, querendo ou não. Podemos tentar diminuir a velocidade e só.

Países ricos europeus e nossos vizinhos latinos não foram capazes de prevenir uma triste segunda onda, então era certo que ela nos atingiria também. 

É importante ter em mente que estamos muito mais preparados. Médicos tiveram tempo de aprender sobre o manejo da doença, a melhor hora de prescrever o remédio certo, o uso de oxigênio e prevenção de tromboses. 

Um lockdown é questão de tempo, pois os números justificam, mas deve ser menos duradouro que o primeiro e não seremos privados de espaços abertos

Manoel Vicente

Os estabelecimentos estão adaptados, com mais higiene, distanciamento, máscaras são realmente vistas em qualquer lugar. 

Sim, bares estão cheios, pessoas sem proteção ainda estão por aí, mas a maioria está fazendo o que é possível. No começo da pandemia a orientação era de máscaras apenas para os doentes, então certamente avançamos.

Um lockdown é questão de tempo, pois os números justificam, mas deve ser menos duradouro que o primeiro e não seremos privados de espaços abertos. Empresas se modernizaram, a telemedicina avançou, consumidores estão mais à vontade na Internet e nos aplicativos.

É indiscutível que estamos mais próximos da imunidade coletiva do que 10 meses atrás. Vários foram contaminados e já tem anticorpos que conferem proteção, não absoluta, mas significativa. Profissionais de saúde e idosos mais frágeis estão sendo imunizados. 

Nossos eus da primeira onda invejariam essas vantagens, o você de hoje precisa ter clareza delas. Dominado por gatilhos, não existe clareza. 

Devemos seguir com serenidade para aceitar o que não se pode mudar, coragem para enfrentar essa segunda onda e não perder de vista o que já conquistamos.

Manoel Vicente de Barros é médico, graduado pela UFMT e saiu da terra natal para fazer residência em psiquiatria em Barbacena (MG), se aperfeiçoou no tratamento da depressão e ansiedade com Estimulação Magnética Transcraniana em Toronto no Canadá e retornou a Cuiabá para atuar com psiquiatria humanizada. Escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. Instagram: @dr.manoelvicente

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