Manoel Vicente

Precisamos enxergar a cultura do cancelamento

Por 25/10/2020, 11h:41 - Atualizado: 25/10/2020, 11h:45

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Hipermetropia é o defeito visual que desfoca a visão para perto. O horizonte e a imagem geral permanecem nítidos, mas detalhes demasiado pequenos se tornam indecifráveis.

Ao enxergar processos sociais e culturais todos sofremos dessa dificuldade para enxergar de perto. Conforme nos distanciamos historicamente, ganhamos clareza.

Eis que nos últimos anos parece emergir, ainda meio turvo, um novo fenômeno social: a cultura do cancelamento.

O embrião foi a “call out culture”, que é a exposição pública de quem comete um ato censurável. “Call out” é o ato de tirar satisfação, chamar à fala para uma explicação.

Era mecanismo de censura moral por movimentos identitários, mas também de pressão a uma inflexão e mudança de comportamento. Com as redes sociais em que número de seguidores é fonte de monetização, ignorar, ao menos teoricamente, gera prejuízos.

Os alvos prediletos são políticos, artistas e jornalistas. Em uma tentativa de gerar dano financeiro, ou para simplesmente não se incomodar por um posicionamento antagônico ao seu, excluímos tudo o que essa pessoa futuramente diga.

Boicote é um ato legítimo, com propósito e desejadamente temporário até que o alvo ceda ou se retrate. Deixar de consumir ou seguir alguém pode fazer parte do diálogo social.

Podemos não enxergar agora as consequências sociais de não consumir  tudo o que vai contra seu alinhamento ideológico, certamente veremos com maior clareza em alguns anos, mas é difícil imaginar um desfecho positivo à criação de bolhas políticas e culturais

Manoel Vicente

O cancelamento em sua forma extrema, no entanto, retira totalmente a pessoa das redes sociais e de todo conteúdo que se consome. Aos poucos se estende a outras esferas da vida. 

Nunca mais ouvir músicas do cantor cancelado, não ler aquela revista, jamais escutar a opinião do político em quem você não votou na última eleição.

Como um ponto cego, deixamos de enxergar a existência do dissonante, o pensamento diferente se torna inexistente e o resultado é reduzir seu campo de visão. Sem qualquer busca por diálogo ou retratações.

O outro lado, por consequência, terá contato apenas com quem aplaude seu ponto de vista. Duas pessoas que não se enxergam vão viver na ilusão de ótica que a outra não existe. Se existe, não tem absolutamente nada em comum comigo. 

Uma cegueira voluntária que, na contramão de uma chamada de atenção, é uma tentativa de punição, não uma proposta de reforma. 

Está implícito que outro ser humano é incorrigível, que mudar de opinião é incoerência e ai de quem rever seu pensamento daqui a alguns meses.

Podemos não enxergar agora as consequências sociais de não consumir  tudo o que vai contra seu alinhamento ideológico, certamente veremos com maior clareza em alguns anos, mas é difícil imaginar um desfecho positivo à criação de bolhas políticas e culturais.

Conforme envelhecemos o risco de desenvolver hipermetropia aumenta, precisamos de óculos ou ajuda de alguém mais novo para letras miúdas, em compensação, é possível enxergar o quadro maior, ver além, e até imaginar o que está por vir.

Uma sociedade que não dialoga e não consegue concordar com fatos básicos sobre a realidade porque as fontes discordantes não merecem ser ouvidas dificilmente acabará bem.

Não queremos ser estudados em alguns séculos como uma civilização de bolhas, que só ouvia quem reafirmava suas crenças e não percebeu que isso era uma ameaça à trama social e democracia tão duramente construída.

Portanto, mantenho lendo jornais cuja linha editorial não me agrada,  propostas dos políticos que jurei nunca votar e seguindo o cantor que já disse muita besteira.

Com a visão do todo é possível enxergar mudanças, em nós e nos outros. E você, quem vai descancelar hoje?

Manoel Vicente de Barros é médico, graduado pela UFMT e saiu da terra natal para fazer residência em psiquiatria em Barbacena (MG), se aperfeiçoou no tratamento da depressão e ansiedade com Estimulação Magnética Transcraniana em Toronto no Canadá e retornou a Cuiabá para atuar com psiquiatria humanizada. Escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. Instagram: @dr.manoelvicente E-mail: dr.manoelvicente@gmail.com

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