Rose Domingues

A previdência para Dona Cida diarista

Por 16/06/2019, 08h:53 - Atualizado: 16/06/2019, 09h:02

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingos

 

Quando o filho mudou para estudar direito na Capital, ela não fazia outra coisa além de chorar e se preocupar. ‘O que será do Vitor, meu Deus’. Após alguns meses, a saudade apertou tanto que ela resolveu abandonar a vida sossegada de diarista no interior pela estressante rotina na cidade grande.

Me lembro bem da cena, Dona Cida parada em frente à casa da irmã, num bairro distante de Várzea Grande, com aquele olhar assustado, pois era tudo tão diferente. O quarto onde dormia, nossa, ela dizia que era muito quente e apertado. Além disso, precisava desesperadamente de um trabalho.

Otimista, usei meus contatos para vender os serviços dela e funcionou. Hoje tem uma lista de clientes e alguns em espera. Afinal, dona Cida é a melhor: chega cedo, prepara o café, lava e passa toda a roupa, deixa banheiros e todas as janelas brilhando, ainda é de confiança. Mais que isso, ela limpa de verdade.

Conviver com essa mulher é sensacional, porque está sempre sorrindo e tomando a frente. Faz muito mais do que a gente pode imaginar. Outro dia consertou a torneira, arrumou o varal, ah, também capinou o quintal. Costuma trazer pão quentinho e vive me dando presentes. ‘Não acredito, dona Cida, trouxe mais um forro pra mesa!’.

Ela é alguém que não existe, quase surreal. O que nós temos não é uma troca apenas de serviços, porque o que ela me oferece é uma forma de amor. Cuida da minha casa e afaga a minha alma. Ela é sem sombra de dúvida meu anjo da guarda. Já teve alguém assim na sua vida?

Para chegar às 6h40 no Jardim Imperial, ela acorda às 4h. Se arruma rápido e vai até o ponto pegar ônibus. Tem medo, porque está escuro, mas não tem outro jeito, ela diz. “Outro só daqui a uma hora”. O dia é longo, precisa retornar às cinco e meia da tarde, se perder a hora, só chega em casa às nove da noite.

Conversando ela me conta, o mais cansativo mesmo é rodar tanto. O ônibus passa pela cidade inteira, com gente saindo pelas janelas. Algumas pessoas são estranhas, outras bem fedidas. Dona Cida diz que aquele cheiro todo lhe dá ânsia e dor de cabeça, mas não tem outra maneira, são ossos do ofício.

Todos os dias, de segunda a segunda, é sempre igual. Eu fiz as contas, ela trabalha inclusive aos domingos, mais de 120 horas semanal. Por mês, são aproximadamente 3,7 mil horas. Deveria estar reclamando, mas ela é a Dona Cida, pelo contrário, está sempre sorrindo e agradecendo.

“Meu menino será doutor, vale a pena tanto sofrimento”. Ela é uma mulher pequena, magra, sempre de shorts e camiseta, possui um jeito simples e alegre de ser. Mas, o que tem de miúda, tem de animada, é muito elétrica e determinada. “Preciso trabalhar, Meire, preciso ganhar dinheiro”.

Além de pagar a faculdade e comprar livros, recentemente, enfiou na cabeça que ‘agora ele precisa falar inglês’. Que orgulho de mãe ver o rapaz se saindo bem no How are you, mommy? "Meire, ele está falando em estrangeiro”.

Então, ela chora. Eu choro. Juntas ficamos ali, sozinhas, abraçadas na cozinha logo cedo tomando um café. Sentimos o cansaço e a dor uma da outra, afinal, somos mulheres. É uma solidão acompanhada, e uma esperança compartilhada. Porque tudo na vida vale a pena quando a alma não é pequena. E a alma da Dona Cida é grande, não cabe neste artigo.

Me desculpe a franqueza, mas não existe ordem e progresso de um país sem respeito à mulher trabalhadora

Rose Domingues

Infelizmente mulheres como a Dona Cida, após uma vida inteira de trabalho, serão as mais prejudicadas com a atual proposta de reforma da previdência. Uma das principais alterações é justamente aumentar a idade mínima de 60 para 62 anos (trabalhadoras urbanas) e de 55 para 60 (rurais). Para os homens fica tudo igual.

Não, eu não sou contra discutir uma forma de tornar o sistema previdenciário sustentável em longo prazo. Mas não concordo com a forma e o tom em que tudo isso está posto e tendo que ser aprovado à toque de caixa. Será mesmo que estão nos dizendo toda a verdade? Será que este recurso é hoje bem administrado? 

Particularmente, acredito que não. Uma manchete do Senado Notícias dizia assim, em outubro de 2017: “Empresas privadas devem R$ 450 bilhões à Previdência, mostra relatório final da CPI”. Até o momento, nada se falou sobre cobrar as empresas devedores, grande parte delas instituições financeiras que têm lucros exorbitantes a nossa custa (povo brasileiro).

A chamada da reportagem de 19 de fevereiro deste ano afirmava: “Os quatro maiores bancos do país com ações listadas na Bolsa lucraram, juntos, R$ 69 bilhões no ano passado, maior valor da história (...)”. Entre eles, se você tiver curiosidade e pesquisar, há aqueles que estão listados como grandes devedores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Também não se ouve falar em fim de privilégios para algumas castas do serviço público, nos poderes legislativo e judiciário, ou com os militares. Pode até ser que eu possa trabalhar até os 80 anos, como brincaram alguns parlamentares, se estivesse deliberando sobre isso de dentro de um gabinete com ar condicionado e me beneficiando de mordomias pagas pelo Estado.

No entanto, Dona Cida tem que acordar de madrugada para pegar dois ônibus, trabalhando de sol a sol. Paga o próprio aluguel, porque como diarista não tem direito a auxílio moradia, nem a um carro oficial. Mesmo com tanto sacrifício, nesse ritmo, não vai conseguir se aposentar com dignidade.

Imagine a situação das mulheres da roça que fazem tanto trabalho pesado. Ou as professoras, em salas de aula lotadas. Me desculpe a franqueza, mas não existe ordem e progresso de um país sem respeito à mulher trabalhadora. Sem considerar o capital mais importante, que é o ser humano.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

Postar um novo comentário

Comentários (1)

  • Carlos Nunes | Domingo, 16 de Junho de 2019, 13h27
    1
    0

    Pois é, quem quiser saber a realidade dura, nua e crua, sobre essa Reforma da Previdência, pode assistir pelo youtube a palestra da professora, Doutora em Economia, DENISE LOBATO GENTIL, intitulada "professora da UFRJ desmonta Reforma da Previdência." Em pouco mais de 30 minutos a Dra. GENTIL dá uma aula, e mostra que tio Guedes amarelou, em vez de primeiro tratar do andar de cima, OS PODEROSOS, preferiu mexer com o andar de baixo, que tá na base da pirâmide social. Quer fazer o povo brasileiro trabalhar MAIS, contribuir MAIS com a Previdência, pra no final ganhar MENOS...diz que, em 10 anos, vai fazer uma economia de 1 TRILHÃO DE REAIS...traduzindo: em 10 anos, vai RAPAR o bolso dos coitados dos Aposentados e Pensionistas em 1 TRILHÃO DE REAIS. Assistam a palestra da professora, e depois tirem as suas próprias conclusões.

Abicalil renova pedido e segue na AL

carlos abicalil curtinhas   O ex-deputado federal Carlos Abicalil (foto), ex-presidente do Sintep e com histórico de várias disputas eleitorais, sem êxito nas urnas, como de governador e de senador, renovou o pedido junto ao governo para continuar em desvio de função até junho de 2020. Ao invés de...

Praças terão espaço à inclusão social

emanuel pinheiro curtinha   Merece elogios a ideia do prefeito Emanuel Pinheiro (foto) de dotar todos os parques municipais de Cuiabá de equipamentos especiais para permitir diversão, entretenimento e atividades físicas a pessoas com deficiência. Isso mostra a preocupação do gestor com a inclusão...

DEM é fraco em Cuiabá há décadas

O DEM dos irmãos Júlio e Jayme Campos e agora do governador Mauro Mendes enfrenta resistência histórica na tricentenária Cuiabá. Fundado em 1985 como PFL, que absorveu dissidentes do velho PDS, o DEM hoje não possui uma cadeira entre as 25 na Câmara Municipal. Aliás, não elege vereador há três legislaturas. A última vez que o partido tentou disputa para prefeito da Capital foi em 2000 e, curiosamente, tendo...

Nininho, falta à sessão e justificativa

O deputado Ondanir Bortolini, o Nininho, contesta informação de que teria "amarelado" ao não comparecer à sessão ordinária da Assembleia, que resultou na aprovação da mensagem do governo sobre reinstituição dos incentivos fiscais, em primeira votação, pelo placar de 15 a 7. Em verdade, o parlamentar do PSD justificou oficialmente sua ausência. Explica que foi internado e, por orientação...

Efetivados irregularmente e recebendo

darci lovato curtinha   Entre os quase 100 servidores da Assembleia que já tiveram estabilidade funcional cassada pela Justiça em 1º grau por alguma irregularidade em documentos, estão ex-secretários municipais, colunista social, ex-policiais, radialista, ex-prefeito, ex-vereador e outros que já tentaram, sem...

Governo quita toda a folha de junho

O governo estadual concluiu nesta sexta (19) o pagamento de junho dos servidores ativos, inativos e aposentados que ganham acima de R$ 7,5 mil. Para essa quitação foram necessários R$ 61,8 milhões. Com isso, liquidou totalmente a folha de junho dos cerca de 100 mil funcionários públicos, que consomem R$ 472,7 milhões. No dia 10 deste mês, o governo pagou a primeira parcela dos salários de junho, depositando até R$ 5,5...

ENQUETE

Profissionais da Educação estão em greve há mais de um mês. O que você acha disso?

estão corretos. Devem continuar

discordo. Deveriam voltar às aulas

pra mim, não faz diferença

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.