Rose Domingues

Amália em defesa dos amores de inverno

Por 23/06/2019, 08h:05 - Atualizado: 23/06/2019, 08h:18

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingos

Quanta admiração nos desperta as paixões escandalosas de verão, nascidas sob o sol exuberante, elas lembram produções hollywoodianas. Deus escolheu Matias a dedo pra mim. A frase não lhe saía da cabeça há dias. Mas Amália, 41, apesar de romântica, preferia ler mais uma vez O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez.

"Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único estante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias”. A obstinada história desse amor, que só prosperou meio século depois, venceu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982.

Amália se lembra de quando era criança. Não se encaixava naquele mundo de cidade pequena, por isso costumava andar sozinha com a sua Caloi, metida com a cara nos livros, no mundo de personagens. Não conte a ninguém, ela inventou finais diferentes para a cachorrinha Baleia, de Vidas Secas (Graciliano Ramos), para Dom Casmurro e Esaú e Jacó (Machado de Assis).

Também chorou copiosamente e se resignou diante da realidade de Os Maias, O primo Basílio e O Crime de Padro Amaro (Eça de Queiroz). Quis morrer inúmeras vezes, como Anna Karerina (Liev Tolstói), que se atira sob as rodas de um trem depois de largar o marido por um canalha. Nos filmes, sempre brincava de ser a irreverente e teimosa Katie Scarlett O'Hara, em E O vento levou.

Gostava especialmente dos contos de fadas, como aquele em que jovens príncipes se transformavam em corvos por causa do feitiço de uma bruxa e só voltariam ao normal quando fossem mais educados e bondosos, ou seja, prontos para governar. Havia ainda uma preferida, de uma princesa indiana que se apaixonou por príncipe muçulmano e que deveria vencer grandes desafios para conquistar seu amor.

O inverno começou no hemisfério sul trazendo o solstício de inverno este ano exatamente no dia 21 de junho, às 15:54, uma agradável tarde de sol em Cuiabá. Cena que contrasta com uma congelada cidade abaixo de zero. Exceto pela rinite alérgica, Amália não acreditaria estar adentrando a mais inóspita estação do ano, que é quando sente sua cabeça pesada e muita falta de ar.

Ao pesquisar a respeito descobriu curiosidades sobre o período em que a Terra já completou a sua inspiração total e precisa de uma pausa. Nesta época, as forças da natureza precisam de recolhimento, silêncio e hibernação. Observe, com o frio, que corpo e alma sentem necessidade de interiorização.

Viver de maneira simbólica, portanto, é um convite a seguir os movimentos das estações do ano: se desfolhar e morrer no outono e inverno, para desabrochar e atingir a plenitude entre primavera e verão. Conforme traz a antroposofia (do grego, conhecimento do ser humano): “Germinam as plantas na noite da Terra, brotam as ervas pelo vigor do vento, e amadurecem as frutas pelo poder do Sol. Assim germina a alma no relicário do coração (...)”.

Pensativa, Amália observava-se no espelho. Ela era apenas uma massa compacta e meio flácida de carne coberta de pele, onde as primeiras linhas de expressão e pelos brancos estavam surgindo? "Talvez tenham nos enganado dizendo que a vida era para ser uma experiência extraordinária, quando é somente uma sucessão de eventos com cerimônia protocolar: nascer, casar, ter filhos, trabalhar e morrer, perto dos 70 anos, mais ou menos".

Viver de maneira simbólica é um convite a seguir os movimentos das estações do ano

Rose Domingues

Em seu desfecho final, momento em que todas as luzes se apagam, a velhice e a morte inevitavelmente chegam. É tempo de encarar o inverno pálido e seco, quando os ossos doem e quebram fácil. Sente-se muito cansaço e até tristeza pelo tempo despendido com futilidades. Os filhos se foram, os recursos ficam escassos e os antigos amores moram na lembrança. Afinal, o que eu fiz ou o que fizeram de mim?

Lendo sobre o segredo de casais felizes em suas bodas de ouro, Amália descobriu ser necessário apenas boas doses de gentileza e generosidade. Viver junto ou mesmo conviver em sociedade é uma habilidade que, segundo pesquisas recentes na área da psicologia, requer o que já estamos cansados de saber: cooperação e valorização do outro. Portanto, quem subjuga, ignora e despreza em geral fracassa.

Ela subitamente entendeu, que mesmo tendo uma história de trás para frente e cabeça para baixo, não estava esquecida de Deus. Ela caminhava do mesmo modo contrariado que o amor de Florentino Ariza por Fermina Daza: resoluta e esperançosa, enfrentando com sucesso as tantas fases de baixas temperaturas.

“Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir”, convida o escritor libanês Khalil Gibran, em sua obra célebre O Profeta.

Porque o amor de inverno, como bem concluiu Amália, é tão forte e poderoso que pode tudo, principalmente nos transformar na melhor versão de nós mesmos. E que melhor sentido poderíamos dar à nossa vida? 

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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