Rose Domingues

Carta de uma suicida

Por 01/09/2019, 00h:01 - Atualizado: 31/08/2019, 18h:10

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Ângela mergulhava em um silêncio profundo durante a aula de natação. Quando subia a cabeça para puxar o ar, havia barulhos e cheiros, crianças gritando, uma mãe perguntava as horas, o professor dizia que tiraria todos da piscina se continuassem com a balbúrdia, gente entrava e saía, a piscina se agitava e o mundo parecia estar mais rápido do que ela podia acompanhar.

Por que não queremos falar sobre a morte? O que nos impede de olhar para isso?

Debaixo da água era calmo, os raios de luz brincavam com a água que a conduziam por uma dimensão solitária. Ali embaixo não conseguia ir mais rápido, pois tudo se passava em câmera lenta. Assim enxia rapidamente os pulmões e voltava para a mesma sensação, cada vez mais e mais rápido, cada vez mais profunda, até que não voltou mais à superfície. Então, Ângela atravessou o portal.

Uma pessoa morre a cada 45 minutos de suicídio no Brasil; e uma a cada 45 segundos no mundo. Mesmo considerado como problema de saúde pública pela Organização Mundial de Saúde (OMS), por afetar de forma brutal muitas famílias, o problema ainda é considerado tabu no Brasil. Por que não queremos falar sobre a morte? O que nos impede de olhar para isso?

Caso real, em Cuiabá: a professora Maria (nome fictício), 43 anos, perdeu a filha Laura, 15, há 3 anos. Naquela tarde ao retornar para casa do trabalho encontrou a adolescente sem vida, pendurada por uma corda na janela do banheiro. Uma cena de crime limpa, mas impactante. “Ela estava em tratamento psicológico, nunca imaginei que sofria tanto”.

Conversa vai, conversa vem, os pais descobriram que o suicídio da jovem pode ter sido potencializado por alguns fatores: bullying na nova escola, pressão do namorado para ter uma vida sexual ativa, e um caso antigo de abuso sexual, cometido por um primo, que a família só descobriu quando as crises de depressão se acentuaram.

Onde está o amor, a esperança, a paz, a verdade? Ângela queria descansar de tudo isso, dessa rotina maçante, das decepções, da falta de perspectiva, do medo

Será que poderíamos ter impedido o que aconteceu? E se eu tivesse conversado mais? Demostrado mais carinho? Pais, familiares e amigos se martirizam internamente achando que poderiam ter feito alguma coisa (período de posvenção). Profissionais da área dizem que nem sempre é possível impedir o impulso para o suicídio, cada caso é diferente. Uma coisa é fato, seres humanos são complexos.

Ainda lembramos com carinho da Ângela, que deixou uma carta em cima da penteadeira: “Amo tanto vocês, mas não consigo continuar, nada faz sentido”. Mãe de duas crianças, ela costumava se deitar na cama e travar um diálogo silencioso com a morte. Mas o rostinho angelical dos filhos normalmente a tirava dos devaneios sombrios.

Não gostava da ideia de um tiro de revólver ou giletes com poças de sangue, como nos filmes. Um dia sonhou que pulava da sacada e voava até o céu, era uma cena bonita. Na prática, essa ideia de morte em que ficava destroçada definitivamente não lhe agradava. Ângela pensou em muitas maneiras de interromper a vida.

Toca o despertador, hora de ir trabalhar e agir normalmente, cuidar do almoço, da janta, dar banho nas crianças, sorrir e parecer uma mulher normal. Mas lá pelas onze da noite, de cara para o teto, voltavam os pensamentos recorrentes e o peito ardia de dor. Não gostava da ideia de uma corda e de sufocar até a morte. Um carro em movimento sempre foi mais sedutor. No trânsito não há crimes, no final tudo vira acidente.

Os filhos cresceram, o marido foi embora, o país está em crise, que motivo ela teria para viver? Qual o sentido profundo da existência? O que vem depois? Onde está o amor, a esperança, a paz, a verdade? Ângela queria descansar de tudo isso, dessa rotina maçante, das decepções, da falta de perspectiva, do medo. Ela queria descansar e parar de sofrer. 

Quantas pessoas a nossa volta caminham com este mesmo sentimento ou até sensações piores? A pressão das redes sociais para termos vidas perfeitas e maravilhosas impactam ainda mais negativamente a nossa saúde mental e emocional, somada a uma rotina de super mulher e super homem, onde não há lugar para atividade física, conversa com amigos e lazer de qualidade, especialmente na natureza.

Um deprimido pode parecer normal, produtivo e alegre!

É uma rotina baseada em pressa, muito trabalho para pagar cada vez mais boletos e ter uma vida cada vez mais complexa, combinando estresse, alimentação artificial e de baixa qualidade e sedentarismo. Quantas vezes nesta semana você (que está lendo este artigo) foi abraçado ou abraçada por mais de 3 minutos? Qual foi a última vez que apreciou o pôr do sol? Tomou banho de cachoeira? 

Nunca tive depressão propriamente, que é uma doença, não tomei remédios. Mas tudo isso é muito familiar para mim. Sempre pensei em suicídio como uma opção, por isso acredito que falar a respeito é importante, observar os sintomas. Temos que passar a prevenir os casos em que é possível prevenção! Embora Ângela seja um personagem fictício, suas dores são baseadas em situações reais.

O que faz alguém ter uma tristeza que evolua para uma depressão e um suicídio? No meu caso, busquei ajuda profissional quando estava em sofrimento, o que foi fundamental. Falar sobre os problemas em um ambiente seguro e sem julgamento me salvaram de algo pior. Porque as pessoas à volta costumam menosprezar a dor do outro (vai lavar um tanque de roupa suja, é falta de Deus, é frescura, ela tem natureza frágil ou é uma pessoa fraca). 

Se você tem pensamentos de morte, acha que a vida não faz muito sentido, costuma fazer coisas arriscadas (trânsito, uso de álcool, esportes radicais,), costuma ter mau humor crônico, baixa autoestima, dificuldade de relacionamento, cansaço excessivo, insônia, se isola, saiba que a depressão possui muitos sintomas. Um deprimido pode parecer normal, produtivo e alegre!

Então, se observe e não deixe a doença evoluir. Cuide da sua saúde, mesmo que isso exija inicialmente um esforço gigante, persista, peça ajuda, mexa-se (como ainda faço diariamente). Observe também as pessoas à sua volta, tenha empatia com a dor do outro, quem garante que aquele sorriso de bom dia não esteja salvando uma vida? Escute mais e julgue menos! Fraternidade não tem endereço ou religião, ela tem corações abertos ao amor. Mas caso precise muito conversar sem ser julgado, ligue no CVV (141).

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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Comentários (2)

  • Sirlei Theis | Domingo, 01 de Setembro de 2019, 10h57
    1
    0

    Parabéns pelo artigo. ótima reflexão

  • Ideci Ferreira Barreto | Domingo, 01 de Setembro de 2019, 09h00
    1
    0

    Pesquisando sobre depressão, encontrei vários pesquisadores afirmando que uma das causas da depressão é a Vitamina B12 muito baixa. Foi aí, que resolver fazer o exame, para minha surpresa, o resultado estava abaixo do mínimo. Passei fazer suplementação de B12, B9 e B6. O curioso é que a B12 da minha filha está baixo também.

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