Rose Domingues

Como fazer pão

Por 19/04/2020, 08h:49 - Atualizado: 19/04/2020, 08h:49

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

No meu sexto dia de isolamento social resolvi fazer pão pela primeira vez. A receita é simples, quase intuitiva: meio litro leite, duas xícaras de açúcar, dois ovos, uma pitada de sal, duas colheres de margarina e de fermento; meio saco de farinha, ah, compre uma boa farinha.

Fazer pão é como viver, a gente precisa estar atenta aos pequenos detalhes para virar realmente uma massa fofinha e que possa ir ao forno! Antes de começar, coloque todos os ingredientes na pia da sua casa, de forma organizada. Em uma bacia, dissolva o fermento para pão no leite "morno", esquentar antes é a primeira dica. 

Aos poucos, misture ao leite também os ovos, o açúcar (xícara de chá rasa), a margarina (deixe fora da geladeira para derreter) até que fique tudo homogêneo. Bata por alguns minutos, respire, você consegue. Até aqui tudo bem?

Quando comecei a adicionar a farinha, confesso, me deu pânico e liguei para a minha mãe. "Ainda está muito mole, qual quantidade eu coloco?". Ela respondeu depende, o que me deixou mais louca. A essa altura, já havia farinha para todo lado: roupas, cabelo, no chão e nos armários.

Fiz uma chamada de vídeo, mostrei a massa molenga para ela, que me respondeu: "Está indo bem, você só precisa adicionar pouco a pouco, pois vai ganhar consistência. Daí já poderá tirar da bacia e sovar na pia, com as mãos e depois com o rolo".

Como assim, mãe? Tem certeza? Respirei fundo, como se estivesse na aula de yoga, tentando uma postura de equilíbrio e força. Fiz um esforço para não desistir e mandar aquela voz persistente parar de me xingar: "Você não nasceu pra isso. Você é péssima. Você nunca vai conseguir. Você não faz nada direito. Isso não é pra você”

Será que eu preciso mesmo ser boa em tudo? Respondi para mim mesma que não. Olhando a cozinha suja, grudenta e a massa que viria ser um pão daqui algumas horas eu parei, respirei profundamente, e continuei o que me propus. Vou fazer esse pão. "Você consegue, Rosimeire, divirta-se como se fosse uma criança".

Vencer a si próprio é a maior das vitórias, dizia o filósofo Platão

De repente aquele "trem esquisito" foi tomando forma. Meus braços doíam de mexer, mas ainda grudava muito na tigela de plástico. Liguei novamente para a minha mentora:  "Mãe, ainda gruda, não tem como sovar, o que eu faço?". Serenamente ela insistiu: "Mais farinha, filha, sem medo, põe farinha que dá certo". E deu.
“Vencer a si próprio é a maior das vitórias, dizia o filósofo Platão”
Comecei a brincar com a massa, espalhei farinha na pia, reparti o conteúdo em duas partes e sovei. Sovar é amassar, bater, espancar, maltratar (risos). E se grudar? Farinha! A pia de mármore fria ajuda no processo. Realmente, ficou macio e gostoso. Usei o rolo de madeira para abrir a massa e enrolar os pães. Untei a forma, coloquei um pano macio e “quente” (não riam, usei uma mini coberta) sobre os pães, como mandou a minha mãe, e “deixei descansar”.

Cerca de uma hora depois veio o ar de espanto: os pães tinham dobrado de tamanho, que lindos, espalharam-se pela forma! "Agora põe pra assar em fogo baixo e fica cuidando, quando dourar desligue o forno e deixe a massa chegar ao ponto sozinha". Na primeira fornada, a casca ficou um pouco dura, o pão muito doce, mas meu filho devorou vorazmente.

Da segunda vez em diante, já não precisei perturbar a mamãe com explicações. Agora, então, já faço pão sem qualquer alvoroço, rapidamente e confiante. A experiência é gratificante, pois consigo produzir algo para a família se alimentar que até então precisava comprar no supermercado. Também é muito gostoso saborear pão caseiro com café.

Tem 28 dias que estou em isolamento, trabalhando em casa (homeoffice), saindo o menos possível e respeitando as regras impostas pelo governo e pela Organização Mundial de Saúde. Estou vivendo um dia de cada vez, não fazendo muitos planos de futuro, economizando recursos e dedicando tempo para coisas que eu gosto: cozinha, jardinagem, leitura, piano, família e meditação.

Não sei se o mundo será igual, melhor ou pior quando tudo isso acabar. Não temos muitas respostas. Sinceramente, o que os outros pensam parou de ter tanta importância assim. Vejo rapidamente os noticiários, me indigno como qualquer pessoa normal, no entanto, não perco mais tempo debatendo sobre visões retrógradas de política, economia e religião.

Penso que algumas pessoas estão mostrando seu pior e se afundando mais na própria sombra do egoísmo. Isso é um problema – e um carma – delas. Da minha parte, estou contribuindo ao me manter serena e obedecendo as regras proposta pelo bem maior. Além disso, já estou diferente, aprendi a fazer pão! “Vencer a si próprio é a maior das vitórias”, dizia o filósofo Platão. 

(Que tal falarmos de jardinagem na próxima semana?)

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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