Compre dos pequenos!

Por 29/03/2020, 08h:23 - Atualizado: 29/03/2020, 11h:12

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Sou filha de uma empregada doméstica que se casou com um mecânico e virou empresária. Ambos começaram do zero, em São José dos Quatro Marcos, interior de Mato Grosso. Papai veio de São Paulo aos 17 anos, apaixonou-se pela mamãe, que também chegou de mala e cuia na carroceria de um caminhão ao vilarejo que até hoje só tem uma avenida principal, a Avenida São Paulo.

Ela trabalha desde os 9 anos, com o salário ajudava a minha avó Maria que era lavadeira a comprar a “mistura” (basicamente carne), e às vezes até maçãs. Começou como babá, faxineira, depois vendedora de loja, onde era rejeitada por ser pobre. Virou cozinheira em um restaurante de posto de gasolina, desenvolvendo sinusite e anemia, aos 17, ao ficar exposta a altas e baixas temperaturas e não se alimentar bem.

Da cozinha ao ramo empresarial. Maria Alice completa 60 anos na próxima quarta-feira (1º), um ano atípico para se chegar oficialmente à terceira idade e estar no grupo de risco ao Covid-19, em isolamento. Mas pensar que sou filha de pequenos empresários neste momento me comove, porque uma das últimas recordações que eu tenho da minha mãe é esta:

Ela vendeu o próprio carro e andou meses a pé, sem reclamar, para poder quitar integralmente o 13º salário de todos os funcionários e ainda lhes oferecer bônus no fim de ano. Não sei que tipo de gente educou vocês, mas cresci vendo a “Dona Maria” compartilhar sua riqueza com todos: família, funcionários, escola pública (onde ela bancava as festas) e em todo lugar.

“Ah, mas os tempos são difíceis. Ah, mas o partido tal. Ah, mas...”. Desculpe, tudo isso é conversa fiada, pois testemunhei ao longo de 40 anos a senhora minha mãe lutando contra todas as adversidades - alta carga tributária, planos econômicos, inflação, direitos trabalhistas e machismo – e saindo vitoriosa. Todos que passaram pela Auto Elétrica Palmeira ganharam, era uma empresa do ganha-ganha.

Então, por que grande parte do empresariado visa somente lucro quando há mais para partilhar? Vale a pena superestimar números mesmo submetendo funcionários a riscos desnecessários? Ouvi de uma amiga que trabalha com gestão que o erro da mamãe foi a “hiper valorização humana”, que isso a impediu de crescer. Mas, será que sucesso tem a ver com tamanho? Desculpe, para mim ela foi gigante!

Aproveitei este momento delicado de enfrentamento ao coronavírus, que já matou 25 mil pessoas e contaminou mais de 500 mil no mundo, para fazer reflexões acerca do meu estilo de vida e do quanto preciso valorizar mais empresas como a da minha mãe, que neste momento de pânico não estão fazendo tortura psicológica. Ao contrário, são empresários dispostos a dividir o que têm, são solidários.

Não observei nos pequenos, e tenho amizade com vários deles aqui no bairro e entre amigos, menosprezando “7 mil mortes” em nome da economia. Também não participaram de carreatas em seus carros de luxo para cobrar “um Brasil que não pode parar” (alias, eles não têm carro de luxo). Esse slogan, aliás, foi usado pela Itália (e Milão) “que não parou” e hoje acumula falecidos – mais de 10 mil mortos até ontem (28 de março).

Então, por que grande parte do empresariado visa somente lucro quando há mais para partilhar?

Rose Domingues

Aliás, empatia é algo que não existe na cartilha de diversos grandes empresários patriotas, a exemplo do dono do restaurante Madero e do engomadinho do Roberto Justus, que zombaram publicamente da morte de milhares de brasileiros. Ou do dono da Havan, que ameaçou de demissão 22 mil pessoas e defendeu a suspensão dos salários! Observe que este mesmo senhor parcelou a dívida com a Receita Federal e o INSS em 115 anos, tendo comprado um jatinho de preço superior na mesma época, um total absurdo.

Claro que há exceções, a Magazine Luiza comunicou que irá doar R$ 10 milhões para o tratamento das vítimas do Covid-19; a Cacau Show R$ 1 milhão; e a Minuano 57 toneladas de produtos de higiene. Como têm mais gordura para queimar, a lógica seria o governo obrigar os “grandes” a contribuir, como tem feito Donald Trump nos EUA. Concorda?

Por falar em grandes, vocês sabiam que quatro bancos tiveram lucro recorde de R$ 86,4 bilhões no ano passado, o maior valor da história? Outras setores com lucros exorbitantes foram petróleo e gás (Petrobras), energia elétrica (Eletrobrás), siderurgia e metalurgia, telecomunicações e alimentos e bebidas (JBS e Ambev). Será que ouvi sussurros de "ajuda humanitária"?

Além de serem beneficiados com políticas de incentivo fiscal e financiamentos inconcebíveis para a maioria dos cidadãos - que se mata para comprar casa própria e carro popular-, os ricaços brasileiros não sofrem qualquer taxação sobre suas grandes fortunas. Mas uma irrisória cobrança de 0,5% a 1% do patrimônio líquido (a partir de R$ 22,8 milhões) geraria, de imediato, R$ 272 bilhões aos cofres públicos! 

Portanto, ao invés de penalizar pequenas empresas, que garantem 70% dos empregos e de fato movimentam a economia, o que os governos estão esperando para chamar grandes empresários à responsabilidade e à razão? Parem de "mi-mi-mi", senhores, pois é de conhecimento geral que 30% da riqueza do país estão nas mãos de 1% de vocês. 

Tenho 41 anos, deixei de ser idealista faz tempo. Sei que não posso mudar o rumo da política e da economia, para que gerem mais qualidade de vida aos brasileiros. Mas, como cidadã, tomei uma decisão importante nesta semana e convido todos a fazerem o mesmo: valorizar e comprar dos pequenos, incentivá-los. Porque em meio a essa loucura, foram eles que se mostraram GRANDES! Compre dos pequenos! 

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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Comentários (1)

  • Valdinar Monteiro de Souza | Domingo, 29 de Março de 2020, 13h03
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    Sou um advogado e escritor paraense, que também escreve em blogue (escrevo, às quintas-feiras, no Blog do João Carlos, www.blogdojoaocarlos.com.br, aqui de Marabá, Estado do Pará). Hoje descobri o RD News e, como o que leio primeiramente em qualquer jornal, revista ou blogue são as colunas e artigos de opinião, tive o prazer de observar o corpo de colunistas do RD News e, claro, ler logo a pérola que é o artigo de hoje, da ilustre jornalista Rose Domingues Reis, que me cativou. Já está nos meus favoritos e, doravante, estarei sempre por aqui, lendo o artigo do dia e depois as notícias que, porventura, me despertarem o interesse. Parabéns!

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