Rose Domingues

Comunicação não-violenta em uma sociedade violenta, isso funciona?

Por 10/11/2019, 07h:13 - Atualizado: 17/11/2019, 06h:44

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

“Eu fui insultado moralmente, adverti para que ele não usasse a palavra covarde, que é insultuosa, grave. Adverti cinco vezes, ele insistiu. Reagi como qualquer homem reagiria”. Nada é mais oportuno do que refletir sobre a comunicação não-violenta em meio a uma semana em que um jornalista (que é referência no Brasil) ataca o outro, ao vivo, durante um programa de rádio.

Infelizmente, terei de concordar em parte com o agressor. A maioria de nós (homens e mulheres) reagiria usando violência física e/ou verbal diante de um insulto, seja no trabalho, no trânsito, na mesa de um bar ou em casa, com marido e filhos. Quantos homicídios banais acontecem aos fins de semana? Quantas brigas de vizinho? Quanta violência doméstica?

No dia em que a cena foi divulgada nas redes sociais, observei comentários de defesa ao jornalista agredido dizendo que ele deveria ter revidado com um soco, alguns inclusive o taxaram de "fraco", porque a não-violência transmite essa imagem de passividade e submissão. Os mansos podem até herdar o reino dos céus, mas para ter voz de comando na sociedade, é importante agir com certa violência: no jeito de ser, de falar, de agir, de pensar e sentir. 

Há uma semana participei, em Cuiabá, de uma palestra sobre a comunicação não-violenta, cuja proposta é mudar os paradigmas que nos levam a revidar agressões. Mas a ideia também não é ser passivo e gentil, oferecendo a outra face, ao contrário, é um convite para ser transparente e impor limites na convivência, mas de uma maneira assertiva. Caso o outro seja violento, não revidar e procurar entender o porquê da agressão.

Qual a necessidade que esta pessoa está buscando atender ao fazer ironia comigo? O que está por trás desse grito ou xingamento? A medida que a violência aumenta, maior é a ferida emocional que o outro carrega ou o grau de cegueira frente ao sistema onde está inserido. O ditado que diz “apelou, perdeu” é muito verdadeiro.

Uma mãe trabalhadora, que chega em casa cansada, mas precisa cuidar do jantar, da arrumação da casa, responder mensagens do trabalho, de repente fica sem paciência e grita com os filhos, o que estará sentindo? O que impulsionou a tratar a própria família desse jeito? A proposta central da comunicação é exercer a empatia (neste caso consigo mesma), para depois buscar soluções.

A comunicação não-violenta opera em três níveis: o primeiro é o intrapessoal e diz respeito à nossa relação com nós mesmos. É aqui que entram nossas expectativas e a maneira como nosso corpo, nossos pensamentos e nossos sentimentos se articulam. Será que estou atenta às minhas necessidades básicas?

A medida que a violência aumenta, maior é a ferida emocional que o outro carrega ou o grau de cegueira frente ao sistema onde está inserido

Rose Domingues

Depois, vem o nível interpessoal, aquele tipo de comunicação que se refere à minha relação com o outro, que está ligada ao modo como nos relacionamos com a gente mesmo. Por último, há o nível sistêmico, que envolve sistemas coletivos de acordos implícitos que utilizamos para arquitetar as relações humanas, como salas de aula, tribunais, famílias, ônibus, hospitais, entre outros espaços da coletividade.

Normalmente sofremos de cegueira sistêmica, que é a incapacidade de perceber as normas dos sistemas que regularmente organizam nosso comportamento e naturalizam atitudes que não são boas, a escravidão dos negros, por exemplo, é a base para inúmeros preconceitos e injustiças tidas ainda hoje como “naturais”.

O filósofo Hobbes, entre os séculos 16 e 17, desenvolveu um estudo descrito na obra “O Leviatã”, de que a natureza humana é má, não presta. “Na medida em que os homens não cumprem o acordo, a serpente vem e os devora”. Observando o mundo hoje, ficamos inclinados a concordar com ele e a desistir de querer ser bons.

Hobbes argumentava que o homem nasce mau, não sabe viver em sociedade e precisa de um estado autoritário, que dite regras e normas de convivência. Tese que fundamentava a visão de estado absoluto, para sobrepor à selvageria inerente à condição humana. Seguindo nesta linha de raciocínio, a maldade e o egoísmo realmente nos movem enquanto sociedade? Precisamos mesmo de uma Ditadura para pacificar críticas sociais? Ou de colégios militares para domesticar crianças e jovens?

Se por um lado há milhares de motivos para não acreditar, também há ações que nos inspiram. Nesta semana, o vídeo do professor João Hoffmann, da rede pública de Taubaté (SP), emocionou as redes sociais. “Os alunos estavam em um período livre para brincadeiras quando Heitor viu um grupo pulando corda e pediu para pular junto com eles. Em resposta, peguei o aluno no colo e pulamos corda juntos”. Foram mais de 700 mil visualizações e 16 mil compartilhamentos.

A questão não é tão simples, já que o ser humano pode fazer coisas maravilhosas! Então, mudar pequenas atitudes diárias pode realmente impactar positivamente o grupo onde estamos inseridos. A comunicação não-violenta nos convida a sair do nosso mundo, para nos conectar com as pessoas. Olhar nos olhos, tocar e, principalmente, escutar o que o outro tem a dizer. (escutar de verdade).

“Tudo bem? Tudo bem”. Observe que ninguém quer saber a resposta sincera. Mas e se de repente começássemos a dizer o que realmente estamos sentindo? E principalmente, a ouvir? O texto do escritor e facilitador Tales Gubes (http://talesgubes.com/ comunicacao-nao-violenta-2/) me deixou emocionada. “Quando falei sobre como estava me sentindo, fui encontrando na escuta de alguém que nem sabia ainda meu nome a possibilidade de me conectar comigo mesmo”.

É fato, estamos sempre buscando sanar as nossas necessidades, mesmo não tendo consciência que elas existem. Até porque, somos treinados culturalmente a mentir sobre como nos sentimos, inclusive para nós mesmos. Portanto, é uma grande surpresa fazer a reflexão que “aquele rompante” com o meu marido ou a minha mãe escondia uma necessidade profunda de conexão: Quero um abraço seu, você está trabalhando demais.

O The New York Center for Nonviolent Communication (TNYCNC) sugere seis necessidades que funcionam como valores-guarda-chuva para uma série incontável de necessidades, entre elas estão: autonomia, conexão, sentido, paz, bem-estar físico e brincar. Também podemos acrescentar segurança, respeito e amor.

A conclusão que cheguei após 41 anos de idade e uma razoável lista de cursos e treinamentos é que não podemos mudar ninguém. Há sim pessoas ruins, egoístas e que não sabem conviver em sociedade (como Hobbes descreveu). No entanto, a comunicação não-violenta está mais para um movimento interno de despertar, de ser a nossa melhor versão de si mesmo. Como Platão ensinava: “Tente mover o mundo – o primeiro passo será mover a si mesmo”.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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