Rose Domingues

Quanto vale um amigo?

Por 21/07/2019, 00h:05 - Atualizado: 20/07/2019, 21h:15

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

 

A casa de Edwiges sempre foi um ponto de encontro. Ermelinda era a vizinha da frente, Gina morava na rua lateral e Abigail no começo da Rua Rio Grande do Sul. Elas puxavam a cadeira de fio na calçada pra conversar e ver o movimento diariamente.

Era início da década de 90, interior de Mato Grosso. Ainda consigo escutá-las. Meu avô entrava e saía na área dos fundos, tio Sebastião resmungava qualquer coisa querendo jantar antes das dezoito. "Santo Dio, Ramalho, tá no fogão", respondia pitando seu cigarro de palha.

Andando pela cidadezinha de 10 mil habitantes, dona Nega (como era conhecida) parecia conhecer todo mundo, o que fazia o supermercado parecer a quilômetros de distância. "Vamos vó, não aguento parar em todas as lojas", dizia a menina ranzinza, aos 13 anos.

Cresci observando aquela mulher de fala pausada e ‘conversadeira’. Dava palpites, sabia de todas as notícias, era muito prestativa e não perdia um velório, missa ou batizado. Morreu aos quase 80 anos de repente, de pneumonia (culpa do tabaco), deixando um legado. Ah, como ela faz falta!

Mudei para a capital, mas as lembranças nunca me abandonaram: o cheiro do café coado na hora, o som das velhas tagarelas, o miado estridente do gato no muro da casa dividindo espaço com as cebolinhas viçosas, plantadas na lata de gordura, o som de passarinhos e as crianças na rua.

Era tão pacato, gostoso e humano. Como a minha avó, tenho muitas amigas. O problema é a falta de tempo e disposição. Elas moram cada uma mora em um canto, temos uma vida cansativa e é uma raridade nos encontrar. Sabe aquele momento apenas para jogar conversa fora? Não.

Talvez, dispender de tempo seja coisa das nossas avós, porque somos mulheres modernas, independentes e "conectadas". Só que no afã de conquistar o mundo, nos perdemos umas das outras. Mas nada substituiu um abraço de três minutos, concorda?

Que gostoso ficar ali, parada, conversando trivialidades, como se não tivesse filho para cuidar, marido para agradar, chefe para entregar relatório de produtividade e contas a pagar. Sem cronometrar tempo ou seguir o manual de alta performance e boas maneiras. “Meninas, fechem as pernas e sentem direito!”.

Todas falam ao mesmo tempo e é quase uma catarse. São tantas angústias parecidas que de repente alguém solta uma gargalhada. Parecemos meio doidas, sim, que delícia! Aliás, homens, não tentem entender essa coisa de conversar ‘por conversar’, porque é coisa de mulher.

Faz umas semanas que venho pensando, com nostalgia, sobre as lembranças da minha infância. Observe que nem tudo que é antigo é ruim. Amizades como as da vó Edwiges ainda me inspiram, mas elas são uma raridade. Pouca gente quer ‘perder tempo’ com amigos e muito menos ‘não fazer nada’.

Que pena, pois essa mudança no estilo de vida poderia evitar o uso prolongado de muitos remédios, entre eles, antidepressivos e calmante. Porque praticar exercícios, se alimentar bem, ter espiritualidade e nutrir bons relacionamentos integra um pacote da medicina preventiva que oferece mais tempo de vida e com qualidade. Mas estamos tão adaptados a comprar tudo em farmácias e supermercados, que não queremos mais cativar e manter pessoas. Dá mais trabalho.

Ontem (20) foi o dia do amigo e internacional da amizade, uma manhã um pouco gelada em São José dos Quatro Marcos. No meu cenário bucólico da infância, fiquei parada, em silêncio, pensando na diferença que os amigos fizeram na minha vida. Chegar até aqui e ser quem sou também teve o ‘dedo’ deles. (obrigada!)

Você pode estar pensando que isso tudo é um monte de besteiras. Vamos ao lado científico. Um estudo realizado, desde 1937, pela Universidade Harvard (EUA) chegou à conclusão que o fator que mais influi no nível de saúde das pessoas não é a riqueza, a genética, a rotina nem a alimentação. São os amigos.

Revista Superinteressante, de novembro de 2018: “A única coisa que realmente importa é a sua aptidão social – as suas relações com outras pessoas”, diz o psiquiatra George Valliant, coordenador do estudo há 30 anos. Ele frisa que os amigos são o principal indicador de bem-estar na vida de alguém, mais que a própria família.

Quero, antes, convidá-lo a pensar sobre todas as oportunidades de amizade verdadeira que perdeu ou está perdendo. Gente de primeira qualidade que traria mais amor e bagunça ao seu dia; e um sentido mais humano à existência. Essa gente (meio chata) é o melhor patrimônio acumulado, não exige firma em cartório, aliança de ouro ou festa pomposa

Laços fortes de amizade podem prolongar a vida em até 10 anos. Quando se tem 70 anos, este é um fator decisivo para alcançar com facilidade os 80. Pesquisadores da Universidade Duke, Carolina do Norte (EUA), foram além, concluíram que pessoas com menos de quatro amigos têm risco dobrado de doenças cardíacas.

É que a adrenalina, responsável pelo estresse, fica muito mais alta na corrente sanguínea que a ocitocina, hormônio que estimula as interações entre as pessoas, oferece relaxamento e felicidade. Não quero convencer você a sair por aí e ficar amigo ou amiga do primeiro que aparecer. Não!

Quero, antes, convidá-lo a pensar sobre todas as oportunidades de amizade verdadeira que perdeu ou está perdendo. Gente de primeira qualidade que traria mais amor e bagunça ao seu dia; e um sentido mais humano à existência. Essa gente (meio chata)  é o melhor patrimônio acumulado, não exige firma em cartório, aliança de ouro ou festa pomposa.

Um amigo do peito não precisa carregar seu nome, nem você o dele. Porque ser amigo é de coração pra coração, um pacto de alma. ‘Sim, eu aceito’ e a mágica acontece. A cada nova fase, um novo sim e a gente segue firme para todos sempre. Rindo, chorando e contando piadas. Feliz aquele que diz, ‘tenho amigos’. (Amém)

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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