Rose Domingues

Nada será como antes

Por 17/05/2020, 08h:49 - Atualizado: 17/05/2020, 08h:50

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

"Eu já estou com o pé nessa estrada, qualquer dia a gente se vê. Sei que nada será como antes, amanhã. Que notícias me dão dos amigos? Que notícias me dão de você?". Ao som de Milton Nascimento, meu 57º dia de quarentena é melancólico neste domingo com temperatura de 19º C na capital de Mato Grosso, Cuiabá.

Uma coisa é certa, já não somos os mesmos de antes da pandemia. Nunca imaginei sentir constrangimento quando alguém insistisse em apertar minha mão, ficar preocupada com um abraço e beijo no rosto. Participar de reuniões por vídeo conferência, trabalhar em casa. Imagine ter que usar uma máscara! Ou ficar com raiva de quem não usa! 

Não consigo mais me ver caminhando calmamente no shopping, procurando uma promoção de “blusinha”, nem em uma aula lotada de abdominal na academia, muito menos em meio àquela balbúrdia das aulas de natação, seja na piscina lotada, seja no banheiro, onde crianças e adultos dividiam chuveiros pós treino.

Portanto, o primeiro impacto do coronavírus ocorre nas interações sociais e na ocupação física dos espaços. Talvez por muito tempo a gente não queira que alguém “nos toque” ou evitará participar de aglomerações como churrasco ou samba. Ficar em casa, apenas com a família, tornou-se quiçá um no novo estilo de vida. Isso inegavelmente continuará impactando a economia.

Então, as empresas terão de adaptar para atender clientes em um novo cenário. É inegável que o comércio digital ganhou e ganhará mais força; e o CNPJ que não aderir ao e-commerce, com ferramentas de delivery e WhatsApp, estará fadado a morrer a curto e médio prazo.

O ensino online a mesma coisa, deve se expandir. Porém, na minha avaliação, o maior aprendizado de todos nesse momento é para os pais, que sem dúvida se depararam com a dificuldade extrema que é manter a rotina de estudos dos filhos em casa e agora sabem a importância de ter professores e cuidadores presencialmente. Valorizem!

Uma coisa é certa, já não somos os mesmos de antes da pandemia. Nunca imaginei sentir constrangimento quando alguém insistisse em apertar minha mão, ficar preocupada com um abraço e beijo no rosto

A parte mais complexa no "pós pandemia", para mim, diz respeito à revisão de valores de mundo. Não sou otimista ao ponto de achar que "seremos outros", porém é inegável que a situação atual tem favorecido questões sensíveis sobre o próprio lugar do indivíduo na sociedade, assim como sua relação com a natureza e o sistema de produção.

O ser humano realmente precisa se repensar. Porque não somos onipotentes e isso, na sociedade capitalista em que vivemos, passa pela lógica do “querer, ter, ocupar postos de prestígio e comando”. Observe que há três elementos cruciais de revisão: o que somos como seres humanos e como pessoas no mundo; se vale a pena apenas ter coisas para acumular e se vale ter uma vida corrida.

Claro que não dá para ser idealista diante de boletos que não param de chegar, mas até que ponto irei "me escravizar" para ter coisas? Que vazio estou preenchendo com viagens, sapatos, roupas, joias, passeios, carro da moda e cirurgias plásticas? O cerne é descobrir que posso ser feliz com infinitamente menos ou quase nada.

Libertos da ganância acumuladora, surgem novas reflexões acerca da sociedade onde estamos inseridos, pois o que sobra na nossa mesa, falta na mesa de milhares de brasileiros. A crise da saúde tornou evidente que há cidadãos bastante vulneráveis, que não têm um teto onde se abrigar, nem água e sabão para lavar as mãos. Imunidade? Não tem como falar em “saúde atlética”, senhor presidente, sem nenhuma alimentação!

Aliás, nunca se falou tanto em diferenças de classe. Em longo prazo, isso pode ajudar a promover mudanças estruturais que gerem o desenvolvimento do país. Acho que compreendemos que não estamos todos no mesmo barco, daí a necessidade da renda básica universal e da distribuição de riqueza hoje concentrada na mão de meia dúzia de grandes empresários gananciosos! 

Ah, mas os seres rudes e sem escrúpulos continuam faturando e se beneficiando em meio à pandemia. Mesmo para eles, não será como antes, é uma questão de tempo. Suas entranhas foram expostas e poderemos construir um novo caminho alternativo, pelo menos é o que desejo ardentemente.

“Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes” (Coríntios 15, 33) Seja nas urnas, seja como consumidora, estarei infinitamente mais exigente, vou escolher a dedo a quem entregarei minha vida e minha riqueza. E você? 

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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Comentários (1)

  • Cuiabano Cansado | Domingo, 17 de Maio de 2020, 09h07
    0
    0

    Muito boa a reflexai! Parabéns!

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