Rose Domingues

Crise, oportunidade ou morte?

Por 12/04/2020, 08h:40 - Atualizado: 12/04/2020, 08h:49

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Uma pandemia mundial envolvendo 181 países e territórios, com mais de 1,7 milhão de infectados pelo novo coronavírus (Covid-19) e 107 mil mortos em quatro meses. Além de implodir o sistema de saúde, a doença vai colapsar a economia: 195 milhões de empregos deixarão de existir ou 38% da força de trabalho global. Ninguém suspeitava que o apocalipse do apóstolo João, último livro da Bíblia, tinha data: 2020.

A  semana foi caótica totalizando mais de 500 mil infectados e 108 mil mortos, grande parte em Nova Iorque, onde já não há mais vagas em cemitérios e por isso são feitos enterros coletivos em meio à pandemia. Cenas fortes, a super potência ajoelhada diante um vírus 

Inspirado na violência patrocinada pelo Império Romano à comunidade judaico-cristã, João redigiu um conjunto de textos onde faz uma leitura econômica, política e social do conflito, anunciando que o fim daqueles dias significaria a vitória dos que sofriam; e do bem sobre o mal. Há no texto personagens assustadores, como quatro cavaleiros espalhando fome, guerras e pestes, sendo um deles “a Morte”.

Realmente, a personagem apocalíptica está muito presente nos noticiários. Mesmo se achando invencível à “gripezinha”, os Estados Unidos se tornaram o epicentro da doença. A  semana foi caótica totalizando mais de 500 mil infectados e 108 mil mortos, grande parte em Nova Iorque, onde já não há mais vagas em cemitérios e por isso são feitos enterros coletivos em meio à pandemia. Cenas fortes, a super potência ajoelhada diante um vírus. 

No Brasil, o número de casos mais que dobrou em uma semana de 10 mil para 21 mil; com 1.124 mortes (até ontem). Mas há que se considerar a subnotificação estratosférica nos estados por falta de testagem disponível para toda a população. Caminhamos para o mesmo destino dos EUA, talvez pior: a besta de sete cabeças e dez chifres saiu do evangelho de João e vem promovendo discórdia e desinformação entre nós.

Resultado: o isolamento social, que é uma das principais ações de contenção da doença (conforme a Organização Mundial de Saúde – OMS), caiu em todo país e atualmente é inferior a 50%, quando deveria ser nesta fase da pandemia de 70%. Berram os que têm bucho cheio "fome mata mais". Mas alguns países mais bem-sucedidos no combate ao Covi-19, como Portugal, determinaram “lockdown” antes da curva de casos, obrigando todos a ficar em casa. 

“Não vamos nos pautar por fakes e projeções estratosféricas”. Ungida com o santo manto  federal, o governo de Mato Grosso também mudou o discurso e afrouxou o isolamento em um momento sensível. De 69% das pessoas em casa até meados de março, caímos para menos de 43% no início de abril. Menos que isso hoje, basta observar as ruas com aglomerações, festas e até churrascos. Ninguém mais acredita ou se importa. 

Não vamos nos pautar por fakes e projeções estratosféricas

Infelizmente, o conflito não é apenas entre precisar ou não trabalhar para pagar as contas – entre comércio e prefeituras; presenciamos de olhos estatelados uma verdadeira guerra entre ignorância, egoísmo e fanatismo com a ciência e a própria vida humana, capital de valor não tangível até onde eu sei. A não ser que já existam homens, à exemplo de Jesus, capazes de ressuscitar dos mortos. Há?

A palavra crise tem várias definições, pode estar ligada a uma alteração, instabilidade, desequilíbrio, incerteza, declínio, recessão, estagnação ou paralisação. Também um conflito, confusão, comoção ou uma situação difícil de resolver, uma emergência ou provação, que promova escassez, carência, ausência e deficiência. Então, para milhões de brasileiros, a crise é parte do cotidiano.

Quando eu vi algumas mensagens “copiadas e coladas” se proliferando nas redes sociais com uma reflexão sobre “não estarmos no mesmo barco” pensei no exemplo do Titanic. É o mesmo navio, sim, porém, com pessoas em diferentes “classes”. Como não temos botes e coletes salva-vidas suficientes, muitos morrerão. Os passageiros da primeira classe, claro, têm acesso mais rápido à saída e aos botes e coletes salva-vidas. Nós, a massa, teremos de brigar por um bote ou aprender a nadar. Agora, observe bem, já existem corpos boiando à deriva. Quem são eles?

Fruto  do nosso sistema econômico elitista que favorece o aumento da concentração de renda (1% dos mais ricos detém mais de 30% da riqueza do país) e também produz um batalhão de miseráveis, isso muito antes do coronavírus aportar aqui. No final de 2019, a pobreza atingiu níveis alarmantes: mais 13 milhões de pessoas estavam vivendo com menos de 145 reais por mês!

Gente em favelas, pelas ruas, sem acesso a água tratada, alimento e mergulhada no esgoto – como ironizou desnecessariamente o presidente. Gente completamente invisível para o sistema. Nesse cenário, o colapso que se avizinha é maior e pior que o econômico ou superior à dor da perda de vidas, afinal, "vai morrer quem tiver de morrer". A pior crise é "de identidade", pois milhões de brasileiros que até então tinham botes foram jogados ao mar. 

“Não dê o peixe, ensine a pescar”. Seria cômico, se não fosse trágico ver muitos daqueles que julgavam as políticas sociais, hoje precisarem da ajuda do governo para “não morrer de fome” e baixando o aplicativo do seu IPhone (como diz um memê). Mas o bolsa família transferia R$ 41; e cada família poderia acumular até 5 benefícios por mês, chegando a R$ 205. Valor 600% inferior aos R$ 1,2 mil por família que o auxílio emergencial pagará.

Também já temos leis aprovadas evitando cortes de luz, água, suspensão de prazos de pagamentos e juros e diminuição em valores de serviços. Claro que é uma vitória da classe trabalhadora. Além disso, é temporário, por três meses. Porém, não deixa de ser uma oportunidade para repensar nossas crenças e valores: queremos continuar contribuindo para um sistema que joga diariamente pessoas ao mar? 

“Existem três tipos de pessoas. As de cima, as de baixo e as que caem”. No filme O Poço (da Netflix), é mostrada uma uma experiência de sobrevivência com pessoas acomodadas ao longo de 200 andares. Diariamente "a administração" desce um banquete com alimentos que deveria saciar a fome de todos, mas que não chega ao 50º andar. Sob o efeito o estresse da fome e das injustiças, o mais nobre homem sucumbe e pouco a pouco o desumaniza.

Somente uma solidariedade espontânea pode trazer mudanças”. Será que ela vai surgir?

O próprio filme, que é baseado nas questões filosóficas de Dom Quixote, de Miguel Cervantes, vencedor do Nobel da Literatura, aquele mesmo que lutava contra moinhos de vento, evidencia a corrupção e decadência da natureza humana em situações extremas. Mas também traz algumas possibilidades de redenção que nos exigiriam sair do dualismo da vida material para o campo da moral, por meio do desenvolvimento de virtudes e da cooperação universal:

“Somente uma solidariedade espontânea pode trazer mudanças”. Será que ela vai surgir? Eu quero que o mundo volte a ser como antes? Qual a nossa reflexão neste domingo de Páscoa? Jesus realmente ressuscitou e habita em mim e na minha comunidade?

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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