Rose Domingues

Distopia Brasil

Por 24/05/2020, 09h:11 - Atualizado: 24/05/2020, 09h:14

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

No premiado livro O Conto da Aia, a escritora canadense Margaret Atwood narra um lugar imaginário nos Estados Unidos onde a população vive em condições de extrema opressão e medo. Após a ascensão de um regime teocrático (religioso) e totalitário, não circulam mais livros, revistas, jornais e as universidades foram fechadas.

Por causa de uma série de crises, entre elas, a má administração dos recursos financeiros do país, o Congresso Nacional foi derrubado e o novo regime se estabeleceu retirando os direitos dos cidadãos. As mulheres foram as mais prejudicadas, pois se tornaram propriedade do governo e são obrigadas a ficar em casa, além de ter um único propósito que é "servir" e "procriar".

A história mostra um futuro assustadoramente real diante dos fatos que se seguem com a expansão da extrema-direita no mundo. O Brasil confirma esta tendência desde as eleições de 2018, quando o discurso maniqueísta nos dividiu entre “cidadãos de bem/cristãos/trabalhadores” versus “comunistas/corruptos/vagabundos”.

Infelizmente um plano de tomada do poder está em curso, com a única diferença da Venezuela, somos governados pela extrema-direita, mas poderia ser "estrume-que-sai-pela-boca". As cenas dos próximos capítulos devem ser dramáticas, porém, milhares não viverão para saber. Talvez nem eu. Ou você.

Rose Domingues

Nesse um ano e meio de governo, somos bombardeados estrategicamente todos os dias com uma série de conflitos gerados pelo presidente-fantoche de uma elite que desdenha publicamente “7 mil a 10 mil mortos”. Mesmo parecendo possuir um leve retardo mental, ele cumpre bem seu papel que é nos distrair com seu cinismo barato.

A enxurrada de barbaridades mata lentamente a capacidade de nos indignar. Trocamos ações por “notas de repúdio”, “twittes” ou apenas o silêncio. É que estamos amortecidos, prostrados, cansados, deprimidos. Da ficção para realidade: “Vivíamos como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem que se esforçar para fazê-lo”.

Ante o terror de que nos tornaríamos uma “Venezuela”, o Brasil de você-sabe-quem tem hoje a maior proporção de militares no poder que a Venezuela, mais de 2 mil. Recentemente, presenciamos atônitos cenas dignas de novela das 8: três demissões de ministros, dois da saúde, durante o enfrentamento à maior pandemia mundial dos últimos 100 anos.

Na semana em que chegamos a mais de 20 mil mortos de Covid-19, mil por dia (mesmo volume da Itália no auge da pandemia) e 330 mil pessoas confirmadas com a doença, novamente ficamos petrificados com uma piada do coveiro do Alvorada: "Quem é de direita toma cloroquina; quem é de esquerda, tubaína".

Rumo à maior crise de todos os tempos e uma possibilidade real de estar no epicentro da pandemia, qual a notícia da vez? De um lado militares assumindo o "sinistério" da saúde para receitar coquetel de reza, feijão ungido e cloroquina para a "gripezinha".

Do outro, um vídeo de reunião ministerial cujo conteúdo deixa as séries da Netflix no chinelo e a Dercy Gonçalves corada no túmulo! Palavrões são mera distração diante das ideias expostas.

O "sinistro" do meio ambiente, por exemplo, sugere que a atenção da imprensa está voltada para a saúde para “(...) ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. Ele enxerga a pandemia como "oportunidade". (Isso dá ânsia de vômito, né minha filha?)

Já o “imprecionante” "sinistro" da educação, que parece ter saído de um filme de Alfred Hitchcok, escarra sua arrogante ignorância:  “(...) Odeio o termo povos indígenas, odeio esse termo, odeio. Ou povos ciganos. Tem que acabar com esse negócio de povos e privilégios”.

Temos ainda o "sinistro" guru da economia (com seu "pibinho" de 1% mesmo antes da pandemia) que após injetar R$ 1,2 trilhão nos bancos e anunciar que vai ficar sócio de empresas aéreas, declara que não sabe como pagar 600 reais de auxílio emergencial.

“Vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas”. Ele ri, mas ri de você, bocó. Vamos deixar às claras que o socorro do governo ao sistema bancário pagaria renda mínima para 2 bilhões de pessoas; e é 11 vezes maior que o destinado à população mais pobre.

Enquanto isso, o filósofo das massas prega que: “(...) Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia".

Infelizmente um plano de tomada do poder está em curso, com a única diferença da Venezuela, somos governados pela extrema-direita, mas poderia ser "estrume-que-sai-pela-boca". As cenas dos próximos capítulos devem ser dramáticas, porém, milhares não viverão para saber. Talvez nem eu. Ou você.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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Comentários (1)

  • Dos Santos | Domingo, 24 de Maio de 2020, 19h54
    1
    0

    Belo artigo! Concordo em gênero, número e grau. Mas, infelizmente, temos alguns reacionários, doentes mentais que preferem apoiar o DESGOVERNO, fazendo " vista grossa" para todas insanidades cometidas o momento. Nunca na história, a sociedade desse país foi tão insana.

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