Rose Domingues

Eu cuido de você e você cuida de mim

Por 05/04/2020, 08h:44 - Atualizado: 05/04/2020, 08h:49

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Mato Grosso provou que o calor não mata o novo vírus (Covid-19) e sim que o vírus mata pessoas: o primeiro óbito foi registrado, nesta semana, em Lucas do Rio Verde. Curiosamente, cidade-modelo, gigante no agronegócio e a 6ª economia estadual. Isso mostra o caos que pode levar a regiões pobres e sem estrutura médico-hospitalar.

Luiz Nunes tinha 54 anos, era gerente de um supermercado, hipertenso, diabético e tinha retornado de uma viagem ao sul do país, onde pode ter contraído o vírus. Foi internado no dia 29 de março com síndrome respiratória aguda e morreu quatro dias depois, ou seja, muito rapidamente.

Aliás, o quadro avança rápido no estado: 60 casos confirmados, em 11 cidades. No Brasil, superamos 10 mil casos (há subnotificação pela ausência de testes) e 432 mortos. Mundialmente, são mais de 1 milhão de infectados e 53 mil mortos em 181 países e territórios. A taxa de letalidade é maior em países que negligenciaram medidas de isolamento social, como Itália e Espanha.

Estudos do Imperial College de Londres apontam para dois cenários e por isso as próximas semanas (pico na curva de contágio no Brasil) serão decisivas: no primeiro deles, com medidas restritivas drásticas, chegaríamos a 44 mil mortes. E sem esse rigor, 1,1 milhão de mortos, algo próximo a 30% da população de Mato Grosso.

No caminho mais dramático, teríamos quase duas cidades de Cuiabá em óbitos ou a soma da população das quatro maiores cidades: Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis e Sinop. Você tem noção da catástrofe social, econômica e familiar? Quantos órfãos no ‘pós-coronavírus’? Quantos pais e mães de família, donos de empresa ou de trabalhadores mortos?

Este também não é um bom momento para achismos, debates e manifestações do “capitão corona”. Quem quer jejuar, jejua; quem quer orar, que ore, quem quer discordar, que discorde! Ainda somos um estado democrático de direito, mas faça da sua casa, seguindo a orientação do governo estadual e da prefeitura, seja obediente!

Rose Domingues

Venho reforçando há quase um mês – quando me choquei com a situação na Itália - que “não é apenas uma gripezinha” como insistem algumas pessoas, inclusive o próprio presidente da República, que tem feito uma condução inadequada e destrambelha da crise e do próprio governo, colocando em risco muitas vidas, principalmente entre pessoas mais vulneráveis e que não têm acesso à moradia digna, água tratada e alimentação.

Sei que tudo isso parece um grande pesadelo, mas teimar com a realidade é muito pior. As grandes economias, como os Estados Unidos e a Inglaterra, já mudaram suas estratégias e reconheceram que no campo da saúde pública há somente uma forma de conter o aumento da contaminação e as mortes: restringir a circulação e o aglomerado de pessoas.

Funciona mais ou menos assim: caso você continue circulando normalmente sem nenhum cuidado, após quatro semanas poderá ter se infectado (mesmo sem sintomas) e repassado o novo vírus a mais de 400 pessoas. Cerca de 4% daqueles com quem “teve contato” - ou 16 pessoas - podem vir a desenvolver um quadro mais grave da doença e morrer. Quando eu li essa explicação da Secretaria de Saúde percebi o quanto as minhas escolhas pessoais eram sérias neste momento.

“Eu cuido de você e você cuida de mim”. O novo slogan da campanha do governo é assertivo, resgata valores e gestos simples para nos proteger, entre eles, o uso de máscaras (que será obrigatório a partir do dia 13 de abril), lavar as mãos frequentemente, higienizar e esterilizar objetos, evitar tocar olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas (que difícil!), cobrir boca e nariz ao tossir e ainda manter distanciamento social, etc.

Como não há vacina e sabemos muito pouco sobre a doença, inclusive o grupo de risco vem se modificando porque tivemos a morte de um rapaz de 23 anos no Rio Grande do Norte esta semana. Tudo isso mostra que cada um precisa fazer a sua parte para colaborar com o bem coletivo e ser obediente às regras. Não cabe agora a cultura do “vamos dar um jeitinho”.

“Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa.

Rose Domingues

Este também não é um bom momento para achismos, debates e manifestações do “capitão corona”. Quem quer jejuar, jejua; quem quer orar, que ore, quem quer discordar, que discorde! Ainda somos um estado democrático de direito, mas faça da sua casa, seguindo a orientação do governo estadual e da prefeitura, seja obediente!

O novo vírus entra no nosso corpo a partir de gotículas de saliva que são expelidas de pessoas contaminadas (mesmo assintomáticas) em espirros, acessos de tosse, contato próximo e superfícies contaminadas; pode sobreviver por algumas horas em suspensão no ar ou até dias em certas superfícies, o que torna impossível a prevenção sem uma conduta muito consciente de todos.

Penso que o milagre da cura surgirá quando emergirmos desta atmosfera de medo, raiva, egoísmo e sofrimento para olharmos para a luz: somos parte do problema e também da solução, que necessariamente passará pela construção de uma grande fraternidade global. As palavras do Papa Francisco recentemente causaram grande comoção pela lucidez e pelo chamado imperioso aos trabalhadores de última hora (eu chorei):

“Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face às guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. (...) O Senhor nos chama a viver este tempo de provação como um tempo de decisão: escolher o que conta e o que passa, de separar aquilo que é necessário daquilo que não é”.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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