Rose Domingues

Favor não dormir ao volante!

Por 20/10/2019, 06h:41 - Atualizado: 20/10/2019, 07h:47

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

 

Passava da meia noite, Giovana precisava ir embora. O antialérgico a havia deixado um pouco sonolenta, nada fora do normal. Sempre dirigiu à noite, estava acostumada. Naquele sábado estava chuviscando, entrou no carro, despediu-se dos amigos e pegou a direção de casa. Mas em um dado momento, ela perdeu o controle, subiu na calçada e bateu em uma placa de trânsito, derrubando-a.

Não perguntem como isso aconteceu. Ela narra que a sensação era de se ver fora do corpo ou de estar sonâmbula: bateu na placa, fez meia volta, continuou dirigindo, estacionou na vaga, entrou em casa, caiu na cama, respondeu a uma mensagem, depois apagou se sentindo estranha. Era como estar em um sonho.

Acordou no domingo, às 7h20, com a ligação do síndico irritado dizendo que ela havia causado dano ao patrimônio, mas poderia ter atropelado uma criança! Ele achava que se tratava de um caso de embriaguez, ameaçou processá-la. Mas, independente do motivo, ela se sentiu muito constrangida, pois havia colocado a própria vida e de outras pessoas em risco.

“Eu pago pelo prejuízo e peço desculpas pelo transtorno”. O sermão continuou, ela ouviu calada, porque achou que estava errada. Gioavana teve um domingo infernal, pela alergia que não a deixava respirar, e também pela dor de consciência. Como pode ser tão irresponsável? Por que não pediu para alguém levá-la ou pegou um Uber? Como pode ter dormido ao volante?

Ao analisar as estatísticas, vamos observar que mais de 40% dos acidentes de trânsito estão relacionados à sonolência. Essa é ainda uma das principais causas de mortes nas rodovias, segundo dados são da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet). A falta de descanso compromete a direção em nível semelhante ao provocado pela ingestão de bebida alcoólica.

Em média, 60% dos acidentes de trânsito no país acontecem por causa de sono e cansaço. Embora o grande vilão seja o álcool, ninguém pensa ‘não vou dirigir de volta para casa porque estou cansado’. Ou vou arrumar uma carona ‘porque tomei um antialérgico’. Normalmente fazemos tudo no piloto automático. Mas não deveríamos.

Giovana é um nome fictício de um personagem real. Ela pagou a multa que lhe custou R$ 200 para restaurar e reinstalar a placa no condomínio onde mora, algo que não pagaria se fosse uma via pública de Cuiabá, porque segundo a Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) e a Procuradoria Geral não existe uma lei específica que obrigue esse ressarcimento ainda. 

Apesar da despesa extra com o condomínio e o veículo que ficou danificado, ela avalia que ter sido acionada rapidamente foi importante para que se responsabilizasse pelo acidente, o que é muito justo, e também refletisse sobre a sua conduta no trânsito, sobre a postura como cidadã. Afinal, o veículo naquele momento havia se transformado em uma arma que poderia ter custado a vida de alguém.

Fazendo uma pesquisa rápida, descobri que acidentes de trânsito envolvendo danos ao patrimônio das concessionárias de energia e das prefeituras é comum; grande parte deles infelizmente por embriaguez ao volante! No Estado do Piauí, por exemplo, foram contabilizadas 1.517 ocorrências de postes derrubados durante acidentes de trânsito em 2018, uma média de 5,9 postes por dia.

No Tocantins, o saldo foi um pouco menor, mas não deixa de ser significativo: 436 postes atingidos por motoristas no ano passado, mais de um poste diariamente. No caso dos postes e cabos elétricos, os riscos e prejuízos são maiores, porque se tratam do fornecimento de energia à população, um custo que inevitavelmente acaba encarecendo ainda mais a conta do cidadão.

Nesta semana, tivemos um acidente envolvendo uma professora no bairro CPA 3, na Capital, a mulher bateu o carro contra um poste e conforme relato dos policiais aparentava estar sob o efeito de bebida alcoólica. Uma curiosidade, ela vai pagar essa conta ou o prejuízo será dividido entre todos nós, usuários? 

Fiz contato com a concessionária de energia que não me retornou quanto ao prejuízo relacionado a este tema em Mato Grosso, uma pena, seria importante compartilhar isso com vocês. Precisamos de mudanças nesse sentido. Hoje, diversos municípios brasileiros já têm projetos de lei que determinam a restituição ao erário por danos gerados ao patrimônio público e ao meio ambiente decorrente de acidentes de trânsito. Em Mato Grosso, encontrei uma proposta do ano de 2013, de Barra do Garças. Há projetos assim em Goiania (GO), Santos (SP), Curitiba e Cascavel (PR).

40% dos acidentes de trânsito estão relacionados à sonolência, que é uma das principais causas de mortes em rodovias

Pesar no bolso é importante sim. Porque a responsabilização financeira é uma das formas de frear a conduta irresponsável ou desatenta dos motoristas. Talvez até criminosa. Agora, que preço tem uma vida? Amigos, nenhum dinheiro paga a ausência de um pai ou uma mãe de família, mortos precocemente.

Além das 34.236 mortes envolvendo colisões e atropelamentos no ano de 2017, o Ministério da Saúde informou que mais de 600 mil pessoas ficam com sequelas permanentes todos os anos em decorrência de acidentes de trânsito. Quem paga essa conta da saúde? Quem se importa com esta guerra no trânsito?

Da minha parte, penso que seguir a legislação de trânsito e ser um bom cidadão quando está ao volante envolve decisões diárias muito sérias. É decidir entre viver ou morrer, entre matar ou não e conviver com a morte de um inocente. Então, quando estiver com sono, fizer uso de bebida alcoólica ou mesmo remédios mais fortes (como antialérgico), não dirija! Não faça como Giovana e se arrependa no dia seguinte. Talvez seja tarde demais.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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