ROSE DOMINGUES

Feminismo e a conquista de direitos da mulher

Por 02/02/2020, 09h:50 - Atualizado: 03/02/2020, 07h:08

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Grávida aos 21 anos, envergonhei e desonrei a família que encontrou no casamento a única forma de contornar a situação. Ouvi da minha avó que não poderia usar mais véu e grinalda por não ser ‘pura’; e da avó do marido que tinha dado o ‘golpe da barriga’. Independente das opiniões, casei porque estava apaixonada. Descasei, mesmo sob protestos e palavrões, por deixar de gostar.

Tenho 41 anos, há 19 anos sou jornalista e o meu filho Pedro acabou de fazer 20 anos. Conciliar maternidade e vida profissional tão jovem tornou tudo mais difícil e nunca encontrei alguém, mesmo em um ambiente cheio de mulheres, para passar a mão na minha cabeça. Muito pelo contrário, precisava provar que era boa o tempo todo. Até hoje é assim (e está tudo bem).

Como mulher, preciso mostrar serviço, não demonstrar emoções, chorar então está fora de cogitação! E jamais posso dizer que preciso ir embora para buscar os filhos na escola, mesmo durante uma reunião idiota que se estendeu no meu horário de almoço. O telefone toca desesperadamente, respiro fundo para controlar a ansiedade, enquanto as pessoas que mais amo estão me aguardando. Ainda dói lembrar.

“Mamãe, onde você está? Estamos com fome”. A pressão para uma mulher e mãe trabalhadora é gigante, o tratamento no mercado de trabalho é desigual, a ascensão aos cargos de comando e com melhores salários é injusta (no serviço público ou privado). Cansei de ver homens despreparados como chefes. “Ah, mas ele faz um trabalho político ou as fontes dele são ótimas”. Não, ele é um imbecil, mas tem pênis.

Se você, mulher, sente-se indignada ou pelo menos incomodada com situações que vivencia no cotidiano, então, tenho que lhe revelar algo estarrecedor: você é feminista. Descobri outro dia, através da Julia, minha filha de 17 anos, que em grande parte do tempo sou feminista: busco igualdade de direitos e oportunidades. Quero sim ganhar tão bem quanto eles sem que digam que usei a minha vagina para isso! Quero ser ouvida, respeitada e amada por quem sou e não pelo meu corpo!

"Basicamente, falar em feminismo é torcer o nariz para muitas distorções que vivemos diariamente e que nem sempre nos damos conta, até porque estamos ocupadas nas nossas jornadas duplas e triplas"

Por outro lado, mesmo sendo independente, escolarizada e aberta a novos conhecimentos, tenho um lado bem machista e conservador em diversas situações. Outro dia fiquei ruborizada quando uma colega contou em uma conversa informal que faz sexo com quem quer livremente e que gosta de experimentar coisas novas. “Você não se sente mal no outro dia?”. Sim, eu julguei a moça.

“Eu dirijo igual homem”. Soltei essa frase enquanto levava as crianças à escola e qual não foi a reação do Pedro: “Que frase machista, mãe”. Ele foi me explicar que o que faz uma pessoa dirigir bem não é ser homem ou mulher e que eu precisava cuidar melhor das palavras. Aliás, os filhos me confrontam o tempo todo: “Mãe, um homem pode ser feminista?”, disparou Julia recentemente.

Passei dias pensando se um homem poderia, depois concluí que não, que esta era uma questão estritamente feminina. Mas a minha filha é ligeira, já havia pesquisado e me encostou na parede: “O feminismo é um movimento que busca a igualdade de direitos e oportunidades às mulheres, portanto, homens e mulheres podem ser feministas, pois é uma luta em prol de uma sociedade mais justa”. Calei a boca e aprendi.

Se por um lado queremos igualdade (e isso não tem a ver com ódio), por outro, também somos grandes perpetuadoras da cultura machista (observem-se, meninas!). A historiadora e escritora Mary Del Priore afirma em uma entrevista que “as mulheres brasileiras do último século conquistaram o direito de votar, tomar anticoncepcionais, usar biquíni e a independência profissional. Mas ainda hoje são vítimas de seu próprio machismo, porque ‘não conseguem se ver fora da órbita do homem’ e são dependentes da aprovação e do desejo masculino”.

Aliás, ela enfatiza que o machismo no Brasil se deve muito às mulheres - e eu preciso concordar. Somos nós as transmissoras dos piores preconceitos quando entregamos preservativo e revistas masculinas aos meninos para que desenvolvam a sexualidade, mas condicionamos as meninas ao término dos estudos e ao casamento. Pior, ainda ensinamos a elas que só se realizarão sendo esposas e mães.

Foi com surpresa que descobri: o historiador Leandro Karnal propõe que ser feminista é uma condição obrigatória para homens e mulheres, indispensável à dignidade humana. Ele chama a atenção para a importância da educação feminista para crianças: “Eu tenho que dizer às meninas, em particular, que o casamento não é um destino, ela pode casar e ser feliz, ela pode não casar e ser feliz, ela pode casar e descasar várias vezes, tenho que transmitir a ideia de que até casando ela pode ser feliz”.

Ele faz um apelo para a essência que deve permear a vida de homens e mulheres centrada na busca da plenitude e felicidade. Em seu artigo 5º, a Constituição Federal diz que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, e que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”. No entanto, na prática ganhamos em média 20% a menos que eles; em algumas profissões 50%, acumulamos serviço doméstico e cuidado com os filhos.

Basicamente, falar em feminismo é torcer o nariz para muitas distorções que vivemos diariamente e que nem sempre nos damos conta, até porque estamos ocupadas nas nossas jornadas duplas e triplas. Ou adoecemos por não sermos compreendidas em nossas singularidades, porque biologicamente funcionamos diferente dos homens e somos obrigadas a suportar uma pressão muito grande no mundo masculino do trabalho. Justamente por tudo isso, falar e debater feminismo é algo enriquecedor.

O movimento político e cultural feminista surgiu no século 19, na França e nos Estados Unidos, porém até nos tempos atuais é rechaçado injustamente por pura ignorância e medo. Mas vale ressaltar que ao longo da história da humanidade, sempre houve mulheres à frente do seu tempo que reivindicaram ser reconhecidas. Na idade média, muitas delas foram queimadas como bruxas. E ainda hoje são, por usar uma saia mais curta e batom vermelho.

Em uma visão simplista, você acha que a mulher é pior do que o homem em quase tudo que faz: matemática, esportes, soldar objetos, pregar um prego, dirigir, pilotar avião, ser chefe? Você acredita que não possa fazer tão bem quanto um homem aquilo que se propõe? Acha que merece ganhar menos ainda que faça o mesmo trabalho? Acha que mulher tem que apanhar para respeitar o marido? Se as respostas forem “não”, parabéns, demos início a um ótimo diálogo!

Com a proposta de estender esse assunto, estão todos convidados para a minha palestra sobre o tema “Feminismo e a conquista de direitos da mulher” no dia 08 de fevereiro, às 18h, na Rua Carandá nº 25, bairro Santa Rosa, em Cuiabá. Entrada livre, inclusive para debater, concordar e discordar. Avante e em frente!

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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