Rose Domingues

Filhos sem manual de instruções

Por 01/12/2019, 07h:46 - Atualizado: 01/12/2019, 07h:55

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Depois de duas horas no hospital, as dores se aproximam cada vez mais. A barriga dói, o quadril se espreme, já não há mais nada no estômago. Inquietação, nervosismo e medo se misturam. São 3 horas da madrugada, a cabecinha aponta, mas não passa, e como dói!

Impossível esquecer aqueles primeiros minutos. O choro, os olhos escuros e arregalados. Os gritos da família em festa na porta da sala de parto. "Que menino lindo!" Acredito, sim, em amor à primeira vista: Pedro nasceu com 3,8 kg, 54 centímetros, saudável, forte e tranquilo

A enfermeira doce e com uma tranquilidade irritante me pedia para pensar em algo bom, um momento feliz talvez. Mas nada de bom passava pela minha mente, apenas a linguagem corporal falava mais alto: o suor escorria pela face encharcando os cabelos e impregnando a roupa de um cheiro forte. Um gemido final e ele nasceu.

Impossível esquecer aqueles primeiros minutos. O choro, os olhos escuros e arregalados. Os gritos da família em festa na porta da sala de parto. "Que menino lindo!" Acredito, sim, em amor à primeira vista: Pedro nasceu com 3,8 kg, 54 centímetros, saudável, forte e tranquilo.

Na primeira semana, tinha um medo terrível de perdê-lo, então, a cada 10 minutos checava sua respiração. Desde aqueles primeiros momentos, já se passaram quase 20 anos. Período em que estou aprendendo o verdadeiro significado da palavra amor, que não tem nada a ver com pôneis alados descendo no jardim encantado da Moranguinho.

A maternidade real é cheia de dúvidas, medos, mais erros que acertos, às vezes bate desespero, como agora, o Pedro há dois anos está parado em casa sem saber o que quer da vida. Dia após dia, ele me diz: “Qual o meu propósito? Não vejo sentido”. Se eu insisto em algo, ele desiste rápido. Se pressiono, se irrita comigo.

Já foi à psicóloga e tem aptidão para no mínimo 20 profissões (20!). “Mas acho desnecessário ter uma faculdade”. Sei que a maioria das pessoas não acredita em signo, mas, confesso que me ajuda a dar alguma explicação a esse temperamento tão “fora da casa”, ele é aquariano com perfil psicológico 90% águia, ou seja, voa muito alto.

Estou em uma nova fase totalmente desafiadora: como lidar com um filho jovem?

Estou em uma nova fase totalmente desafiadora: como lidar com um filho jovem? Vamos voltar no tempo. Na madrugada de uma sexta-feira do mês de janeiro (28), as contrações do meu útero expeliram o Pedro de dentro de mim para a vida real. Mas era tão frágil que cuidei, amamentei, levei à escola, tratei de todas as dores, dei banho, alimentei, fiz dormir, ou seja, construímos uma rotina.

Após uma vida inteira dentro de uma segunda bolsa (extrauterina), no aconchego dos meus braços de mãe, chegamos ao ápice de um novo parto: ele precisa se tornar homem. Pedro tem que ganhar o mundo, fazer escolhas, aprender por si mesmo, assumir riscos e responsabilidades. Essa nova fase da maternidade é igualmente difícil, porque é impossível escolher o caminho de outra pessoa.

Por insistência minha, ele começou o curso de direito, “melhor isso que nada”, pensei, porque ele é argumentador e crítico. Só que quatro meses depois quis parar. Resolveu ser corretor imobiliário, iniciou um estágio e também parou.  Fez uma “imersão” autoajuda onde “até caminhou na brasa”, mas retornou em seguida à estaca zero.

Ouço muitos conselhos e penso que se fossem bons eles seriam cobrados. Tem gente que diz para obrigá-lo a fazer qualquer curso e a trabalhar com qualquer coisa. Outros pedem para eu fazer as malas dele e deixar com o pai, que mora em outra cidade. Cortar o dinheiro não resolve (porque ele não gasta). Ele continua sendo um rapaz tranquilo até demais. Não participa de bagunça, não namorou, gosta de ver filmes e jogar no computador. “Que mal há nisso, mãe, me diz?”.

Lava a louça, cuida das plantas, arruma a mesa para o almoço. Meu filho vai vivendo assim, como um dono de casa e isso me dá nos nervos às vezes, por achar que é tempo desperdiçado. Já gritei com ele, querendo que tomasse jeito, mas isso não resolveu. Aliás, todo tipo de violência é ruim. Certa vez ele chorou, encolhido no chão, dizendo que queria me dar orgulho, ser alguém na vida, mas não sabia ainda como. A cena até hoje me corta o coração. Ele já é alguém!

Pedro sempre foi um menino carinhoso, questionador, brigávamos o tempo todo, porque ele puxou a mim, oras, é teimoso e diz tudo que pensa. Certa vez, aos seis anos, após ser chamado a atenção, ele resolveu ir embora de casa. “Não aguento mais você, vou morar com o meu pai”. Subiu, arrumou a mala e desceu rumo à portaria do condomínio.

Liguei para o porteiro e disse: “Se um menininho chegar até aí, por favor, não abra o portão”. Ele saiu pisando duro, com uma mala enorme, no entanto, como morávamos na última rua, desistiu no meio da subida e voltou. “Saiba que isso é temporário, ainda vou embora”. Sorri por dentro, mas fiquei séria por fora, que menino desaforado! (mas eu gosto de gente assim)

Sofro muito com a indecisão dele. Mas tem algumas semanas estou fazendo as pazes com as expectativas de mãe. Porque a gente sonha tanta coisa para os filhos, faz tanto por eles, quando na realidade a coisa mais importante não exige nada além de não julgamento, é concordar com o destino que construírem. Tenho feito o exercício de olhá-lo com muito amor.

Pedro, sempre me lembro de históricas incríveis sobre sua infância, com cinco anos, você quis trocar o nosso cachorro por dois porcos. Argumentou com a tia Cida que seria um bom negócio. Como não amar um moleque desses? Você me faz raiva sim, especialmente porque, ao contrário da Julia, quer ser mais solto, e não aceita uma mãe fiscalizando seus passos. Mas eu sou a mãe louca que liga para amigos e amigas para localizar você. (sou!)

Vou confessar, quando ele chega da rua eu cheiro a boca, verifico a roupa, a mochila, o quarto, este ano encontrei uma bituca de um cigarro de palha no lixo do banheiro e quase infartei

Vou confessar, quando ele chega da rua eu cheiro a boca, verifico a roupa, a mochila, o quarto, este ano encontrei uma bituca de um cigarro de palha no lixo do banheiro e quase infartei. “O que é isso Pedro?”. Tivemos muitos embates por causa de amigos, horário para voltar, bebida alcoólica, mentira e festas. Aliás, a mãe de um jovem sempre tem muitos medos: de ele se envolver com pessoas erradas, usar drogas, participar de situações de violência (como vítima ou algoz) e até morrer. Nesta idade, eles acham que podem tudo, porém são frágeis.

Como podem ver, invariavelmente os filhos crescem, as demandas se tornam maiores e a gente não tem um manual de instrução. Como ser humano único, ele realmente não é “como todo mundo”. Portanto, por mais que as religiões e programas militares ofereçam uma pílula mágica de sucesso na educação de crianças e jovens, ngnuncaostei dessa opção, me parece mais um cabresto.

Prefiro acreditar que o Pedro tem condições internas de passar por este segundo nascimento, se torando um homem adulto e fora do ninho. Cabe a mim, como mãe, a mesma paciência de esperar a gestação chegar ao fim, zelando para que ele siga o caminho sem interferências ruins. Desta vez, a força deve ser feita por ele e é desafiador ficar nesse papel passivo, sem poder fazer nada além de amar infinitamente e torcer para dar tudo certo.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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