Rose Domingues

Jesus gay, negro e favelado ofende sua fé?

Por 15/12/2019, 07h:55 - Atualizado: 22/12/2019, 07h:44

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Quero frisar o meu respeito ao catolicismo, que é o ambiente onde cresci e me tornei quem sou. Nunca me obrigaram a dar meu dinheiro, nem a acreditar em tudo que diziam e, principalmente, não rejeitaram meu jeito de ser: questionadora e argumentativa. As ovelhas do Cristo podiam sim ser um pouco diferentes, como eu era.

Fecho os olhos e me vêm as lembranças das manhãs na missa, estou com um vestido branco de renda, sapatos e meia até a canela, cabelo preso, ah, como eu gostava de me arrumar para meus encontros com Deus

Tenho sentimento profundo de pertencimento à comunidade cristã, que me permitiu ter uma fé forte, inteligente e ativa, sempre buscando promover ações em prol do próximo, como pregava Jesus Cristo. Assim, aos 11 anos - e por conta própria - me inscrevi ao Interact (do Rotary Club), na ânsia de sempre fazer algo mais. 

Tenho uma trajetória rebelde, mas não desgarrada, pois busco aplicar os ensinamentos cristãos bebendo em várias fontes de conhecimento. Talvez se tivesse nascido na Idade Média, a mesma igreja teria me queimado como “bruxa”. Mas o fato é que me construí enquanto mulher convivendo com imagens distintas no mesmo altar, de um lado a Virgem Maria e do outro a guerreira Joana D’Arc.

Fecho os olhos e me vêm as lembranças das manhãs na missa, estou com um vestido branco de renda, sapatos e meia até a canela, cabelo preso, ah, como eu gostava de me arrumar para meus encontros com Deus, um Pai e meu amigo. Enquanto o padre orava em latim, eu divagava apreciando a luz do sol bater nos vitrais com retratos da Paixão de Cristo.

Havia crianças correndo, um bebê chorando, adultos entoando louvores e no Domingo de Ramos, meu preferido, a gente batia as folhas verdes no ar histericamente até cansar, dando graças e aleluia! De repente eu “acordava” no momento preferido: a oração que o Pai nos ensinou, “Pai Nosso que estai nos céus...” e em seguida a Ave Maria.

Tendo feito a primeira comunhão quando menina, apenas na vida adulta entendi a dimensão do ato sagrado de comungar, partilhando da Ceia do Senhor. Nos instantes que antecedem a procissão até o altar para tomar a hóstia sagrada, ouve-se sobre a importância de se reconciliar com os irmãos. Algo que caiu em desuso, infelizmente.   

Falar de Deus me emociona, porque não diz respeito a uma religião específica

A missa da noite na paróquia São José era alegre. Eu torcia para chegarmos atrasados, assim nos sentávamos na capela onde passava parte do tempo tempo admirando as imagens de santos e anjos quase do meu tamanho. Observava cada detalhe, as mãos suaves das santas, o dourado nas vestes, o pai carpinteiro com seu filhinho no colo, as flores, velas e Miguel Arcanjo com a espada.

Como perdi o pai aos 8 anos, questionar a existência de Deus se tornou um hábito. Eu ansiava entender mais sobre o sentido da vida e da morte. Mas foi convivendo por nove anos com um padrasto alcóolatra que me vi testada diariamente na minha fé. Porque é muito fácil acreditar quando tudo transcorre bem e a vida se parece com um conto de fadas.

Falar de Deus me emociona, porque não diz respeito a uma religião específica, é uma força maior e um mistério que nos governa. Então, recorro ao filósofo italiano Pico della Mirandola. Aos 23 anos, ele publicou suas polêmicas 900 teses que combinavam elementos do neoplatonismo, hermetismo e cabalismo, além de lógica, matemática e física. Depois produziu a sua mais conhecida obra: De hominins dignitate or atio (Discurso sobre a Dignidade do Homem), de 1487: “Que a nossa alma seja invadida por uma sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres, mas de anelarmos às mais altas, de nos esforçarmos por atingi-las, com todas as nossas energias, desde o momento em que, querendo-o, isso é possível (...)”. A fé exige, como ele chegou à conclusão, ação disciplinada no bem.

Por isso a mensagem de Jesus sempre me pareceu simples, didática e prática. Observe que Ele não nos pediu para fazer doutorado, falar vários idiomas, viajar o mundo, juntar dinheiro ou escalar o monte Everest. Sua doutrina se baseava na vivência do amor e  no autoconhecimento. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32) 

Aliás, Jesus era uma criança espontânea, criativa, doce e um jovem revolucionário, que com apenas 12 anos – abre parênteses: um pirralho – ensinou os sábios no templo de Jerusalém (Lucas 2: 41-52). Curou leprosos, andou com pobres, defendeu mulher adúltera e nos apresentou o verdadeiro cristão na parábola do bom samaritano:

“E respondendo Jesus, descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.” 

Cristã de carteirinha, me permiti conhecer várias religiões e doutrinas, onde me encantei com a lei da reencarnação e as consequências do mau uso do livre arbítrio (arrefecendo o peso dos pecados). Estudei projeciologia, treinei clarividência e estive por quatro anos em uma escola filosofia.

Percorri a escritura sagrada hindu do século 4 antes de Cristo e me rendi ao Bhagavad Gita de Krishna. Aquele cara azulzinho. E venci preconceitos para saber mais sobre os orixás,  quando o Preto Velho me disse: “Vossuncê tem uma luz que brilha forte, filha de Oxalá”.

Antes de começar esse texto pensei em escrever sobre o Especial de Natal do canal humorístico Porta dos Fundos, mas mudei de ideia após assisti-lo, é cansativo e fraco. Mas há críticas excelentes, como em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, O Crime de Padre Amaro, de Eça de Queiroz, e Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, meus  livros de cabeceira aos 15 anos 

Curiosamente a umbanda e as demais religiões de origem africana são discriminadas pelos cristãos que exigem “respeito” por seu Jesus hetero, caucasiano de olhos azuis e magro. Como diria meu filho de 19 anos: “Nós nem temos provas que Ele existiu!”. Mas Oxalá é Jesus Cristo, meu protetor e guia, que me impele a questionar, afinal, um Jesus gay, negro e favelado ofende a sua fé? Oras, por quê?!

Antes de começar esse texto pensei em escrever sobre o Especial de Natal do canal “humorístico” Porta dos Fundos, mas mudei de ideia após assisti-lo, é cansativo e fraco. Mas há críticas excelentes, como em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, O Crime de Padre Amaro, de Eça de Queiroz, e Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, meus  livros de cabeceira aos 15 anos. 

Claro que guardei o melhor para o final, uma indicação de filme: a sátira inglesa A vida de Brian, de 1979, que garante muitas reflexões e boas risadas sobre essa nossa necessidade insana de encontrar um herói, Deus-salvador que nos livre dos nossos pecados. Não é um ataque à sua fé, acalme-se, é apenas a mãe de Brian dizendo: “ele não é o Messias, ele é um garoto safado”.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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Comentários (2)

  • Professor Marcos Moreno | Segunda-Feira, 16 de Dezembro de 2019, 09h16
    1
    0

    Insanidade absoluta. Busque a Verdade ETERNA, sem ofender ou confundir os Seres humanos da Terra; bem como evite confrontar os Guardiões da Eternidade. LUZ, Paz e Bem na Mente e na Vida.

  • Cristao Indignado | Domingo, 15 de Dezembro de 2019, 11h44
    5
    3

    Então a conclusão que chegamos , se baseado no seu artigo , que a liberdade de opiniões , permitem até a ofensa à fé alheia . A supremacia da liberdade , está primeiramente no cumprimento dos seus deveres ! Respeitar o Brasil , cuja religião majoritariamente cristã , seria um deles . Vai fazer piadinhas do Maomé lá no oriente médio e veja o que acontece .

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