Rose Domingues

Mulher-pombo é aquela que vive de migalhas

Por 23/02/2020, 07h:34 - Atualizado: 23/02/2020, 07h:44

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Deixar para trás pessoas, lugares e situações é um pré-requisito para conseguir alcançar a vida que desejamos. Neste fim de ano refleti muito sobre o porquê atraía relações em que vivia escassez, normalmente, oferecendo muito mais do que eu recebia. Era uma luta constante para ser amada e aceita, mas, em contrapartida, me ofereciam migalhas.

Afinal, como eu me transformei em uma mulher-pombo? Observando mais atentamente esse movimento, percebi que era o mesmo que eu fazia em relação à minha própria mãe; e o mesmo que a minha mãe fazia com a mãe dela. Inclusive, em algumas situações, me coloquei em risco para conseguir chamar a atenção. Na psicologia, dizem que isso tem a ver com a criança interior negligenciada e ferida.

Essas emoções infantis pouco elaboradas, quando ficam guardadas a sete chaves, passam a gerar muitos problemas no nosso dia a dia: no relacionamento com marido/esposa, filhos, equipe de trabalho e amigos, com o dinheiro.  Além disso, reprimir tristeza, raiva, culpa, medo, vergonha, entre outros sentimentos, pode provocar uma infinidade de doenças que diminuem a nossa qualidade de vida.

Decidi trabalhar algumas questões que me causavam um sofrimento grande, mas confesso que é um desafio mexer com a forma como as emoções estão estruturadas. No meu caso, dói tanto que até tenho falta de ar, crises de choro, raiva e/ou insônia. Há uma voz feminina gritando um grito ensurdecedor; e chorando um choro profundo. Por fidelidade, eu choro e grito também.

Nesta semana, vendo o filme “Brittany runs a marathon” me deparei com situações de superação parecidas com as minhas quando ela decidiu mudar de vida. Embora muito persistente e disciplinada, chega um determinado momento em que Brittany descobre que seu verdadeiro problema não é a obesidade e sim as crenças limitantes. Por que ela se cobra tanto? Por que não se dá uma chance?

Aquele sentimento de inferioridade, de que havia nascido para sofrer e que tudo daria errado era muito mais forte. Quantas vezes a gente sente isso e se retrai, deixando de buscar os próprios sonhos. Então, a questão não é treinar pesado para participar da Maratona de Nova York (como ela fez), mas ficar paralisado no trauma mesmo que a vida nos ofereça diariamente novas possibilidades de amar e ser feliz.

Brittany começou correndo uma quadra, toda desajeitada, suada, quase morrendo, para após alguns meses correr quilômetros. Estruturei uma rotina assim para mim, com várias atividades como academia, natação, yoga, piano e um cronograma diário de leitura. Embora fazer coisas me ajude a manter meu estado emocional equilibrado, me dê conforto e satisfação, sei que não vai me curar completamente.  

O mundo aplaude quem sai bem em provas e alcança o sucesso escolar, acadêmico e profissional. Quem acumula coisas, viaja e chega ao topo do Everest. E isso é maravilhoso, claro! Então me explica por que mesmo tendo apenas nota 10 no meu boletim e sendo uma mente brilhante, eu me sentia uma menina tão triste? Tão desconectada das outras pessoas?

É fim de semana de carnaval, todos estão se divertindo, felizes eu não sei, mas estão buscando sensações, buscando amor. Preferi ficar comigo mesma e experimentei chorar copiosamente vendo o filme ‘A vida em si’. Sem culpa, sem achar que eu devia estar com uma roupa de fada e purpurina no rosto. Talvez no ano que vem eu esteja, talvez não.

O filme narra a história de uma família que enfrentou várias mortes. "E embora seja fácil se entregar às tragédias que forjam a nossa vida, e embora seja natural só pensar naqueles momentos execráveis que nos derrubaram, devemos lembrar a nós mesmos que se nos levantarmos, se levarmos a história um pouquinho adiante, encontraremos o amor. Se formos suficientemente longe, encontraremos o amor."

É o tipo de filme que nos faz pensar. Porque a vida é realmente uma narradora não confiável; isso significa que para ser feliz precisamos aceitar a brutal realidade de que não estamos no controle. Mesmo assim, com a nossa disposição e persistência, lá do fundo do poço – ou seja, aconteça o que acontecer - a gente pode conseguir se reerguer e avançar só um pouquinho mais. Estabelecendo pequenas metas, por exemplo.  

Talvez hoje não faça sentido para mim, nem para você, por que tanto sofrimento

Rose Domingues

Por mais que eu fuja de mim fazendo coisas, trabalhando excessivamente, eu sou o meu pai, e também sou o pai do meu pai. Sou a minha mãe, e sou a mãe da minha mãe. Na minha família, por exemplo, há um jardim de mulheres, onde nascem margaridas, lírios, beijinhos, marias e Rosas. E a mesma voz que grita, também abençoa: "(...) você sou eu. Então, agora siga, me dê uma linda vida; a mais linda de todas".

Talvez hoje não faça sentido para mim, nem para você, por que tanto sofrimento, tantas adversidades, afinal, o que a vida espera de nós? Para onde está nos guiando? Uma coisa é certa, ela canta “Make you feel my love” (Para você sentir o meu amor), do Bob Dylan, incessantemente nos nossos ouvidos surdos:

“Quando a chuva está soprando em seu rosto/E o mundo todo está em sua mala/ Eu poderia lhe oferecer um caloroso abraço/ Para fazer você sentir o meu amor/ Quando a noite escurece, e as estrelas aparecem/ Não há ninguém para secar suas lágrimas/ Eu poderia te segurar por um milhão de anos/ Para fazer você sentir meu amor (...)”.

Não importam as perguntas, o amor sempre será a resposta. É bíblico e também filosófico, como em O Profeta, por Khalil Gibran, um dos meus livros preferidos, onde cada verso nos vira do lado avesso:

“Quando o amor vos chamar, segui-o/Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;/E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe/Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;/E quando ele vos falar, acreditai nele, /Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos /Como o vento devasta o jardim. /Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, /Assim ele vos crucifica. /E da mesma forma que contribui para vosso crescimento, /Trabalha para vossa poda. /E da mesma forma que alcança vossa altura/ E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, /Assim também desce até vossas raízes/ E as sacode no seu apego à terra. (...)”

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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