Rose Domingues

No Réveillon, homem tenta matar esposa com facão

Por 29/12/2019, 08h:27 - Atualizado: 29/12/2019, 08h:36

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Ana era a moça mais linda de toda Santa Clara D’Oeste na década de 60. Como o próprio nome diz, ela era "graciosa" ou "cheia de graça". Em hebraico, Hannah, mais tarde do latim Anna. Este é provavelmente um dos nomes femininos mais difundidos no Ocidente, com três personagens bíblicas marcantes.

Onde está Deus nessas horas?

A primeira é a mãe do profeta Samuel, que no Velho Testamento engravidou em idade avançada. A segunda surge no Novo Testamento como a profetisa que reconhece o menino Jesus como Messias. E na Idade Média, o nome era comum em reverência à Santa Ana, considerada mãe da Virgem Maria e padroeira de carpinteiros, bons cavaleiros, rendeiras e avós.

Para evitar que “se perdesse” com uma paixão juvenil, Ana foi arrancada da sua cidadezinha no interior de São Paulo e trazida para um vilarejo em Mato Grosso. Os pais acreditavam que seria melhor assim, mas a grande ironia da vida é que a moça mais bela se casou com um homem de temperamento difícil e que tentou matá-la durante a lua de mel.

Cresci assombrada pela história de que o meu tio correu atrás dela com um facão pelo quintal da casa, no sítio, no mesmo dia em que celebraram matrimônio. Mamãe era criança e testemunhou a cena. “Mas ele é bom, trabalhador, apenas bebe demais”. Ou seja, homens bons podem maltratar e até matar suas esposas.

Dona Ana tem mais de 40 anos de casada e se conformou com o destino ao lado daquele marido que ainda hoje grita, xinga e faz ameaças. Mesmo velho, dizem que ele "continua ruim”. Apesar das circunstâncias, ganhou dele cinco filhos e dezenas de netos. Para além das marcas do tempo e sofrimento, ela continua a mais meiga e bonita de todas.

Este ano a filha mais nova dela, e que tem o mesmo nome, não virá passar o Réveillon na cidade, pois não quer dar mais motivos para o pai judiar da mãe. Aliás, as brigas na família são comuns neste período. “Venha a senhora para o sítio”, disse a prima. Quem tem parentes alcoólicos sabe que nessas festas é um tormento: eles bebem muito e se tornam mais violentos.

Ana, Neusa, Maria Alice e Aparecida. Todas elas sofreram violência doméstica. A mais velha nunca conseguiu se liberar, assumiu o casamento como uma missão. Neusa se liberou após a morte (por hidrocefalia). Alice e Aparecida se casaram e separaram algumas vezes e hoje vivem “sozinhas e felizes”. Esta é a saga de mulheres unidas pelos laços de sangue e do sofrimento.

O período deveria ser de alegria e planos para o próximo ano, mas enquanto você lê meu artigo, milhares de meninas e mulheres são mutiladas em seu corpo e sua dignidade das formas mais perversas no Brasil e no mundo. A grande maioria por quem deveria amá-las e respeitá-las. Me questiono sempre, o que fizeram para merecer? Onde está Deus nessas horas?

Rapidamente me transporto para os almoços de domingo na casa da vovó, em que me esgueirava entre o sofá e as almofadas da sala para poder ouvir melhor a conversa das irmãs que eram sempre sussurradas. Havia um choro silencioso. Foi assim que tive contato pela primeira vez com a palavra estupro, que entendi naquele momento que era o que o marido fazia quando “a mulher não queria cumprir suas obrigações”. 

Fecho os olhos e sigo no tempo. Agora tenho nove anos, estou no meu quarto, onde levanto subitamente no meio da noite com o barulho de um grito abafado. Era a minha mãe implorando para ele não bater mais. O coração dispara, fico em silêncio, aterrorizada, e desligo o ventilar para ouvir melhor.

Chorei abraçada com a minha irmãzinha até dormir, implorando a Deus: por favor, não leve também a nossa mamãe (o papai morreu ano passado - em 1986). Havia muitos bichinhos de pelúcia e bonecas no quarto, duas camas com baú atrás, colchas bonitas e uma cortina de ursinhos que ia do teto até o chão. Suor e lágrimas molhavam meus cabelos e dentro de mim uma promessa. “Quando crescer, eu mato ele”.

A viagem no tempo me leva agora para a véspera de Natal, início da década de 90, quando a minha mãe vai entregar presentes para a tia Ana que vivia em uma casa de tábua muito simples, numa rua de chão. Ela descarregou do porta-malas uma cesta com alimentos, roupas e brinquedos para os primos. “Não vou descer”.  E mamãe não ligou.

De repente aquele homem estava parado com uma mão na cintura e outra em um facão ao lado do carro. “Desce agora, Rosimeire, vem pedir a bênção”. Desci com medo, estendi a mão, mas mantive o olhar firme. “O senhor deseja mais alguma coisa, titio?”. Voltei para o carro, enquanto ele gargalhava, dizendo, é assim que se educa meninas petulantes.

Passei muitos anos julgando a minha tia porque nunca quis se separar dele. Hoje eu vejo diferente. Ela carrega o mais pesado dos fardos da família sem questionar. Mesmo que eu não quisesse, o amor e a violência emaranharam as nossas vidas e não há como fugir dessa realidade. Onde começa a dor de uma e termina a da outra? Como eu posso permanecer neste clã sem adoecer? 

Faz mais de dez anos que eu faço psicoterapia e não tenho a maioria das respostas

Faz mais de dez anos que eu faço psicoterapia e não tenho a maioria das respostas. Também não consegui me livrar das lembranças ruins e de todas as promessas infantis que eu fiz para mim mesma. Como diz o ditado, se fugir o bicho pega, se ficar o bicho come. Adotei a postura de “buscadora“, testando novas terapias, estudando e me questionando sobre quem sou como forma de diluir o sofrimento que depois observei, não é apenas meu. É coletivo.

O psiquiatra e psicoterapeuta Carl Jung dizia que: "Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida, e você vai chamá-lo de destino". Enquanto homens e mulheres não se questionarem intimamente sobre por que batem e apanham, estabelecendo uma reconciliação profunda entre feminino e masculino, não vamos conseguir interromper esse ciclo de violência. 

Então, no Réveillon, a cena se repetirá indefinidamente, de geração em geração, por filhos, pais, netos e bisnetos: bêbado, homem tenta matar a esposa com facão ou qualquer outra arma. Alguns conseguem, outros não. Algumas se salvam, outras não.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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