Rose Domingues

O homem negro que mudou a minha vida

Por 24/11/2019, 00h:16 - Atualizado: 24/11/2019, 09h:36

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

 

Nossa família veio da Europa há pouco mais de cem anos, para substituir os escravos nos trabalhos em fazendas, como assalariados. Originalmente do interior de São Paulo, migramos para Mato Grosso, onde prosperamos na pecuária de corte.

Quando eu tinha oito anos, soube que o papai estava sendo ameaçado de morte. Na ânsia de ampliar os negócios, ele “grilou” uma propriedade na região de Vila Bela da Santíssima Trindade, divisa com a Bolívia, e um homem jovem havia morrido no acampamento. Acontece que a família dele queria vingança.

Ficamos dois meses de sobreaviso: Ademar tem que morrer. Olho por olho, dente por dente. No dia 26 de dezembro de 1986, mesmo ano da morte do presidente Tancredo Neves, e por isso a música Coração de Estudante marcou a minha infância, papai estava dando partida em sua Saveiro quando um taxista pareou com ele e um homem atirou, acertando a sua cabeça.

Papai caiu, morto, a poucas quadras da casa da minha avó, no centro de São José dos Quatro Marcos. Faltavam alguns minutos para as dez da noite. Em casa, fingindo dormir, eu sabia que havia algo errado naquela noite sombria. Mamãe tomou banho, não colocou o pijama e saiu de fininho nos deixando sozinhas.

Rosimar tinha cinco anos e dormia na cama ao lado. Eu me levantei, fui até a sala e me revoltei com a minha mãe, onde ela estava? Quando tempo demoraria? Será que havia um fantasma na casa? Estava com muito medo, assustada, então, acordei a minha irmãzinha. 

Ficamos juntas, abraçadas, enquanto do outro lado da cidade o papai estava morto. A mamãe chorava, sem chão. A vovó gritava, descontrolada. O vovô, introspectivo, tremia por dentro, mas se matinha frio e calmo por fora. Os meus tios Valter e Sebastião não diziam nada. Afinal, o que isso tem a ver com o Dia da Consciência Negra?

Então, se não tem algo melhor a dizer ou sentir no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, apenas fique em silêncio

Rose Domingues

Vamos recapitular: um homem de aproximadamente 1,8 metro, forte, grande e negro, inconformado com a morte do filho, quis lavar a honra com sangue. Ele contratou um pistoleiro, que por sua vez era negro e que, para executar o assassinato, pagou um taxista, também negro, para ir ao encontro do meu pai. Todos os envolvidos na morte eram "de cor".

Muitos anos se passaram. Outro dia alguém me perguntou despretensiosamente sobre ter um único desejo atendido e a imagem veio. Papai chegando à minha casa, com a mesma calça jeans, botinas e a roupa suja de graxa (era mecânico). Choraria abraçada com ele. Tomaríamos uma cerveja e eu falaria sem pressa sobre tudo que aconteceu desde a sua morte.

“Esses são meus filhos, esta é a minha casa e esta sou eu, nunca desisti de lutar”. No final do dia, nos despediríamos e ele voltaria para o lugar de onde veio, como se tivéssemos dado uma trégua na morte. Haveria lágrimas e muito amor em seus olhos.

Senhor Idalecio um dia sentiu a dor da perda. O homem negro que mudou o traçado da minha vida, me deixando sem pai e por muito tempo sem mãe e avó, pois ambas ficaram deprimidas. Até mesmo os amigos se afastaram, por temer represálias.

Eu teria muitos motivos para justificar o meu racismo, passando a odiar os negros, como a mãe do meu pai fazia, como muitos brancos fazem diariamente, velada ou abertamente. Mas o único sentimento que brotou no meu coração nesses anos todos foi a gratidão.

Sinto muito por vocês que odeiam por tão pouco, deve ser uma condição existencial infeliz e rasa. Mas não consigo julgar uma pessoa apenas pela cor da pele. Ele errou sim, mas poderia ter errado sendo de outra cor ou nacionalidade.

Enquanto era pequena, sabia que havia sempre um grande homem negro, de chapéu, me seguindo com os olhos, cuidando de mim enquanto brincava de bicicleta na praça da cidade. Soube que ele chorou, arrependido, almejava nosso perdão.

De coração para coração, posso dizer a ele que não mudaria nada do que aconteceu. "Tudo foi como tinha que ser. Siga seu caminho em paz". Aliás, honro profundamente a existência desse senhor e do filho dele (morto na nossa fazenda).

Misteriosamente, ele passou a fazer parte da nossa família. Então, no Dia da Consciência Negra me dói a falta de respeito à história desses irmãos negros, forjados na dor de um coração partido, mas que me tornaram a mulher que sou hoje: forte, corajosa e íntegra. 

Aos brancos que alegam a necessidade de um "dia da consciência humana" sem respeitar a memória e a necessidade de reparação aos milhões de negros trazidos como animais para o Brasil, e que sofreram com trabalho forçado (homens, mulheres, crianças) e todos os tipos de violência por mais de 300 anos eu só tenho algo a dizer: vocês me envergonham! 

Perdi um pai, ganhei mais que isso, ganhei um coração disposto a amar, mas amar a todos e não apenas brancos arianos. Consigo, hoje, sentir minimamente a dor da tragédia de gerações daquele povo açoitado por "não ter alma", e que lhe é negado ainda hoje o direito de reparação histórica, cultural, econômica e religiosa.

Então, se não tem algo melhor a dizer ou sentir no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, apenas fique em silêncio, pelos mortos, torturados, esfolados, esquartejados, pelas mulheres e meninas estupradas, pelos pobres esfarrapados que continuam a morrer, não pelas mãos de feitores nas fazendas, mas por policiais em nome do Estado. Se não tem coração, nem uma boa leitura da história do Brasil, ao menos tenha respeito. Neste dia, faça silêncio. 

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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