Rose Domingues

O que o coronavírus vem nos ensinar?

Por 15/03/2020, 09h:21 - Atualizado: 15/03/2020, 09h:26

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Esta semana foi marcada por notícias assustadoras: Itália registra 250 mortes em 24 horas; já são mais de 20 mil casos confirmados. Em vinte dias, mil mortos. Cidades fantasmas, pessoas trancadas em casa de quarentena e algumas com seus parentes mortos sem poder sair. Dos apartamentos, italianos cantam em coro ‘Bella Ciao’ e emocionam o mundo. Confesso, eu chorei.

França fechou bares, restaurantes, lojas e casas noturnas para conter coronavírus. O mesmo fez Portugal, que implantou controle na fronteira com a Espanha, que por sua vez decretou estado de emergência com fechamento das escolas até abril. Polônia, Alemanha, Irlanda e os demais países estão aos poucos fazendo o mesmo. De repente a Europa ficou “trancada” dentro de si.

Inclusive os Estados Unidos tomaram medidas muito duras, fechando-se para 26 países europeus com cancelamento de voos entre os continentes. No Brasil, em quase todos os estados há casos de suspeita aguardando resultado de exames, já há algumas confirmações; o Governo de Minas Gerais decretou situação de emergência, que foi curiosamente publicada no Diário Oficial desta sexta-feira 13.

A primeira grande lição de uma grande epidemia mundial talvez seja manter a calma em tempos sombrios, desenvolver controle emocional e manter a esperança

Rose Domingues

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou pandemia do novo coronavírus Sars-Cov-2, alegando disseminação pelos seis continentes. O pior por enquanto é não saber ao certo com que estamos lidando. No Estado de São Paulo, dentre os três cenários de números de infecções para que a rede pública se prepare, o menos grave estima que 1% dos 46 milhões de habitantes será contaminado, ou seja, mais de 460 mil pessoas.

Diante disso, é normal se sentir ansioso, pois a linha entre informar e promover sensacionalismo é tênue, o que pode ser piorado em um momento histórico do uso indiscriminado de “fake news” (desinformação/boato). Será que a doença realmente mata? Chegará a Mato Grosso? Como me proteger? O Brasil também vai "parar"? Não sabemos como serão as próximas semanas e isso gera medo. Medo principalmente dos aproveitadores que vão tentar se dar bem às custas do caos, elevando preços de serviços e produtos!

A primeira grande lição de uma grande epidemia mundial talvez seja manter a calma em tempos sombrios, desenvolver controle emocional e manter a esperança. Também podemos aproveitar a situação para analisar como tudo isso pode ser um passo importante para compreender o que a gripe espanhola tentou dizer à humanidade há 100 anos, matando entre 50 e 100 milhões de pessoas. (as catástrofes se repetem historicamente)

“Essa forte energia de “fora” vem para equilibrar ou curar algo dentro de nós que não quer mudar (curar)”. Uma amiga terapeuta explica que quando elevamos a doença ao coletivo, é necessário fazer a seguinte pergunta: “Porque nós, humanidade, atraímos um vírus agressivo, contagioso que desestabiliza as vias respiratórias (a forma que tocamos o mundo e a forma que o mundo nos toca) e os pulmões que têm ligação com ressentimento e tristeza?”.

Qual a minha parte de responsabilidade nesse processo de cocriação de agressividade e tristeza? Ela pontua que “não existe acaso, nem existe erro no plano divino, muito menos punição. Esse é um processo de causa e efeito. As árvores têm o formato dos pulmões...as florestas são o pulmão do planeta, então, é importante pensar sobre os efeitos do desequilíbrio provocados pelo atual modelo de vida que estamos inseridos”.

Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante

José Saramago

A literatura é uma fonte muito rica de sabedoria, por isso me lembrei imediatamente da obra “Ensaio sobre a cegueira”, do escritor português José Saramago, que ilustra bem a imagem de momentos difíceis como este: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. O autor nos convida a pensar sobre o momento histórico marcado pelas práticas selvagens do capitalismo, que frequentemente rompe os limites que nos mantêm humanos. Observamos diferenças afrontosas - em que 1% da população do planeta detém mais de 80% das riquezas - sem realmente "reparar" as consequências dessas mazelas.

“Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”, declarou Saramago em seu discurso ao receber, em 1998, o Nobel de Literatura. Raciocínio perfeito para um mundo tomado por profunda intolerância e desigualdade, que aliás vêm se acentuando. Esta é uma sociedade que ainda discrimina e mata os diferentes; que ainda expulsa imigrantes; que julga pela classe social, cor, orientação sexual e pelo gênero. Uma civilização altamente tecnológica onde não faltam comida, terra e teto, mas que fabrica diariamente milhões de esfomeados, sem-terra e sem-teto.

Então, eu lhes pergunto, o que podemos realmente aprender com o coronavírus ou qualquer outra catástrofe mundial? Na iminência de uma doença que pode ser letal a nós e nossos familiares (especialmente os idosos), o que realmente importa? Parar tudo (que era "tão importante") para ficar em casa isolado vai me colocar em contato com que tipo de gente? Quem é essa pessoa estranha que está se olhando agora no espelho agora?

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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