Rose Domingues

O silêncio de papai

Por 09/08/2020, 08h:20 - Atualizado: 09/08/2020, 08h:28

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Eram 4h30 da manhã quando acordei sobressaltada na cama. Olhei para o celular no chão, no silencioso, a luz acesa denunciava a ligação da mamãe. Que notícia boa chegaria a uma hora dessas? Eu já sabia, ele morreu.

Ramalho partiu dormindo, entre uma tosse e outra, na escuridão da noite e das vistas que já não enxergavam por causa do câncer. “Seu avô faleceu, vem pra casa”. Costumo ser alguém que sente em intensidade, mas naquele momento havia apenas um vazio.

Também um remorso, uma culpa, por que não fui vê-lo pela última vez como a minha irmã pediu? Por que não disse que o amava? Por que briguei com ele por ser chato e resmungão? Por que preciso trabalhar tanto e morar tão longe? A perda sempre vem acompanhada de porquês.

Definitivamente, não estamos preparados para a morte. Quando ela bate à porta, por mais que saibamos que nos observa e acaricia, ela nos pega desprevenidos, de calças curtas, sem reação. Naquele momento, era uma folha ao vento.

Após mais de três horas de viagem, cheguei à cidadezinha onde seu corpo jazia em um caixão de madeira. Olhei aquele homem forte de outrora e estava tão mudado, tinha cara de morto e uma fisionomia cadavérica de sofrimento. O paletó era grande demais; e as flores eram brancas de plástico.

Cumprimentei meus tios, havia pouca gente, depois me sentei de mãos dadas com a minha mãe em silêncio. Fechava os olhos sem lágrimas e me via no antigo Del Rey, atravessando de balsa o Rio Paraná até São Paulo. A brisa da manhã bagunçava meus cabelos. Havia um anjo me observando de longe, me “cuidando”.

São muitas perdas, muitos corações em pranto e um imenso vazio no coração da pátria-mãe gentil, Brasil. Neste dia dos pais, que possamos recuperar o verdadeiro amor cristão que nos pede para amar pessoas e usar coisas e não o contrário. Um dia para relembrar quem somos e de onde viemos e o que realmente importa

Rose Domingues

Rapidamente o pensamento volta no tempo, para o dia 29 de julho, a manhã fria do meu nascimento. Todos foram pegos de supetão, não era o “Valério”, em homenagem ao pai do Ramalho, meu bisavô. Nasceu uma menininha, que de Valéria se tornou Rosimeire. Ele nunca soube dizer como escolheu meu nome a caminho do cartório. Apenas aconteceu.

Já são três da tarde, a hora do enterro. Tenho que puxar o Pai Nosso, mas a voz não sai. De repente as lágrimas encontram caminho entre meus olhos e a face, o peito se contrai, a respiração fica rápida e choro copiosamente. Ele se foi. Ele realmente morreu. O caixão é carregado a quatro mãos até o cemitério do outro lado da rua.

Vamos em silêncio em um pequeno cortejo sem grande importância. Eu gosto realmente das coisas desimportantes, como diria Manoel Barros. Então, nossa vida passou pela minha frente: as teimosias, as brigas, os sermões, vovô sempre altivo, sabido, paciente, resiliente, machista querendo me dobrar a opinião, mas sempre preocupado com os filhos e netos.

“Rosimeire, preste atenção”. Não deseje nada que não é seu. Trabalhe duro e seja honesta. Honre sua família. Gaste apenas com o necessário. Viva uma vida simples mesmo tendo dinheiro. Ame com atitudes e não com palavras. Perdoe todos os inimigos. Mantenha-se fiel a Deus até o último dia. Assim, ele nos serviu de exemplo.

A caixa de madeira foi colocada dentro de uma grande caixa maior de cimento (o túmulo). O pedreiro foi assentando os tijolos no cimento na nossa frente. O sol estava a pino, mas a cena se repetia continuamente na cabeça: ele deitado no caixão, imóvel, sozinho, na escuridão. Aquele era o homem que eu amava desde pequenininha, como abandoná-lo para trás?

Uma pessoa que não sei o nome disse “este é o lugar para onde todos vamos, este é o final da vida”. O Brasil já perdeu 100 mil pessoas para a Covid-19 na mesma semana em que chorei a morte do meu avô e que também perdemos o bispo missionário e símbolo da resistência Dom Pedro Casaldáliga, aquele que amava os pobres, os índios, as mulheres, os negros. 

São muitas perdas, muitos corações em pranto e um imenso vazio no coração da pátria-mãe gentil, Brasil. Neste dia dos pais, que possamos recuperar o verdadeiro amor cristão que nos pede para amar pessoas e usar coisas e não o contrário. Um dia para relembrar quem somos e de onde viemos e o que realmente importa. 

Todas as vidas importam, todos esses rostos anônimos eram o amor da vida de alguém, como o meu avô Ramalho é para mim. A todos os mortos e seus familiares, meus sinceros sentimentos, e um poema de Manuel Bandeira:

“Quando ontem adormeci/ Na noite de São João/ Havia alegria e rumor/ Estrondos de bombas luzes de Bengala/ Vozes, cantigas e risos/ Ao pé das fogueiras acesas./ No meio da noite despertei/ Não ouvi mais vozes nem risos/ Apenas balões/ Passavam, errantes/ Silenciosamente/ Apenas de vez em quando/ O ruído de um bonde/ Cortava o silêncio/ Como um túnel./ Onde estavam os que há pouco/ Dançavam/Cantavam/E riam/Ao pé das fogueiras acesas?/ — Estavam todos dormindo/Estavam todos deitados/Dormindo/ Profundamente. (...)”.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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