Rose Domingues

Parto humanizado x violência obstétrica

Por 01/03/2020, 08h:13 - Atualizado: 08/03/2020, 08h:49

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues


      Maria Alice tinha acabado de fazer 18 anos, estava há mais de um dia em trabalho de parto sozinha e com fome no hospital. Ela conta que devorou silenciosamente as bolachas de águas e sal que a sogra levou escondidas na bolsa durante o horário de visita. A dor ia e vinha, ela se segurava na cama para não desmaiar. 

Longe da família e do marido, que ficaram em Mato Grosso, tudo que ela mais queria é que aquele tormento acabasse. Era mês de julho em Palmeira D’Oeste, São Paulo, Alice estava com um quadro agudo de anemia, mas, mesmo passando mal, não pediu ajuda. Ela não suportava mais ouvir as brincadeiras “não doeu na hora de fazer, agora tem que aguentar”. 

O trauma em relação à raspagem dos pelos pubianos perdurou uma vida, porque a xingaram e maltrataram! Além disso, os danos da episiotomia (corte do músculo do períneo para aumentar o tamanho do canal por onde passa o bebê) só foi revertido com uma cirurgia, anos depois. Vale ressaltar que essa prática é considerada desnecessária na maioria dos casos, mas ainda é feita em mais de 50% dos partos normais no Brasil. 

Tudo bem, Maria Alice deu à luz a mim (a filha jornalista) em 1978. Mas 41 anos se passaram e pouca coisa mudou em relação ao tratamento da gestante no sistema de saúde brasileiro. Continuamos sendo maltratadas! Sei que sou um caso aparte. Porque, mesmo com objeções da mãe, das avós e da minha sogra, eu optei pelo parto normal. 

Quando eu tive o Pedro, há 20 anos, não existia essa expressão “parto humanizado”, por isso realmente acho muito importante o movimento das mulheres em torno do tema. Elas buscam tomar para si aquilo que é próprio da mulher: parir. Imagine que as nossas ancestrais tinham mais de 10 filhos, então, elas dominavam essa arte (ou técnica?) e havia um ritual importante em torno do nascimento da criança. 

Não desconsidero os avanços da medicina, que são válidos e salvam vidas, mas tirar da mulher o papel de sujeito ativo no processo do parto mais atrapalha que ajuda. Porque, quanto mais conhecedora do seu corpo, ciente de quem é e da sua capacidade, mais saudável e forte ela se torna para cuidar de si mesma e da criança. Talvez até os casos de depressão pós-parto diminuíssem drasticamente com o incentivo do parto humanizado. 

Ouvir uma médica narrar nesta semana que 90% das mulheres brasileiras optam pela cesariana com “medo da dor” me fez pensar. Tenho muitas amigas que não cogitaram ter parto normal ou mesmo humanizado. São vários argumentos. Não acho que isso as torna menos mães, continuamos iguais, mulheres lindas, poderosas, o que eu posso dizer é que respeito a escolha delas, mas jamais abriria mão do parto normal.

Quem disse que não posso aguentar pela dor do parto estava mentindo! Quem disse que era insuportável exagerou! Sim, doeu, como dói cair da bicicleta e ralar o joelho na infância. Como dói uma dor de dente ou crise de sinusite. Como dói levar um fora do homem que a gente ama. Como dói perder o emprego, não ter dinheiro para pagar as contas, como dói cólica de rim ou se sentir sozinho e desamparado. Enfim, viver dói. 

Como eu disse, não sou o exemplo perfeito, porque há trabalhos de parto que duram 2 dias, como foi com a minha mãe. Mas eu tive meus filhos em menos de 4 horas. Dei entrada no hospital pouco antes da meia-noite e o Pedro nasceu às 3h. Me lembro como se fosse ontem daquela dor que me revirou do avesso. Incomodada, eu andava pelo quarto, sentava e levantava da cama, ia ao banheiro, onde vomitei até esvaziar o estômago. 

Quem disse que era insuportável exagerou! Sim, doeu, como dói cair da bicicleta e ralar o joelho na infância. Como dói uma dor de dente ou crise de sinusite.

Rose Domingues

No auge da contração, sem analgesia, eu gritava. Ao contrário do que eu esperava, ninguém me ameaçou, fez brincadeiras ou me maltratou, a equipe do Hospital Samaritano de Rondonópolis (que nem existe mais) foi espetacular. Não me lembro do rosto do anjo, era uma enfermeira morena com voz carinhosa e paciente, ela me abraçava e pedia para eu pensar em algo bom. 

“Mas eu não consigo agora”, eu gritava chorando. Ela não desistiu de me animar, me chamava de linda, limpava meu suor e pedia para eu respirar para que o meu bebê continuasse saudável na barriga. Eu não tinha plano de saúde, todo atendimento foi feito pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Pedro era grande para uma mãe magricela de 21 anos, nasceu com 3,8 kg e 54 centímetros. 

Meu filho foi agarrado comigo da sala de parto para o quarto, onde amamentei pela primeira vez; e às 7h tomei café da manhã em casa, de banho tomado e cheirosa, andando para todo lado, que bênção! Com a Julia o trabalho de parto (também sem analgesia) foi ainda mais rápido, ela era um bebê pequeno: 2,9 kg e 48 centímetros.

Cheguei ao hospital às 9h e ela nasceu ao meio-dia. A gente brinca, que nasceu com fome. Nós fomos abraçadas da sala de parto para o quarto, onde mamou a tarde toda aconchegada ao meu peito. Neste dia 11 de março isso faz 18 anos. Ter conhecimento sobre o aconteceria comigo e o meu corpo, receber apoio do marido - segurando a minha mão e me incentivado nas contrações - e do médico e das enfermeiras foi fundamental. 

Embora meu final tenha sido feliz, falar em parto normal é mexer com muita coisa guardada a sete chaves: traumas, violências, frustrações, inseguranças e perdas familiares e mesmo limitações de cada uma. Mexemos em um campo minado de medos, principalmente da morte. Portanto, não adianta apenas dizer: “mulheres, tenham parto normal”, “parto humanizado é melhor para vocês e seus filhos”.

Antes de tentar convencer, vamos olhar para a vida e a história dessas mulheres, quanta dor elas vêm suportando no sistema de saúde? A epidemia de cesarianas no Brasil, que somam quase 3 milhões por ano e significam mais de 55% dos partos (quando a OMS recomenda até 15%), não são um dado ao acaso. Claro que tocar no assunto vai gerar debates e mesmo a fúria de uma parcela significativa delas, com razão, elas possuem o direito de escolher a cesariana.

Mesmo, assim temos que falar. Porque a maioria das gestantes nem sabe que tem direito, por exemplo, a acompanhante em hospitais públicos e privados, que pode exigir analgesia (parto sem dor), que deve ser tratada com amor e respeito. Falar sobre o parto, portanto, é importante para esclarecer, informar e fazer com que os nossos direitos sejam respeitados. Nem sempre são.

Temos que levar em conta que, infelizmente, o modelo de saúde estruturado hoje no nosso país acaba incentivando a cesariana uma vez que remunera mal os profissionais da saúde, além de não oferecer melhores condições de trabalho e estrutura a eles. Muitos querem fazer, são dedicados e vocacionados, mas se frustram e desistem.

Claro que temos ainda aqueles profissionais que declaradamente “só fazem cesariana”. Porque, convenhamos, é mais rápido, planejado e lucrativo. Mas não podemos tirar a razão deles, afinal, médicos também pagam boletos. Quiçá muitos deles, em início de carreira, enfrentaram dúvidas, como: O que vou ganhar brigando com o sistema? Se alguma complicação acontecer, e às vezes acontece, como vou enfrentar uma batalha judicial, vale a pena correr esse risco?

Mesmo diante de tantos prós e contras, é extremamente salutar debater os direitos da mulher a uma melhor assistência na saúde. Estamos em pleno século 21 e queremos ser tratadas com dignidade, todas nós, pobres ou ricas, escolarizadas ou não, a filha da empregada ou da patroa, indígenas ou da cidade grande, todas nós merecemos respeito. Então, falar de parto humanizado é falar de humanização no atendimento à mulher e é acima de tudo dizer sim à vida!

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

 

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