Rose Domingues

Que em 2020 sejamos mais como o Papa Francisco

Por 05/01/2020, 07h:34 - Atualizado: 12/01/2020, 06h:50

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

 

Era último dia do ano quando uma mulher atrás da barreira de segurança puxou abruptamente o braço do pontífice da igreja católica, no Vaticano. Eu revi várias vezes o vídeo e dei boas gargalhadas do Papa bom velhinho, de 83 anos, que ficou irritado quando uma mulher agarrou seu braço. Pensei, nossa, ele é gente como eu!

Francisco, no impulso, para se desvencilhar, acerta um tapa na mão da fiel e sai, visivelmente bravo. Obviamente ele é o Papa e a gente esperava uma tonelada de paciência da sua santidade, mas não vi problema algum naquele gesto que considero tão humano. Afinal, se o ano foi pesado para mim, será que ocorreu o mesmo com ele?

Nascida em berço católico, nunca enxerguei padres como a reencarnação de um Deus. Nem a Bíblia como um documento incontestável. Porque toda aquela gente que prega palavras tão bonitas não passa de homens e mulheres de espírito, osso e carne fraca. Historicamente, usaram o tal “poder divino” para manipular, matar, roubar, enriquecer e abusar de crianças e mulheres.

Observe os noticiários, a todo momento a “santa igreja” é sacudida por relatos de casos de pedofilia espalhados pelo mundo. No ano passado, a Suprema Corte da Pensilvânia, nos Estados Unidos, divulgou um extenso relatório com denúncias listando mais de 300 padres acusados. Também há detalhes do esforço "sistemático" de líderes da igreja por mais de 70 anos para encobrir esses crimes. (um absurdo!)

Mesmo cumprindo todo o ritual exigido pela família e tendo feito a primeira comunhão, renovação do batismo e crisma, ou seja, sou uma “católica raiz”, sempre tive uma postura bastante crítica à minha própria fé. Aos 13 anos ganhei um livro que está até hoje na cabeceira da cama: O crime do padre Amaro, escrito no século 19 pelo português Eça de Queiroz e que escancara a vida dupla de muitos “homens de Deus”.

Ter acesso a esse tipo de leitura foi fundamental para a minha formação intelectual, sexual e mesmo moral. Afinal, a mocinha do livro, Amélia, após ter um romance com o jovem padre se torna a vilã da história. Uma mulher até hoje não seria aceita na família estando com um filho bastardo de um padre em seu ventre ou seria? Então, ela morre ao fazer um aborto, induzida pelo santo homem que a abandonou.

Curiosamente, eu, a ovelha desgarrada, sentiu-se mais próxima do Papa – e do catolicismo – por causa desse episódio, e não o contrário. Dessa mesma igreja rígida que me afastou ao pregar contra sua própria gente: negros, gays, índios, mulheres solteiras e filhos fora do casamento. Em 2001, por exemplo, apenas a Igreja do Rosário, em Cuiabá, aceitou fazer o batizado do meu filho Pedro, hoje com 19, porque eu não era casada com o pai dele, apenas vivíamos juntos.

Pode parecer blasfêmia, mas vejo o Papa Francisco como um homem comum, porém com uma missão extraordinária: direcionar a vida espiritual de mais de 1,3 bilhão de fiéis (18% da população mundial) e apaziguar conflitos, porque a palavra dele é ouvida por diversos povos e culturas. Ele também tem a missão de fazer reformas na própria igreja, e nem vou tocar na questão polêmica do aborto, que eu era integralmente contra, hoje não sou mais.

Francisco é argentino, gosta de futebol, de pizza, ouve música popular, é espontâneo, politizado e o primeiro jesuíta a ser eleito Papa. E para a minha surpresa, nossa proximidade aumentou quando ele veio a público, em sua primeira missa do ano, para pedir desculpas e falar em defesa dos direitos da mulher. Se até o Papa reviu seu machismo, por que nós não podemos?

"Muitas vezes perdemos a paciência. Eu também. Peço perdão pelo mau exemplo de ontem", disse. Observe à sua volta quantas pessoas costumam reconhecer que erraram e sonoramente peçam desculpas, especialmente sendo uma “autoridade”. Ele foi além, durante a celebração condenou a violência, a humilhação e as ofensas que as mulheres do mundo todo sofrem com frequência. Se foi apenas um golpe de marketing? Ainda assim a postura exigiu muita ousadia.

Ao invés daquela conversa fiada de Adão e Eva, do Antigo Testamento, tão utilizada para massacrar mulheres, ele trouxe algo mais valioso para nossa reflexão: “O renascimento da humanidade começou pela mulher. Se quisermos tecer de humanidade a trama dos nossos dias, devemos recomeçar da mulher. No seio de uma mulher, Deus e a humanidade uniram-se para nunca mais se deixarem. Em Deus, há a nossa carne humana e para sempre Maria será a Mãe de Deus".

Para Francisco, "podemos entender o nosso nível de humanidade pela maneira como tratamos o corpo da mulher". Uau, que Papa! (pensei) A admiração cresceu após ver o filme Dois Papas nesta semana, porque senti que a minha frase “que sejamos mais como o Papa” fez mais sentido. Tudo bem se errarmos e até perdemos a paciência, acontece. Porque alguns “irmãos ou irmãs” invadem o nosso espaço, ferem e incitam o instinto mais primitivo de preservação.

Agora, que tenhamos humildade e coragem de voltar atrás e fazer a correção caso entendamos necessário, que aquele ato impensado nos sirva de aprendizado e lição. Conhecendo melhor a história de vida deste homem, me senti inspirada, porque foi repleta de incertezas, erros e acertos. Menos santa e mais ‘A vida como ela é’, de Nelson Rodrigues, por que não?

"Onde estava Cristo durante a Ditadura Militar? Ele estava tomando chá nos palácios presidenciais". Esta é uma das afirmações do Papa que apoiou os assassinos na Argentina, responsáveis por mais de 30 mil desaparecidos, dos quais 6 mil mortos que foram atirados ao mar em "voos da morte" (narrativas excepcionais estão no filme). Exilado por anos na própria congregação, ele conseguiu se refazer, diluindo a própria culpa, com a única forma saudável de corrigir erros: trabalhando em prol da humanidade.

Pode parecer blasfêmia, mas vejo o Papa Francisco como um homem comum, porém com uma missão extraordinária

Rose Domingues

Humanista, ele rotineiramente conclama seus fiéis ao despertar de consciência como cidadãos do mundo que são: “Estamos vendo a globalização da indiferença, que nos faz viver em bolhas. Nos acostumamos com o sofrimento dos outros, não nos afeta. Quem é o responsável pelo sangue dos nossos irmãos e irmãs? Quem é o responsável pelos refugiados no Mediterrâneo? Quando ninguém é o culpado, todo mundo é culpado”.

Mais que o poder bélico que gera guerras e conflitos onde todos perdem, Francisco fala sobre uma nova tirania que dizima os povos e as riquezas naturais do planeta Terra: “não devemos combater apenas a tirania da opressão e da repressão; há que se lutar contra a tirania das estruturas econômicas injustas que criam grandes desigualdades". Hoje, metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% da população; e o Brasil está em primeiro lugar na concentração de renda entre os países.

Portanto, o nosso inimigo real não é o "comunismo" (da amiga e parceira comercial China) ou qualquer partido político de esquerda ou direita (porque a corrupção é generalizada). Grandes conglomerados empresariais que ganham dinheiro com as grandes desgraças da humanidade, o que incluem doenças, fome, guerras e a violência, devem ser combatidos. O estilo de vida moderna e fútil, que nos faz valorizar mais coisas do que pessoas, deve ser combatido: "Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras - liberdade caça jeito" (Manoel de Barros). Independente de ser ou não impulsivo e controverso, cada vez que eu vejo no Papa Francisco essa chama que me leva a me incomodar com o sofrimento alheio e a me aproximar dos valores verdadeiramente cristãos e humanos, eu penso: ainda vale a pena lutar.  Eu sou a igreja.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

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