Rose Domingues

Quem ri em um velório?

Por 12/07/2020, 08h:18 - Atualizado: 12/07/2020, 08h:27

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Roubei o título de uma antiga professora. Ela contou nesta semana em suas redes sociais que vem acompanhado à sua volta um comportamento conhecido: o riso de desespero. "Quando minha mãe morreu, eu cheguei ao velório e vi o meu pai rindo". 

A mãe dela se suicidou quando ela era criança, mas Iracema levou uma vida inteira para compreender de onde vinha aquele riso. "Meu pai era um homem simples, da roça, meu avô (pai dele) era analfabeto, ele perdeu a mãe aos 7 anos, ficado com 4 irmãos mais novos. Ele não sabia lidar com as emoções".

Quero abrir um parêntese para falar dessa mulher que conheci em 2012, quando fiz especialização em Liderança e Coaching. Ela é uma inspiração, saiu de Alto Araguaia, uma cidadezinha no interior de Mato Grosso, para conquistar o mundo. Iracema fez cursos em grandes universidades, como Harvard, nos Estados Unidos, sempre tentando desvendar o terreno das emoções que nos acompanha há muitas gerações, quiçá vidas (para quem crê em reencarnação).

O riso do pai da professora Iracema era de "desespero", pois perdeu a esposa e tinha 4 filhos pequenos para cuidar. Neste momento de mortes e muitas perdas, a maioria de nós acionou mecanismos de defesa e autopreservação. Alguns inclusive negam veementemente a realidade, outros ficam raivosos (às vezes eu fico raivosa).

Neste momento de mortes e muitas perdas, a maioria de nós acionou mecanismos de defesa e autopreservação. Alguns inclusive negam veementemente a realidade, outros ficam raivosos (às vezes eu fico raivosa)

Rose Domingues

É importante destacar que quando as mudanças como esta que estamos vivendo chegam nem sempre estamos preparados. Afinal, como se preparar para perder o pai assassinado aos 8 anos? Nenhuma escola ou curso ensina a se portar frente os acontecimentos sem perder a esperança, nunca ninguém me ensinou, por exemplo, a ver que todo mal traz consigo uma grande bênção.

São as lições da vida que nos preparam para ser pessoas melhores, demonstrando firmeza de caráter, senso de justiça, resiliência, perdão, coragem, altruísmo e amor. Afinal, se olharmos para trás, a vida sempre quis despertar o melhor de nós.

 "Não enterramos a Covid-19 ainda, este será um velório longo. Escrevo porque ainda existe muita gente distraída tentando fugir dessa aula, essa é aquela aula que vai te preparar pra mudar o rumo da sua história e da sua família. Essa é a aula daquele professor mais chato, mas que você nunca esqueceu".  

É normal sentir medo, por se tratar de “um velório de muitas mortes”. Para Iracema, uma despedida da pressa, da comida por quilo, do celular no bolso o dia todo, de sujar o planeta amado, de não escutar um pedido de ajuda silencioso. Concordo professora, estamos todos de luto. Nunca imaginei que poderia perder tanto em tão pouco tempo

Chorei muito esta semana, todos os acontecimentos doem muito, inclusive a sordidez de pessoas e grupos que tentam se aproveitar deste momento de fragilidade e desespero para "se dar bem e nadar de braçada". São almas infelizes que reprovarão o ano de 2020, é a lei do carma. 

"Você já sabe como passar pela dor, só precisar relembrar". Iracema faz um convite, para que possamos buscar o que nos fortaleceu nos nossos maiores momentos de dor. Temos uma força muito grande guardada capaz de nos ajudar a enfrentar qualquer adversidade.

Me lembro da madrugada do dia 26 de dezembro de 1986. Estar no velório da pessoa que mais amamos é um pesadelo. O tempo passa devagar. Não ouço as vozes das pessoas, vejo apenas as bocas se mexerem. Algumas sorriem para mim, querem me abraçar, que desconfortável essa gente espalhada pela casa, o burburinho. Não me toque, vão embora por favor.

Ouço gritos e é como se os gritos da minha avó continuassem dentro de mim até hoje, mais de 30 anos depois. O riso e o grito de desespero (e dor) se uniram neste artigo. Quando alguém me pergunta como eu consigo ser forte não compreendo bem como isso funciona, mas ao olhar para trás percebo que algo me manteve viva: o amor, aos 8 anos pela minha mãe e pela minha irmã. Depois, os meus filhos. 

Aliás, o amor é a resposta, não importa a pergunta. É meio clichê, mas é verdade. Também foi nesta época que eu descobri Deus, uma centelha que me aquece e alimenta nos momentos mais difíceis. Era ele quem me ninava diariamente em seus braços, enquanto eu chorava silenciosamente até dormir.

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com​

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Comentários (2)

  • HELIO AUGUSTO GOMES | Domingo, 12 de Julho de 2020, 17h49
    2
    0

    Psicóloga, com baixo astral insustentável.

  • ALEXANDRE DA SILVA COLINSQUE | Domingo, 12 de Julho de 2020, 10h01
    0
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    Parabéns! Texto profundo e encantador.

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