Rose Domingues

Rondônia alega que Machado de Assis estimula sem-vergonhice

Por 09/02/2020, 08h:09 - Atualizado: 09/02/2020, 11h:41

Dayanne Dallicani

Colunista Rose Domingues

Em nota, o Governo do Estado de Rondônia rebateu as recentes críticas de que estaria banindo livros, a proposta é apenas suavizar a educação. Também admitiu que as ideias de Rubem Fonseca e Nelson Rodrigues são perigosas, pois induzem crianças a se viciarem em mamadeira de piroca e masturbação. “Precisamos desconstruir valores socialistas que induzem ao homossexualismo”.

Ao todo, 43 livros poderão ser recolhidos das escolas, pois se descobriu recentemente que seus autores são amigos particulares do ex-presidente Lula da Silva, do PT, e vinham mamando volumes consideráveis nas tetas da Lei Rouanet. “A nossa bandeira nunca mais será vermelha”, bradou o secretário de Educação, que admitiu sobre Assis: “Nunca li, nem vou ler”. Uma pena, é meu escritor preferido desde os 12 anos!

Entre os autores que estão se contorcendo no túmulo desde o início desse caça às bruxas promovida pelo Estado de Rondônia podemos destacar: Mario de Andrade, Nelson Rodrigues, Franz Kafka, Euclides da Cunha, Edgar Allan Poe e Rubens Fonseca. Sendo que este último teve 18 obras censuradas por apologia à maior sem-vergonhice de todas: pensar.

Andrade, aquele comunista, é autor de Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter, cujo personagem principal é índio, negro e, depois de tomar banho na poça do pé do gigante Sumé, virou europeu. Individualista e preguiçoso, tem o bordão “ai que preguiça”. Ele é um retrato de malandragem, egoísmo, vingança e inocência. 

Eu me pergunto, a quem interessa uma massa de brasileiros críticos e altamente pensantes?

Rose Domingues

Leitura possível: o povo brasileiro não tem caráter definido e o Brasil é grande como o corpo de Macunaíma, mas imaturo, como sua pequena cabeça. Sim, senhor secretário de Educação, Mário de Andrade é ameaçador e talvez devesse ser queimado em praça pública, para não fazer brotar ideias críticas nas cabeças dessa gentalha. Assim como Memórias Póstumas de Brás Cubas, que claramente incita críticas sociais:

“Se Brás Cubas teve uma vida repleta de caprichos, em virtude da sua posição de classe, é natural que, ao escrever suas memórias, o livro se componha desse mesmo jeito. O mais importante não é a realização ou não dessas veleidades, mas o direito de tê-las, que está reservado apenas a uns poucos da sociedade da época. Veja-se o exemplo de Dona Plácida e do negro Prudêncio, ambos são personagens secundários e trabalham para os grandes”.

A primeira nasceu para uma vida de sofrimentos: “Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado pro outro, na faina, adoecendo e sarando...”, descreve Brás. Com Prudêncio, outra crítica à estrutura social que é incorporada pelo indivíduo: ele fora escravo de Brás na infância e sofrera os espancamentos do senhor, mas uma vez alforriado passou a ser dono de escravo e, nessa condição, tratava outro ser humano como um animal.

A força da obra está na sutileza e inteligência do autor ao mostrar a sociedade da época com sua divisão de classes, de um lado os donos de escravos, urbanos e rurais, que constituíam a classe mandante do país, que estão representados como políticos, ministros, senadores e deputados. De outro, a escravidão responsável direta pelo trabalho e pelo sustento da nação e, por assim dizer, das elites. Muito atual e perigosa, concordam? 

De longe, Rubem Fonseca é mais terrível, afinal, quem se dedicaria a um mês de ‘cachorro louco’? Agosto se passa em 1954, tem um pé na história e outro na ficção, retrata o caos e os escândalos políticos envolvendo o presidente Getúlio Vargas e que culmina em seu suicídio. Ao final, temos um romance que compreende corrupção policial, negociatas políticas no Senado e na Câmara, a compra de favores e a derrota do único homem honesto: o Comissário Mattos, sinal da impossibilidade de existir algum resquício de honestidade naquele meio.

A cada parágrafo deste artigo, me convenço mais sobre o risco de ter acesso a tais obras. Aliás, o grande tema dos livros de Rubem é a violência, mas em um formato que extrapola Sherlock Holmes (de Sir Arthur Conan Doyle, literatura britânica), porque percorre as ruas brasileiras mostrando uma espécie de guerra civil não declarada entre ricos e pobres.

Qual não seria a sua surpresa ao se deparar com Calibre 22, um conjunto de 31 narrativas que tratam temas pesados com leveza e mostra a obsessão de matar usando armas de fogo? Justamente agora em que acompanhamos (estarrecidos) um novo partido político surgindo no Brasil em apologia escancarada (e descarada) ao poderio bélico da elite dominante representada por homens de mais de 40 anos, brancos e provedores?

Um dos personagens confessa: “tenho um interesse muito especial pela morte dos seres vivos em geral”. Humor e ironia consagram este autor como uma grande contista brasileiro contemporâneo, pois consegue esfregar na cara do leitor de maneira muito ágil e contundente que a raiz da violência física ou simbólica que se esconde atrás de cada lance se desencadeia a partir do racismo, da misoginia e da homofobia.

Ah, outro maldito, tarado, reacionário e indecente. Recolher Nelson Rodrigues das escolas é um ato de heroísmo para que as nossas crianças cresçam sem contato com a sua obra cheia de pecado e masturbação mental. “Invejo a burrice, porque é eterna” ou “Toda unanimidade é burra”, dizia. Em A Vida Como Ela É, ele instiga e nos perturba, porque nos convida a rever instituições sagradas, como o casamento.

Na crônica O escravo etíope, o desejo da protagonista de ter um casamento de arromba se cumpre de forma inesperada: ao invés da união com o noivo, o escândalo do casamento secreto com o amante, “um negro gigantesco”, motorista de ônibus. Obedecendo a esse tipo de peripécia, as soluções para os contos ilustram porque Rodrigues foi acusado de atacar as famílias brasileiras, mas vamos bater a real: ele denunciou preconceitos, conservadorismo e tabus.

“O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É degradante que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos” ou “não existe família sem adúltera”, por fim ele desfere o tapa: “Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem”.  O caráter pedagógico das suas obras nos faz a todos enrubescer.  

Que tipo de gente sou entre quatro paredes? Minha honestidade persiste mesmo quando ninguém está olhando? Claro que a nota do Governo mostrada neste espaço é uma grande brincadeira que eu fiz usando argumentos utilizados para justificar o injustificável. Um Governo jamais deveria impedir o acesso à leitura! E seus eleitores jamais poderiam concordar com a perpetuação da ignorância!

Porém, eu me pergunto, a quem interessa uma massa de brasileiros críticos e altamente pensantes? Nelson Rodrigues tinha razão: “Como são parecidos os radicais da esquerda e da direta. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Mil vez não. Um canalha é exatamente igual ao outro canalha”. 

Rose Domingues Reis é jornalista graduada pela UFMT, especialista em Liderança e Coaching – MBA pela Unic, com formação em Psicologia Positiva pelo Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento (IPPC) de São Paulo e escreve exclusivamente neste espaço aos domingos. E-mail: rosidomingues@gmail.com

Postar um novo comentário

Comentários (1)

  • Flávio | Domingo, 09 de Fevereiro de 2020, 23h01
    0
    0

    Ótimo texto, porém, assustador ao saber da postura de gestores como este daquele Estado.

Sexto suplente na Câmara por um mês

aluizio leite 400 curtinha   Aluízio Leite (foto), filiado histórico do PV, tomou posse como vereador pela Capital na último dia 2. Mas vai ficar na cadeira por somente 31 dias, até o retorno do titular, delegado Marcos Veloso, que se afastou para cuidar de assuntos pessoais e hoje se encontra hospitalizado com...

No TCE pra tentar receber da prefeitura

flavia mesquita 400 curtinha   Flávia Mesquita (foto), da Luppa Administração de Serviços, pediu socorro ao TCE para tentar receber por serviços prestados à secretaria de Saúde de Cuiabá, alegando que o município está inadimplente há oito meses. E apontou quebra da ordem...

Pai e filho pré-candidatos em Poconé

henrique santos 400 curtinha pocone   Em Poconé, pai e filho estão animados para o teste das urnas deste ano. Um a prefeito e, outro, para vereador. Euclides Santos, que já foi vereador (89/92) e prefeito por duas vezes (93/96 e 2001/2004), além de secretário de Infraestrutura e Serviços Urbanos em...

Expectativa de tocar a Cultura de MT

paulo traven 400 curtinha   Um dos três adjuntos da pasta de Cultura, Esporte e Lazer do Estado, José Paulo da Mota Traven (foto) vem se articulando para assumir de forma efetiva o comando da secretaria. Ele conta com apoio de alguns membros do staff, como do secretário de Governo, Alberto (Beto) Machado. O governador...

Poconé tem hoje vários "prefeitáveis"

euclides santos 400 curtinha   O ex-vereador e ex-prefeito de dois mandatos de Poconé, Euclides Santos (foto), que era do MDB e agora está no PSDB, vem se movimentando nos bastidores para concorrer novamente à sucessão municipal. Seria um dos nomes de oposição ao prefeito Tatá Amaral, que vai tentar...

Apostas do PTB para vereador em VG

silvio fidelis 400 curtinha   Detentor da segunda maior bancada na Câmara de Várzea Grande, com cinco assentos, atrás somente do DEM da prefeita Lucimar, que conta com sete vereadores, o PTB aposta na hipótese de ao menos manter as cinco vagas. E todos os seus vereadores vão à reeleição, sendo...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Em Cuiabá, o prefeito suspendeu a decisão de implantar rodízio de veículos entre placas pares e ímpares devido à Covid-19. Mas quer debater a ideia. Você concorda com rodízio?

concordo

discordo

tanto faz

não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.