A maré subirá!

Não despreze os pequenos momentos

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Sandra Alves

O balanço incansável das ondas, a constância, a calmaria, a força, a impetuosidade – o mar. A grandiosidade faz com que se olhe o infinito, por um instante. Sentir-se pequeno diante da imensidão do mar! Um tempo de paz, o momento da reflexão, parar e olhar o que ficou e o que virá!

No filme, os anjos param em frente ao mar no pôr do sol para ouvir o divino! Existe um encanto no mar, a brisa é de espiritualidade. E por tudo isto, a alma mais contida se expressa de forma exuberante e transparente.

O menino de cabelos cacheados sob os ombros, nos seus grandiosos cinco anos de vida, sorri, mergulha, corre, vai e volta. Existe a possibilidade de um amigo, um pouco acanhado. O conflito inicial foi latente. O egoísmo em compartilhar os brinquedos, em princípio, era maior que a alegria em compartilhar a fantasia. Nada que um empurrãozinho da voz feminina e garantidora não resolvesse: “Brinca com ele!”. O grupo aumenta, já são quatro, e os ataques de baleia e tubarões também. Até o momento em que um chama a atenção dos companheiros, idades próximas, para construir o castelo de areia. Um tubarão e uma baleia – de plástico - cuidam da proteção na fantasia contagiante.

Duas meninas, crianças, caminham do guarda-sol ao lado até o outro lado, com o objetivo de pisotear com desdém a obra grandiosa. Ah, seres humanos! O espírito provocante do feminino na doçura da infância! E a resposta daquele com cachos lindos: “Menina chata!”.

E a impertinência do grupo de adultos e suas observações dispensáveis: “Olha, dois golfinhos!”. Prazer em retirar os pequenos daquele momento de fantasia. E as crianças, já mal-humoradas (e não sem razão), exclamam: “É um tubarão e uma baleia”. E voltam novamente ao castelo.

A reunião é casual, provavelmente seja o único encontro. Destes, um par de olhos tem um brilho diferente. Menino levado, cerca de dois anos, pequenino, exigindo um pouco de atenção. Fixa os olhos na batata frita do vizinho. Não está aparado por guarda-sol ou cuidados de atendentes, é de lá mesmo, mora no bairro e sua avó estava trabalhando.

E o proprietário da batata desfrutou da alegria de viver aquele momento. O pequenino olhando, aguardando o menor gesto. Veio através do espetar da batata pelo palito e o gesto de levantá-lo em direção ao menino. Desconfiado, envergonhado, o desejo pela batatinha foi vencedor, aproximou-se, sorriu, não um sorriso forçado pelo pedido, o sorriso da satisfação. Mais do que o petisco, deixou de ser ignorado, por sua cor, por sua carência, por sua simplicidade, para ser o objeto de atenção de outro ser humano.

E então, só isso?! Não. O pequeno não parou por aí. Tinha mais dois irmãos, mais velhos, uma menina e um menino, seis ou sete anos. Ele não poderia egoisticamente aceitar e comer. Levou para sua irmã! Vou ao proprietário, que espetou a segunda e a terceira batata, e outras sucessivas. E os sorrisos se seguiram, contagiavam quem observava os fatos.

A avó, junto a outros dois vendedores ambulantes, sentada à areia um pouco a frente, de olho nas crianças e na situação. Não interferiu, em sua maturidade e vivência, viu que não se tratava de uma inconveniência, mas de um raro momento de carinho e afeição, distraiu-se!

E o mar? Tratou de jogar uma onda alta e forte que derrubou a avó, levou os salgados e encharcou os outros dois. E as gargalhadas de todos rolaram. Recuperadas as coisas, a avó virou-se e disse aos pequenos: “O mar está dizendo que é hora de ir embora!”. E assim como a vida, assim como o mar, idas e vindas. Não despreze os pequenos momentos, logo a maré subirá!

Sandra Cristina Alves é tabeliã e registradora de imóveis, ex-analista do TJ/MT e escreve exclusivamente para este Blog toda segunda-feira. (sandrac.alves@terra.com.br)

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Comentários (1)

  • Pery Taborelli da Silva Filho Cel PM Ver | Terça-Feira, 14 de Janeiro de 2014, 22h39
    1
    0

    O lógico e o imperceptível movimentos da vida, tornam-se inevitáveis às apreciações aos olhos dos sábios, ao degustarem todos os momentos vividos.

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