Banana frita

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Sandra Alves

Em um dia difícil, quando os problemas se multiplicam e as soluções se dividem, enquanto o responsável conversava de forma tensa com o subordinado, o senhor de pele escura, manchas causadas pelo trabalho constante sob o sol, cabelos enrolados, curtos e em boa parte grisalhos entrou no prédio. Educadamente solicitou um serviço. No aeroporto, o voo atrasaria duas horas. Dificilmente nos primeiros noventa minutos a pessoa levante os olhos, retirando-os da tela do smartphone para ver o que se passa ao redor. Apenas um rápido desvio ocorre, para visualizar onde está a atendente que faz pesquisa de destinos dos passageiros para a Anac, na sorrateira intenção de demonstrar o quanto se está ocupado e que não deseja ser incomodado. 

A varanda não foi concluída, faltam o piso, a argamassa e a pintura; um banco de madeira e uma cadeira de fio. Assim, parte dos visitantes se acomodam na mureta. A acolhida é espontânea, os recursos são parcos, mas é o local em que sempre se retorna. A banana frita e o café cheiravam longe. Não serão alguns minutos para saborear a delícia da terra e o “dedo” de prosa que frustrarão os compromissos do dia.

“69 anos, convictamente solteiro!” foi a resposta do senhor grisalho ao questionamento sobre o estado civil em algum momento do atendimento. A ênfase dada ao “convictamente” de forma imediata levantou suspeita e poucos foram os minutos de investigação – ou seja, de oitiva de sua trajetória – para concluir que se tratava de um coração magoado. Passado algum tempo, com sorriso a atendente retrucou aos argumentos do senhor: “Ainda irei realizar seu casamento!”.

Livre da pesquisa da Anac e diante do término da bateria do smartphone, é possível olhar ao redor na sala de espera do aeroporto. A criança chorando dentro do carrinho de bebê se cala diante do sorriso de outra que se pendura neste para visualizar seu semelhante. Um outro grupo de pessoas está tomado pela ira em razão das informações desencontradas no cancelamento do voo. Seis pessoas, lado a lado, ainda estão na fase do isolamento, com os olhares fixos no smartphone!

Banana frita, café e em alguns minutos a história de vida da senhora simpática e atenciosa mostrava o sofrimento, a perseverança e a alegria de cada pequena conquista. A distância enquanto residia na fazenda, a falta de conforto, o isolamento, a falta de medicamentos, a falta de escola. A alegria se justifica, porque as conquistas foram pequenas em termos materiais, mas gigantescas em face das batalhas vencidas.

O Papa Bento, dirigente da Igreja Católica, tem chamado a atenção do mundo para a questão da concentração de riquezas versus a marginalização dos seres humanos. A colocação do Brasil segundo o índice de Gini (em pesquisas da ONU) em oitavo lugar no mundo, não é nenhum motivo de orgulho. A questão que se coloca é: o que impede o ser humano de olhar ao redor e perceber o mundo em que está inserido?

Quanto tempo mais será necessário ficar retido no aeroporto para perceber que crianças correm pela sala, que idosos necessitam de ajuda, que pessoas humildes carecem de orientação, que o ser humano merece ser ouvido? Quanto tempo mais para concluir que é necessário um mundo com mais distribuição das riquezas, sem tanta fome, sem tanta miséria, sem tanta marginalização do ser humano? É preciso que a bateria do celular acabe e se levante os olhos para ver uma outra realidade, além do Facebook, whats app, Youtube, etc.

O “convictamente solteiro” informou num encontro casual que está pensando em arrumar uma namorada. O doce cheiro do café e da banana frita convidavam para mais um “dedo” de prosa. No caminho para o aeroporto... quanto tempo mais teria que esperar?

Sandra Cristina Alves é tabeliã e registradora de imóveis, ex-analista do TJ/MT e escreve exclusivamente para este Blog toda segunda-feira. (sandrac.alves@terra.com.br)

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Comentários (1)

  • benedito rufino da silva | Segunda-Feira, 27 de Janeiro de 2014, 18h59
    0
    0

    Parabéns pela crônica sandra. bem oportuna e atual. benerufino@gmail.com

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