Malandro

“Segura teu santo seu moço, teu santo é de barro.” E barro é o que não falta por Cuiabá nos últimos meses, nos tempos de obras e de bilhões e milhões escoando por ladeiras. O problema é que o ditado popular que virou música ou vice-versa não é aplicado aos políticos, aos governantes deste Estado, do país, aliás.

 

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Sandra Alves

Obra e Copa do Mundo são assuntos da vez. Na padaria, no mercado, no açougue, nos consultórios e escritórios. O que impressiona, entretanto, é como um fato objetivo – obras – pode ser tão subjetivamente interpretado. De um lado um senhor idoso, aposentado, alegre e com feição entusiasta e crente nas perspectivas do crescimento; de outro, a arquiteta, jovem, esbelta, questionadora e técnica do assunto – ambos aguardando o odontologista.

O início do diálogo se deu pela coincidência de nomes, passou pela naturalidade (Cuiabano) e chegou até as obras da Copa. “Um espetáculo, a cidade será de primeiro mundo, com transporte rápido, com ar condicionado, tudo bonito e organizado”, disse o senhor. Por outro lado, retrucou a jovem: “Isso se o VLT ficar pronto, se o cidadão conseguir pagar a passagem, se o viaduto da UFMT deixar de alagar, se o VLT conseguir passar sobre os trilhos nos lugares em que as obras estão desniveladas, se...”. “Mas você não viu que o vagão do VLT chegou?!” e por aí seguiram os debates.

De fato, incomoda o fato das 56 obras prometidas para a Copa contarem com apenas 7 inauguradas faltando 157 dias para o evento. Incomoda, mais ainda, quando um olhar mais atento às obras entregues observa a falta de qualidade do trabalho; por fim, incomoda a dificuldade de compreender os bilhões e milhões gastos. Muitos números são apresentados, mas se para os técnicos é difícil entender, quem dirá para a população.

E a tal da inauguração de obra parcial?! Sob o olhar dos interlocutores acima a qualificação dos participantes da festa vai do céu ao inferno. Infelizmente a política no Brasil se baseia mais na imagem particular que nos princípios sociais. Nestas horas, político que é político “Não pode dar mole pra não refunda!// Quem marca bobeira// Engole poeira e rasteira até pode levar!// Malandro que sou, eu não vou vacilar”.

“Eu vou andar de VLT de graça, sou aposentado!” Explicitado o motivo que fundava a ardorosa defesa ao VLT. O viés cultural da malandragem do brasileiro tem reflexos desastrosos a partir do momento que cega o olhar crítico e social. “Sou o que sou ninguém vai me mudar// E quem tentou teve que rebolar, sem conseguir// Escorregando daqui e dali// Malandreando eu vim e venci!”

O olhar individualista é que permite o trânsito de tantos “santos de barro” sem receio de quebra. Hora de usar a malandragem para questionar as contas e os gastos das obras e das campanhas das eleições que se aproximam. Os portais de transparência chegaram junto com os vagões do VLT! A lei de acesso à informação caminha junto aos custos de fogos para inaugurações!

Será que a jovem arquiteta gostaria de assistir a Corinthians e Flamengo? Ou preferirá saber quanto isto custará ao Estado? Os santos de barro dos mensaleiros quebrou e o cidadão “no sufoco da vida foi onde aprendi!// Por isso é que eu "vô"!// Vou, eu vou por aí! Sempre por ai// Esse mundo é meu! É meu!// E onde quer que eu vá// Em qualquer lugar, malandro sou eu!”

Sandra Cristina Alves é tabeliã e registradora de imóveis, ex-Analista do TJ/MT e escreve exclusivamente para este Blog toda segunda-feira. (sandrac.alves@terra.com.br)

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Comentários (2)

  • Francisco Cuiabano | Terça-Feira, 07 de Janeiro de 2014, 18h33
    1
    0

    Julio, esse nosso Brasil com todos esses des-governos que andam por ai e essa classe politica que não estuda nada, não planeja nada e não projeta nada a não ser pra eles mesmos, querem mais é ver a coisa pegar fogo, querem mais é que as obras atrasem pra queimar os aditivos, eles não tem responsabilidade por nada e, por outro lado, esse analfabetismo político entranhado em grande parte dos eleitores, que ajuda a reeleger a maioria desses picaretas que estão ai...

  • Julio Muzzi | Segunda-Feira, 06 de Janeiro de 2014, 09h11
    4
    0

    A causa de tudo isso foi a ausência de estudo de viabilidade técnica/econômica( Planejamento); e como diz o ditado: Quanto maior o rolo, maior é o ..................

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