Sirlei Theis

A violência mais democrática que existe

Por 01/06/2020, 07h:34 - Atualizado: 01/06/2020, 07h:47

Arte/Dayanne Dallicani

Colunista Sirlei Theis

O sexto mês do ano chegou. Junho representa a metade do ano, o início do verão no hemisfério norte e o início do inverno no hemisfério sul. No Brasil, não podemos esquecer das festas juninas e também o dia dos namorados. O mês em que os relacionamentos são o foco. Jantares e presentes especiais fomentam o mercado num ano “normal”, mas como será o mês de junho em um ano em que a Pandemia, a crise econômica e política estão tão latentes.

Quando acontece com pessoas próximas da gente, a tendência é não querermos acreditar que o nosso amigo possa ter feito aquilo, então a atitude é de querer encontrar uma justificativa para o injustificável

Junho leva esse nome, em homenagem a Juno, a primeira dama do Olimpo, a esposa de ZEUS, defensora do casamento e protetora da maternidade. Um mês em que deveria prevalecer o cuidado às famílias e aos relacionamentos, principalmente nesse momento de Pandemia, isolamento social e crise econômica.

De repente o mundo todo foi forçado a parar e o homem a se encolher na sua insignificância, pelo menos era isso que deveria ter acontecido, mas não é o que vejo e a rejeição a esse fato pode trazer consequências inimagináveis. Às vezes tenho a sensação de que o que era ruim no homem ficou ainda pior e o que era bom não teve o mesmo crescimento ou até diminuiu, surgindo em seu lugar o egoísmo que muitas vezes estava escondido por trás das máscaras sociais.

Quando deveríamos priorizar a empatia, a compaixão e os relacionamentos, as manchetes são de mais violência, principalmente a doméstica. Esse fenômeno, que assim como o covid-19, abrange o mundo todo, nesse período de isolamento social, tem mostrado um crescimento jamais visto antes, exatamente pela incapacidade do ser humano se relacionar. Como diz Leandro Karnal “A ideia de que as pobres apanham mais é uma fantasia, infelizmente é democrático e generalizado. Está em todas as classes sociais: há burguesas que apanham, há médicas que apanham, há profissionais liberais que apanham, há operárias e domésticas que apanham”.  Mas quando acontece com pessoas próximas da gente, a tendência é não querermos acreditar que o nosso amigo possa ter feito aquilo, então a atitude é de querer encontrar uma justificativa para o injustificável. Fazemos isso porque nos identificamos, afinal, recebemos a mesma educação machista, homens e mulheres e quando falo “recebemos”, é porque me incluo também nesse rol de pessoas, porque essa é a nossa realidade. O que me diferencia é que aceito a minha condição e busco melhorar a cada dia, principalmente me policiando quando me vejo em um posicionamento machista.

O machismo é uma questão cultural que atinge todos os seres humanos e só vai mudar quando aceitarmos essa condição. Por meio da aceitação posso evoluir como ser humano, o que possibilita rever os meus atos e, principalmente dar uma educação diferenciada para os meus filhos, sejam homens ou mulheres. Só assim construiremos uma sociedade livre no futuro.

O autoconhecimento é uma ferramenta que deveria ser ensinada dentro das escolas, pois o que temos nos dias atuais são estranhos de si mesmos tentando se relacionar com outras pessoas. Se não conheço a mim mesmo, como vou conseguir desenvolver a empatia pelo meu parceiro depois que passa a paixão. É nesse momento que casais entram em crise, cada qual preso no seu vitimismo e nos defeitos do outro. Assim, acabam desenvolvendo relacionamentos tóxicos e doentios, que podem sim chegar a violência, seja ela psicológica ou física.

O machismo é uma questão cultural que atinge todos os seres humanos e só vai mudar quando aceitarmos essa condição

Temos que ter consciência que não importa se é um amigo ou amiga o envolvido, se queremos ajudar, precisamos aceitar os fatos como se apresentam e orienta-los para procurar ajuda de profissionais. Nunca, nunca mesmo, podemos considerar uma briga de casal que vai parar em uma delegacia, como uma coisa normal. O Alerta já está vermelho faz tempo e se nada for feito, não se sabe onde aquilo poderá chegar.

Uma das questões que chamam atenção nas estatísticas de feminicídio, é que a grande maioria dos assassinos não tem precedentes, por isso a vítima sempre acha que com ela nada vai acontecer e perdoa mais uma vez. O sentimento de dependência emocional da burguesa ou da operária é o mesmo. Assim, a estatística continua crescendo com a morte de uma mulher a cada 2 horas no Brasil. Pense, reflita e tome uma atitude para mudar esse padrão de comportamento.

Sirlei Theis é advogada, especialista em gestão pública, palestrante e treinadora comportamental e escreve com exclusividade para esta coluna às segundas. E-mail: sirleitheis@gmail.com. Instagram: @sirleitheis. Facebook: sirleitheisoficial

Postar um novo comentário

Comentários (2)

  • Ana Paula | Segunda-Feira, 01 de Junho de 2020, 13h14
    2
    0

    👏🏼👏🏼👏🏼Pela matéria Sirlei. Só questiono os termos burguesa e operária “”(???). Pra mim é rica e pobre, e ambas sofrem com a violência doméstica e isso tem q ser denunciado para q os abusadores paguem por seus atos.

  • Maria | Segunda-Feira, 01 de Junho de 2020, 11h11
    2
    0

    Parabéns mais uma vez Sirlei. Você consegue ser muito precisa nas suas colocações e agrega muito valor.

Corrida de Teis no noticiário nacional

waldir teis 400 curtinha   As imagens que mostram o conselheiro afastado do TCE Waldir Teis (foto) descendo em alta velocidade as escadas de um prédio para jogar no lixo vários cheques rasgados que somavam R$ 450 mil ganharam o noticiário nacional, com destaque neste domingo em veículos, como Folha de S. Paulo, G1 e IG....

Esforço de ex-senadora para eleger 2

rafael ranalli curtinha 400   Eleita no pleito de 2018 e cassada em definitivo em abril deste ano, a ex-senadora Selma Arruda, presidente do Podemos de Cuiabá, pode deixar o partido após o processo eleitoral deste ano. Segundo informações, a juíza aposentada se afastaria da política partidária para...

6 parlamentares já foram infectados

wilson santos 400 curtinha   Desde o início da pandemia, em março, seis dos 24 deputados estaduais já testaram positivo para Covid-19. O último foi Wilson Santos (foto). Ele disse que recebeu medicação e está em isolamento. Observa que a doença está no início e segue trabalhando...

Pedido para TSE definir data da eleição

sebastiao carlos 400 curtinha   Na última quarta (2), um dia após a Câmara aprovar a PEC que adia as eleições municipais para 15 de novembro, André de Albuquerque Teixeira, advogado de Sebastião Carlos, que concorreu ao Senado e um dos que denunciaram Selma Arruda por crimes eleitorais, já...

Uma das apostas do PP para vereador

alex rodrigues 400 curtinha   O PP já tem no rol de possíveis eleitos a vereador em Cuiabá o jovem Alex Rodrigues (foto), de 31 anos. Filho do empresário Valúcio Rodrigues e sobrinho do secretário de Obras Públicas da Capital, Wanderlúcio Rodrigues, Alex criou uma comunidade com mais de mil...

Prefeito, efeito pandemia e a reeleição

ze do patio 400 curtinha   Mesmo com o poderio da máquina, considerada preponderante para cooptar partidos e aliados por causa da oferta de cargos e do assistencialismo, o prefeito Zé do Pátio (foto), de Rondonópolis, terceira em população e segunda no ranking da economia estadual, terá muitos...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Em Cuiabá, o prefeito suspendeu a decisão de implantar rodízio de veículos entre placas pares e ímpares devido à Covid-19. Mas quer debater a ideia. Você concorda com rodízio?

concordo

discordo

tanto faz

não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.