Sirlei Theis

O isolamento que mata

Por 06/04/2020, 06h:57 - Atualizado: 06/04/2020, 07h:02

Dayanne Dallicani

Colunista Sirlei Theis

Nos últimos dias tenho evitado bastante os grupos de wattsapp, pois percebo que as pessoas estão bastante alteradas. Cada um briga pela sua verdade e tudo acaba virando pauta política. Qualquer manifestação que não agrade este ou aquele, vira motivo para ofensas pessoais e te classificam como sendo desse ou daquele grupo político.

Rivalidade política existe e sempre existirá, mas agora está acentuada em razão dos efeitos colaterais provocados pelo isolamento social a que muitos estão submetidos e também pela preocupação em relação aos reflexos que essa pandemia poderá provocar na economia local, nacional e mundial.

Realmente são muitos os motivos que levam as pessoas a ficarem alteradas emocionalmente. De repente, de um dia para o outro nos vimos obrigadas a ficar isoladas e viver em um cárcere. Embora a porta não esteja trancada, muitos de nós se mantém dentro de casa.

O medo de pegar a doença é o principal fator que mantém as pessoas em isolamento, pois não se sabe exatamente o que vai acontecer. Acaba sendo uma escolha pela vida, mas a que custo. Tudo isso desencadeia uma série de sentimentos, muitas vezes confusos.

Quero falar sobre um isolamento social que mantém mulheres presas a relacionamentos abusivos por longos anos. Um cárcere físico e mental que em muitos casos acaba as levando a morte 

Esse isolamento me fez refletir sobre outro tema latente que envolve a sociedade, mas por conta do coronavírus não tem sido muito comentado nos últimos dias. Embora isso não significa que o problema tenha diminuído, ao contrário, pode até ter aumentado.

Quero falar sobre um isolamento social que mantém mulheres presas a relacionamentos abusivos por longos anos. Um cárcere físico e mental que em muitos casos acaba as levando a morte. Na maioria das vezes o cárcere não acontece com portas trancadas, mas sim, por meio do medo do que pode acontecer se ela atravessar aquela porta. Uma prisão emocional, que a mantém refém de uma pessoa que controla a sua mente, sua vida. É difícil para a pessoa que nunca tenha vivido algo semelhante, compreender um cárcere que mantém a pessoa prisioneira, mesmo tendo acesso a porta de saída e também a outras pessoas que poderiam ajuda-la.

Pesquisas apontam que o sentimento que mais aprisiona mulheres a esses relacionamentos é o medo. O medo de morrer, o medo de não ser capaz, o medo do sistema não funcionar, o medo do julgamento da sociedade, o medo de perder os filhos e muitos outros tipos de medo.

Na última semana esteve estampado na capa de muitos sites e jornais não só as notícias do Covid-19, mas também a fotografia de uma “garota” de apenas 20 anos, que foi assassinada pelo seu ex marido.

Ela conseguiu atravessar a porta que a aprisionava e enfrentar o medo. Estava ansiosa para conquistar o mundo depois de alguns anos vivendo um relacionamento abusivo. Buscou o sistema de segurança e num primeiro momento sequer conseguiu medida uma protetiva. A medida, acabou saindo na última semana quando ela voltou a Delegacia da Mulher, mas isso não foi suficiente para mantê-la viva.

Mesmo com o conhecimento da medida protetiva, a portaria do condomínio onde ela morava liberou a entrada do ex marido para ver o filho. Foi nesse momento que ele aproveitou para tirar a vida da sua ex esposa a facadas. Ela ainda tentou fugir, segundo os moradores, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no estacionamento do condomínio.

Um triste fim para uma menina que ousou atravessar a porta do cárcere, mas que não teve a proteção necessária do sistema para realizar os seus sonhos.

Neste exato momento quantas mulheres mais estarão passando pelo mesmo dilema, querem avançar rumo a liberdade, mas tem medo de acabar como esta jovem mulher, morta a facadas no estacionamento do condomínio onde morava. O estado precisa se aparelhar para evitar que novos casos como este aconteçam. Os condomínios precisam exigir das empresas que prestam serviço de segurança um treinamento para porteiros saberem lidar com situações como essa. Medidas protetivas precisam ser respeitadas.

Aline Gomes Souza tinha 20 anos e deixou um filho de 04 anos, era uma pessoa querida e trabalhadora, mais uma morte, mais um número para as crescentes estatísticas de feminicídio. Até quando!

Sirlei Theis é advogada, especialista em gestão pública, palestrante e treinadora comportamental e escreve com exclusividade para esta coluna às segundas. E-mail: sirleitheis@gmail.com. Instagram: @sirleitheis. Facebook: sirleitheisoficial

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Comentários (5)

  • Juliana Kido | Terça-Feira, 07 de Abril de 2020, 08h00
    1
    0

    A prisão emocional e mental é a pior de todas. Adorei o texto

  • Marta | Segunda-Feira, 06 de Abril de 2020, 15h11
    2
    0

    Muito bem colocado,esse isolamento atual ,para mim, que já estive,em um isolamento mental de uma relação abusiva,para mim está sendo um desafio,bem menor que o primeiro.

  • Gonçalina | Segunda-Feira, 06 de Abril de 2020, 13h39
    2
    0

    As mulheres gritam por socorro a bastante tempo e pouca coisa é feita. Precisamos no poder de você, mulher inteligente e guerreira, mulher que nos representa

  • Mel Di Pietro | Segunda-Feira, 06 de Abril de 2020, 12h52
    2
    0

    Amiga, como sempre incrível! Esses dias em casa também pensei sobre estas mulheres, ainda mais nesta situação de isolamento, mais do que nunca obrigadas a ficar junto ao seu agressor

  • Catia | Segunda-Feira, 06 de Abril de 2020, 12h39
    2
    0

    Parabéns adoro suas matérias muito gratificante

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