O médico e o monstro. Ele terá que matar para ficar preso?

Por 18/02/2019, 08h:32 - Atualizado: 18/02/2019, 08h:48

sirlei theis colunista fixo lateral

Sirlei Theis

Na semana em que diversos casos de violência doméstica surgiram nos sites de notícias, um chamou bastante atenção porque o “suspeito” é um médico, E.M.J. ou simplesmente Emilson Miranda Junior, 30 anos. Apesar de ter um histórico de agressões à mulheres, Emilson sequer ficou preso.

E ele não foi o único, em Pernambuco outra vítima de um relacionamento abusivo, denunciou o ex-marido, um empresário que nesse caso sequer foi à delegacia. A juíza do processo entendeu que, por não ter ocorrido violência física, as coisas serão resolvidas na ação de divórcio, que já se arrasta há mais de 6 meses e sequer teve a liminar analisada ou audiência marcada.

A vítima ficou desesperada, pois sabe do que seu agressor é capaz, ainda assim não conseguiu se fazer ouvida na audiência. Numa conversa que tivemos, ela fez um questionamento duro e muito difícil: será necessário ele me matar para ir preso? O que responder.

Em Canoas (RS), outro caso em que um empresário foi preso em flagrante por ameaçar e perseguir a ex companheira e foi solto 3 dias após a prisão.

Em Maringá (PR), um agressor que havia sido preso, também foi solto depois de 2 dias.

Em Mato Grosso o caso mais emblemático é o da jovem Mel Di Pietro. O caso dela teve repercussão internacional em 2018. Mel morava em Santa Catarina onde foi agredida pelo namorado à época.  Até hoje ela aguarda Justiça. O agressor continuou suas atividades normalmente, Mel precisou deixar seus projetos em Santa Catarina e voltou a viver com os pais em Mato Grosso.

Eu poderia continuar aqui citando diversos casos que acompanho de perto, que demonstram exatamente o que acontece com as mulheres que denunciam seus agressores e porque tantas outras, muitas vezes, ainda acham mais seguro continuar com eles do que denunciar.

O sistema é fraco, é falho, é desumano e a vítima, se quiser sobreviver, não tem tempo para o vitimíssimo, precisa engolir toda dor e partir para a luta, sabendo que a segurança depende de si própria.

O Brasil Tem uma das leis mais completas, a Lei Maria da Penha, que prevê desde a prevenção à repressão, como também o aparelhamento necessário para o combate da violência de gênero no Brasil, mas até agora não existe sequer um sistema integrado para alimentação das informações, por isso os levantamentos apresentados não correspondem exatamente à realidade.

As casas de apoio de mulheres vítimas de violência doméstica estão presentes em menos de 3% dos municípios do Brasil, o que dificulta muito o acolhimento dessas mulheres. A falta de profissionais preparados e de estrutura adequada para atendimento das vítimas é outro ponto que precisa ser revisto.

Enquanto isso, eles seguem implacáveis em sua covardia. Ofendem, humilham, controlam, ameaçam, batem e matam.

Eles seguem implacáveis em sua covardia. Ofendem, humilham, controlam, ameaçam, batem e matam.

Sirlei Theis

Para finalizar deixo uma reflexão. Existe uma linha tênue que separa o cidadão de bem do agressor. Esta linha, uma vez ultrapassada, acaba com todo o patrimônio pessoal que o agressor construiu ao longo de sua vida, ou seja, o médico de sucesso perde toda a sua história quando decide agredir a companheira, o Juiz de Direito, o arquiteto, o delegado, não importa, se agredir a companheira entra na vala comum dos psicopatas agressores e assim deve ser tratado pela sociedade.

Não podemos nos calar e tão pouco ter medo de falar o nome do agressor. Toda vez que alguém com dinheiro e poder agride uma mulher e tem seu nome estampado na imprensa ou nas redes sociais, estamos fazendo um favor a todas as mulheres que futuramente poderiam ser tornar a próxima vítima do agressor.

O caso do médico Emilson Miranda Junior demonstra muito bem isso. As primeiras notícias davam conta que o medico E.M.J. havia agredido a namorada. A população imediatamente o identificou nas redes sociais e dai as noticias que seguiram desvendavam o que significava aquele E.M.J.

Em novembro de 2017, Emilson já havia agredido uma namorada. Será que se o caso tivesse sido amplamente divulgado ele estaria por aí a espreita da próxima vítima? Penso que talvez não.

Agora ele terá que ameaçar muita gente, terá que cortar muitas crianças em pedaços, terá que matar muitos juízes para calar a sociedade e esconder sua vergonhosa e abominável ação.

E aqui cabe um questionamento, como alguém que prometeu cortar uma criança em pedaços e matar o ex-marido da namorada sai pela porta da frente de uma delegacia como se nada tivesse acontecido?

Não importa se ele é um bom médico ou filho de família influente, como falei a pouco, ao agredir a namorada ele se colocou na vala comum dos agressores e não poderia de maneira alguma ser tratado com diferença. Assim como disse a mulher agredida em Pernambuco, eu deixo a pergunta para reflexão dos nossos Legislativo e Judiciário. Emilson vai ter que de fato matar alguém ou cortar uma criança em pedaços para aí sim ficar preso?

Há se fosse um pobre assalariado ameaçando matar um juiz e estripar uma criança, sabemos muito bem onde ele estaria uma hora dessas!

Emilson Miranda Junior e os outros agressores devem ter passado o final de semana em casa, caçoando da Justiça e já imaginando qual mentira vão contar para atrair a próxima vítima.

Sirlei Theis é advogada, especialista em gestão pública e escreve com exclusividade para esta coluna às segundas-feiras. E-mail: sirleitheis@gmail.com. Instagram: @sirleitheis. Facebook: sirleitheisoficial

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Comentários (9)

  • Jade Moura | Terça-Feira, 26 de Fevereiro de 2019, 13h33
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    Fera!!!

  • o | Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2019, 11h35
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    Deveria ser encaixado como tentativa de homicídio

  • o | Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2019, 11h33
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    Justiça brasileira, , a justiça é cega não ve nada, prevalece os ricos

  • Maria Aparecida lucke | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 17h25
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    É sou vítima de violência doméstica e o pior dessas situações que as mulheres vítimas até tem coragem de sair de casa pra parar de ser torturadas mas a um questão grave nisso ...sair de não o mais difícil o difícil é sair sem chão se sobrevivencia financeira quando o patrimônio é mantido só no poder do companheiro devia ter uma lei imediata que o agressor fosse obrigado a manter as despesas da vítima porque se ela trabalhou todo tempo junto com ele não justo ela passar nescecidade enquanto ele fica de boa bem sussedido dormindo bem comendo bem fazendo farra com patrimônio dos dois é a vítima sendo humilhada debochada depois de todo sofrimento...é muita injustiça ...com o isso por meu caso é assim.

  • Gonçalina | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 17h04
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    Parabéns Sirlei pela sua coragem, você é admirável.

  • Marta | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 12h50
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    A mulher é barrada,justamente por quem deveria defender ela é seus direito...Se ver em um emaranhado de emoções e medos que a levam a entrar em desespero muitas vezes;um dos maiores desafios é essa cruel realidade,onde a vítima é quem precisa se explicar para a justiça,e o agressor continua sua vida e rotina como se nada tivesse acontecido,enquanto que a mulher,muitas vezes desacreditada pela própria família,amarga o dissabor de uma vida de incerteza e insegurança. precisando começar do zero,sem trabalho,sem renda,sem amigos...

  • Maria Aparecida lucke | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 12h47
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    Sou vítima de violência doméstica canoas e o pior dessas desgraças é agente se afasta ficando sem chão sem direitos do patrimônio na pior Em quanto o agreçor fica de boa com o o patrimônio em mãos se sentindo vitorioso sento que ele é o mal feitor da história..Gostaria q a lei pensasse nesse caso e que imediatamente as vítimas teria direitos de sobrevivencia por direitos justos ...por que na maioria dos casos as vítimas acabam voltando por falar a de sobrevivencia e por aí que os agressores acabam por vitoriosos por repetir as atrações.

  • Lia Sena | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 12h23
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    👏🏻👏🏻 Parabéns ótima reflexão a Violência Doméstica está se tornando fatos corriqueiros e sem importância uma vez que os Agressores saem sempre pela porta da frente e a vítima além das dores físicas e emocionais tem que lidar com o achincalhamento dessa sociedade machista onde muitas vezes a primeira piadinha parte de uma mulher !!! Basta de Violência! Juntas Somos mais Fortes Sempre 🎀

  • Alessandra Moura | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 11h43
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    Meu Deus não podem deixar pessoas que tem poder nas mão condições para fazerem mais vitimas nas ruas aonde esta o valor de um ser humano não prescisa soltar e dar combustíveis a elas pra concluir o mal que desejam se podem prender reeducar estes mal feitor por solta los e as pessoas ameaçadas viverem fugidas com medo oelo amor de Deus vivemos com os valores invertidos .

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