Sirlei Theis

Quando o amor era medo

Por 27/01/2020, 00h:01 - Atualizado: 27/01/2020, 07h:23

Dayanne Dallicani

Colunista Sirlei Theis

 

Na mesma semana em que uma conhecida digital influencer fez um desabafo em seu instagram acerca das agressões que sofreu do namorado, deixando transparecer a dor em sua fala e vestígios da dependência emocional nas frases em destaque na sua postagem, fui surpreendida numa situação que me trouxe tristes e profundas lembranças.

Eu descia do carro numa padaria da cidade quando vi parado no caixa do estabelecimento aquele que um dia quase me matou com uma surra de uma mão de pilão. Depois de anos sem vê-lo, lá estava ele, a poucos metros de mim. A minha reação foi de dar meia volta e ir embora. Não posso afirmar que o sentimento que me fez reagir daquela forma foi o medo, mas sim o instinto de segurança em alerta. Instinto este que muitas pessoas que vivem ou viveram relacionamento abusivos, não dão importância, atitude que inúmeras vezes as levam a compor um “número” nas estatísticas do feminicídio. Abrem a guarda, acham que já estão livres e seguras e abrem uma porta para o passado entrar ou ainda aceitam uma carona para a morte.

A experiência me levou a pensar profundamente nas marcas que um relacionamento abusivo produz em sua vítima. Acostumada a falar para centenas de pessoas sobre o assunto, lá estava eu, saindo em disparada depois de rever aquele que um dia me fez tanto mal, que provocou tanta dor. Ainda tenho medo? Isso algum dia irá passar?

Não se sinta fraca se isto acontecer com você. Tenha calma e siga seus instintos. Recuar nunca será sinal de fraqueza e não conseguir encarar aquele que transformou amor em medo é algo mais que natural.

Eu não denunciei à época, porque a violência doméstica ainda não tinha nome, não tinha lei Maria da Penha e também não existia nenhuma estrutura que garantisse a minha segurança

Sirlei Theis

Para mim foi um choque, afinal tenho me preparado para este momento há muito tempo. Assim, passados tantos anos imaginei que este encontro seria diferente, imaginei que eu simplesmente passaria, seguiria em frente. Mas aquela noite que ele covardemente me atacou com uma mão de pilão saltou como um raio na minha frente. O pulso acelerou e a única saída foi mesmo deixar o pão de queijo pra outra hora, perdi a fome e sai pensando em tudo aquilo.

Eu não denunciei à época, porque a violência doméstica ainda não tinha nome, não tinha lei Maria da Penha e também não existia nenhuma estrutura que garantisse a minha segurança depois da denúncia. Naquele momento entendi que seria mais seguro para mim não denunciar, mas anos depois quando soube que ele teria feito outras vítimas depois de mim, me perguntei, se aquela havia sido a atitude correta. Se eu tivesse denunciado, teria evitado que ele fizesse outras vítimas?

Fato é que não posso voltar atrás, mas posso orientar pessoas a fazer diferente. A denúncia é a melhor saída, mas o ato de denunciar não resolve todos os problemas, principalmente porque ela é feita no ápice da dor. Quando a dor física passa, a dependência emocional assume o seu lugar e, necessariamente, a vítima precisa da ajuda de profissionais para superar essa fase. Sem ajuda, corre o risco de perdoar e voltar para o ciclo da violência, ficando cada vez mais difícil se libertar e o medo passa a fazer parte do dia a dia da vítima.

O ciclo da violência é composto por três fases: a primeira é da tensão – quando o abusador da sinais de agressividade, ofendendo e humilhando a vítima. A segunda é a violência propriamente dita. A terceira é a lua de mel ou o arrependimento, com pedidos de desculpas, perdão e promessas de que aquilo não vai mais acontecer. O intervalo de tempo entre uma fase e a outra vai se tornando cada vez menor e o grau da violência maior. Estudos mostram que uma vez dentro do ciclo da violência, a vítima pode demorar entre 9 anos ou mais para conseguir se libertar.

Em sua definição o medo é uma sensação que proporciona um estado de alerta demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente por se sentir ameaçado, tanto fisicamente como psicologicamente. 

Então termino este artigo com o refrão de uma música do cantor e compositor Frejat. “Quando o amor era medo. Eu achava melhor acordar sozinho. Quando o amor era medo. A vida era andar por entre espinhos.

Sirlei Theis é advogada, especialista em gestão pública, palestrante e treinadora comportamental e escreve com exclusividade para esta coluna às segundas. E-mail: sirleitheis@gmail.com. Instagram: @sirleitheis. Facebook: sirleitheisoficial

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Comentários (5)

  • Ju | Terça-Feira, 28 de Janeiro de 2020, 07h28
    1
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    Triste realidade.... minha mãe nunca conseguiu se libertar... Hoje ela tem sequelas psicológicas dos traumas que vivenciara e as filhas tb...Hoje faço terapia para ser uma pessoa melhor e autônoma pois criei muita dependência...

  • Gonçalina | Segunda-Feira, 27 de Janeiro de 2020, 21h31
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    Exatamente assim Sirlei

  • Ana Karine | Segunda-Feira, 27 de Janeiro de 2020, 15h38
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    É isto mesmo mtas vezes recuar não quer dizer q perdeu, demonstrou fraqueza é uma forma de defesa! Belo texto!

  • Avani | Segunda-Feira, 27 de Janeiro de 2020, 14h23
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    Mas mesmo assim vc é uma guerreira que souber se proteger, no momento certo. Tudo tem sua hora . Sua hora de gritar chegou,

  • Cuiabano Cansado | Segunda-Feira, 27 de Janeiro de 2020, 06h46
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    Belo texto!

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